Publicado em: 12 de junho de 2026
Mário de Andrade e Machado de Assis ocupam o epicentro na literatura brasileira e representam momentos históricos e estéticos bastante distintos. Embora Mário reconhecesse a genialidade de Machado de Assis, em diversos textos críticos e correspondências, Mário demonstrou certo desconforto diante daquilo que considerava o excessivo apego de Machado às formas clássicas. Um dos comentários mais conhecidos aparece no ensaio “Machado de Assis”, publicado em 1939, quando afirma que Machado era um escritor de “excepcional inteligência”, mas que sua obra apresentava uma “ausência de lirismo humano mais profundo”. A observação revela que Mário buscava na literatura uma experiência mais emocional e mais diretamente ligada à vida brasileira.
Em outro momento, Mário escreveu uma frase que se tornou célebre entre os estudiosos: “Machado de Assis me desagrada”. A afirmação, frequentemente retirada de seu contexto, não significava rejeição ao escritor. Na sequência de suas reflexões, Mário esclarece que o incômodo vinha da sensação de frieza intelectual presente em parte da obra machadiana. Para ele, Machado observava os seres humanos com uma lucidez quase cirúrgica, mas raramente demonstrava envolvimento afetivo com seus personagens.
Esse desagrado não significava rejeição ao talento do escritor carioca. Na verdade, refletia uma divergência de projeto literário. Para Mário, a literatura brasileira precisava romper com modelos considerados excessivamente vinculados à tradição europeia e construir uma linguagem mais próxima da realidade nacional.
No início do século XX, os modernistas buscavam uma renovação radical das artes. A geração da Semana de Arte Moderna de 1922 defendia a valorização da cultura brasileira, da oralidade, das diferenças regionais e da experimentação formal. Nesse contexto, Machado de Assis era frequentemente visto por alguns modernistas como um autor ligado às convenções literárias do século XIX. Sua escrita elegante, seu domínio da norma culta e sua filiação a formas clássicas pareciam distantes do espírito revolucionário que animava os jovens escritores modernistas.
Mário de Andrade acreditava que a literatura precisava dialogar mais intensamente com a fala do povo brasileiro. Em sua visão, a linguagem literária deveria incorporar expressões populares, regionalismos e construções sintáticas próprias do português falado no Brasil. Machado, embora inovador em muitos aspectos escrevia dentro de uma linguagem marcada por grande refinamento formal. Para Mário, essa característica poderia transmitir uma impressão de distanciamento em relação à diversidade linguística do país.
Outro aspecto que desagradava Mário era a aparente ausência de um projeto explícito de construção da identidade nacional na obra machadiana. Enquanto autores modernistas procuravam investigar o Brasil profundo, suas culturas populares e suas contradições sociais, Machado concentrava-se, sobretudo na análise psicológica, nos jogos de interesse da elite urbana e nas ambiguidades da condição humana. Para os modernistas mais engajados na busca de uma brasilidade literária, isso parecia insuficiente.
Entretanto, a crítica contemporânea reconhece que essa leitura de Mário era parcialmente influenciada pelo contexto de sua época. Hoje sabemos que Machado de Assis foi um escritor profundamente inovador. Sua ironia, sua fragmentação narrativa, sua metalinguagem e sua crítica das relações sociais anteciparam técnicas que seriam valorizadas pelas vanguardas do século XX. Em muitos sentidos, Machado foi mais moderno que diversos autores que vieram depois dele.
O próprio Mário de Andrade, com o passar dos anos, passou a demonstrar maior admiração pela complexidade machadiana. Seu desconforto inicial decorria de uma necessidade histórica de afirmar um novo movimento literário. Mario reconhecia a qualidade da obra Machadiana. Toda vanguarda costuma construir sua identidade em oposição ao que considera tradição. Nesse processo, Machado foi transformado, muitas vezes injustamente, em símbolo de um passado que os modernistas desejavam superar.
A obra Amar, Verbo Intransitivo, publicada em 1927, permite compreender claramente essa ruptura modernista. O romance narra a história de uma governanta alemã contratada para iniciar sexualmente o jovem Carlos, filho de uma família burguesa paulistana. O tema já representava uma provocação aos padrões morais tradicionais da época. Além disso, a narrativa rompe com diversas convenções do romance realista e naturalista.
Em Amar, Verbo Intransitivo, Mário experimenta uma linguagem mais livre, próxima da oralidade e marcada por interrupções do narrador. O texto apresenta comentários metalingüísticos, observações subjetivas e uma estrutura menos rígida do que a encontrada nos romances oitocentistas. Essas características revelam a influência das propostas modernistas de renovação formal e de liberdade criadora.
Apesar das diferenças, existem pontos de aproximação entre Mário de Andrade e Machado de Assis. Ambos exploram a psicologia dos personagens e investigam as contradições humanas. Em Amar, Verbo Intransitivo, o narrador frequentemente comenta os comportamentos dos personagens com ironia e distanciamento crítico. Essa postura lembra, em alguns momentos, o olhar irônico presente em romances machadianos como Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro.
A presença de um narrador que conversa com o leitor também aproxima os dois escritores. Machado transformou essa técnica em uma de suas marcas registradas. Mário, embora a utilize de forma diferente, também rompe a ilusão de objetividade narrativa. Em ambos os casos, o leitor é convidado a refletir sobre o próprio processo de construção da narrativa.
A principal diferença está na relação com a linguagem e com o projeto estético. Machado buscava uma escrita equilibrada, elegante e altamente elaborada. Mário defendia uma literatura em permanente experimentação, aberta às transformações da língua falada e às manifestações culturais brasileiras. Essa divergência explica por que o modernista frequentemente considerava Machado excessivamente ligado aos padrões acadêmicos do século XIX.
Contudo, a palavra “academicista”, empregada por Mário e por outros modernistas, precisa ser entendida historicamente. Atualmente, os estudos literários reconhecem que Machado não era um simples representante da tradição. Pelo contrário, sua obra rompeu com inúmeras convenções de seu tempo. A crítica contemporânea costuma enxergar nele um precursor de técnicas narrativas que seriam amplamente exploradas pelo modernismo e pela ficção pós-moderna.
Assim, o aparente conflito entre Mário de Andrade e Machado de Assis revela menos uma oposição entre grandeza e limitação do que um diálogo entre diferentes momentos da literatura brasileira. Machado representava a culminância crítica do século XIX. Mário simbolizava a energia transformadora do século XX. Se o modernista via o autor carioca como um escritor ligado ao passado, a história literária demonstrou que ambos contribuíram decisivamente para a construção de uma literatura brasileira moderna, complexa e universal.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista




Comments