Publicado em: 24 de maio de 2026
Em tempos de esvaziamento dos cursos de Licenciaturas, esta semana, em homenagem ao dia do profissional de Letras, ocorrido em 21 de maio, vamos refletir sobre a importância desse profissional para a sociedade e para a humanização das relações humanas. Por isso, a coluna desta semana, trará luz sobre como o filme “Sociedade dos Poetas Mortos” é um forte instrumento para entendermos o exercício da Educação e mais especificamente do professor de Literatura na vida de seus alunos. O texto discute um tema que atravessa gerações: o conflito entre uma educação baseada apenas na disciplina e outra voltada para a formação humana. O filme apresenta a rotina de jovens estudantes de uma tradicional Academia, uma instituição rígida e conservadora. Nesse ambiente marcado pelo controle, a chegada do professor de Literatura, John Keating, rompe silenciosamente a lógica da repetição mecânica do conhecimento e introduz uma nova maneira de compreender a literatura e a própria vida. Logo em suas primeiras aulas, Keating afirma aos alunos: “Aproveitem o dia, rapazes. Façam suas vidas extraordinárias”. A frase sintetiza o espírito do filme e o papel humanizador da literatura.O enredo revela que a escola valoriza quatro pilares: tradição, honra, disciplina e excelência. Contudo, por trás desse discurso institucional existe uma estrutura pedagógica que sufoca a individualidade dos alunos. A educação apresentada por essa universidade não forma sujeitos críticos, ela reproduz comportamentos previsíveis. É justamente nesse ponto que a narrativa ganha força crítica, pois evidencia como muitos sistemas educacionais transformam o aprendizado em mera preparação técnica para o mercado e para o prestígio social.O professor Keating surge como contraponto a essa lógica autoritária. Suas aulas não se limitam à explicação formal de poemas. Ele convida os alunos a perceberem a literatura como experiência sensível e humana. Quando pede aos estudantes que rasguem páginas do livro didático ou subam sobre as mesas para observar o mundo de outra perspectiva, ele demonstra que o conhecimento nasce da capacidade de questionar. Em uma das cenas mais emblemáticas do filme, Keating declara: “Subam na mesa para lembrar que devemos olhar constantemente para as coisas de um jeito diferente”. A frase ultrapassa o simbolismo da sala de aula e se transforma em reflexão sobre liberdade intelectual.Nesse aspecto, o filme dialoga profundamente com as reflexões de Tzvetan Todorov. Em sua obra A Literatura em Perigo, Todorov critica a transformação da literatura em objeto puramente técnico e acadêmico. Para o autor, o ensino literário muitas vezes abandona aquilo que lhe é essencial: a possibilidade de compreender a condição humana. Em Sociedade dos Poetas Mortos, Keating recupera exatamente essa dimensão. Seus alunos não estudam poesia para para entender medos, desejos, angústias e sonhos.Ao estimular os estudantes a escrever, interpretar e sentir os poemas, Keating devolve à palavra literária sua potência humanizadora. Essa perspectiva aproxima o filme das reflexões de Antonio Candido, especialmente quando o crítico afirma que a literatura é um direito humano. Para Candido, a experiência literária organiza emoções, amplia a percepção do outro e contribui para a formação ética dos indivíduos. No universo rígido de universidade de Welton, os jovens vivem pressionados por expectativas familiares e sociais. A literatura, então, aparece como espaço de liberdade interior.Em determinado momento, Keating afirma: “Não lemos e escrevemos poesia porque é bonito. Lemos e escrevemos poesia porque somos membros da raça humana”. Trata-se de uma das falas mais importantes do filme, pois resume a compreensão da literatura como necessidade existencial. O professor continua dizendo que medicina, direito e engenharia são importantes para sustentar a vida, mas que poesia, romance, amor e beleza são aquilo “pelo que vivemos”. Essa visão aproxima o filme da tradição humanista defendida por Antonio Candido, para quem a literatura não é luxo, mas elemento fundamental da formação humana.O personagem Neil Perry representa de maneira intensa o conflito entre desejo individual e imposição social. Apaixonado pelo teatro, Neil encontra na arte uma forma de expressão autêntica. Contudo, seu pai deseja que ele siga uma carreira tradicional e prestigiosa. O drama do personagem evidencia os efeitos devastadores de uma educação baseada exclusivamente na autoridade e no controle. A tragédia vivida por Neil não nasce apenas de um conflito familiar, mas de uma sociedade incapaz de ouvir as subjetividades juvenis.Nesse ponto, a narrativa dialoga também com as reflexões de Antoine Compagnon, frequentemente associado à defesa da literatura como experiência indispensável para a vida social e intelectual. Compagnon argumenta que a literatura permite compreender as ambigüidades humanas e resistir às simplificações do mundo contemporâneo. Em Welton, tudo parece organizado em fórmulas prontas: sucesso, carreira, obediência. A literatura introduz a dúvida, a sensibilidade e a reflexão crítica, mostrando que a vida humana não cabe em modelos fixos.A relação entre professor e alunos constitui um dos elementos mais marcantes do filme. Keating não ocupa a posição tradicional do mestre autoritário que transmite verdades absolutas. Ele escuta, provoca, estimula e desafia. Sua prática pedagógica revela que ensinar não significa apenas transmitir informações, Ensinar é despertar consciências. Em outra fala emblemática, o professor diz: “As palavras e as ideias podem mudar o mundo”. A afirmação sintetiza o poder transformador da linguagem literária e da educação crítica.A chamada “Sociedade dos Poetas Mortos”, retomada secretamente pelos jovens, simboliza a necessidade humana de pertencimento e liberdade. Ao recitarem poemas em uma caverna afastada da escola, os estudantes criam um espaço alternativo de expressão, imaginação e descoberta. A poesia funciona ali como resistência contra a opressão cotidiana. Mais do que um clube literário, a sociedade representa a busca por identidade em um ambiente que insiste em apagar diferenças.Outro aspecto importante do filme é sua crítica indireta à educação utilitarista. Em muitos momentos, Welton valoriza apenas profissões consideradas socialmente prestigiosas, ignorando vocações artísticas e emocionais. A narrativa questiona a ideia de que o sucesso pode ser medido apenas por desempenho acadêmico ou status profissional. Nesse sentido, a obra continua extremamente atual, sobretudo em sociedades que frequentemente reduzem o ensino superior à lógica da produtividade e da competição.A literatura, vista a partir do filme demonstra, amplia a capacidade de empatia. Quando os alunos entram em contato com poemas e reflexões existenciais, passam também a compreender melhor suas próprias fragilidades. Essa dimensão humanizadora aproxima novamente o filme das ideias de Antonio Candido, para quem a literatura nos torna mais capazes de perceber o sofrimento, os conflitos e as emoções humanas. Ler poesia, nesse contexto, não é um luxo intelectual, é uma necessidade formativa.O desfecho do filme é profundamente simbólico. Após a morte de Neil e a perseguição institucional a Keating, os estudantes parecem voltar ao silêncio imposto pela escola. Entretanto, a cena final revela que algo mudou irreversivelmente. Quando alguns alunos sobem sobre as carteiras e dizem “Ó capitão, meu capitão”, em referência ao poema de Walt Whitman, eles demonstram que a experiência literária e humana vivida com o professor permanece viva dentro deles. Sociedade dos Poetas Mortos continua sendo uma das obras importantes para refletir sobre educação, literatura e formação humana. Ele cria condições para que os indivíduos compreendam a si mesmos e o mundo de maneira mais sensível, crítica e humana. Em tempos marcados pela pressa, pelo tecnicismo e pela superficialidade, a mensagem do professor de Literatura permanece necessária: “Façam suas vidas extraordinárias”.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista




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