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Historicamente alçado à condição de vernáculo cultural e elemento aglutinador da identidade nacional, o futebol, paradoxalmente, continua a ser um dos mais resistentes bastiões do patriarcado estrutural. A despeito da aparente sofisticação no discurso público acerca da igualdade de gênero, as dinâmicas que orbitam as quatro linhas revelam um abismo intransponível entre a retórica da tolerância e a práxis da exclusão. É o que descortina o recente e contundente diagnóstico da plataforma Red é de Sangue — iniciativa educacional anti-misoginia da agência Fresh PR, chancelada pela ONU Mulheres (HeForShe) e pelo Sindilegis —, cuja pesquisa, conduzida pela Hibou Pesquisas e Insights com 1.120 cidadãos, mapeia as nuances do preconceito que viceja antes, durante e após os noventa minutos regulamentares.


Os dados evidenciam uma dissonância cognitiva coletiva: o Brasil que rejeita o aforismo anacrônico na teoria é o mesmo que o chancela pelo silêncio ou pela condescendência na prática.


Embora uma esmagadora maioria de 90% dos entrevistados reconheça que as árbitras enfrentam um escrutínio consideravelmente mais severo e desrespeitoso do que seus homólogos masculinos, a solidariedade institucional desvanece quando submetida ao recorte de gênero. Apenas 22% dos homens corroboram integralmente a percepção dessa pressão adicional, sinalizando uma gritante miopia empática ou, pior, a naturalização do hostil ambiente desportivo para as mulheres.


Essa resistência em chancelar a legitimidade feminina estende-se, inevitavelmente, às cabines de transmissão e às arquibancadas: 70% dos brasileiros admitem que a presença de narradoras esportivas incomoda parcela do público, identificando o machismo como o vetor dessa oposição.


Quando a análise migra do plano geral para a convicção íntima, 25% dos homens admitem confiar prioritariamente em prognósticos emitidos por vozes masculinas, e 30% asseveram, categoricamente, que as mulheres não têm a mesma cognição tática ou técnica do esporte.


Para 58% da população, a mulher ainda é compelida a um contínuo e exaustivo exercício de validação de seu conhecimento a fim de que sua condição de torcedora seja tolerada, enquanto 79% testemunham o questionamento sistemático de sua autoridade intelectual no tema.


O indicador mais alarmante do estudo transcende as táticas de jogo e as querelas de arbitragem, adentrando o território da barbárie social.


Indagados sobre a correlação estatística — amplamente documentada por estudos sociológicos — entre os dias de partidas de futebol e o incremento exponencial dos índices de violência doméstica, estarrecedores 81% dos brasileiros manifestaram total ausência de surpresa. O dado expõe a mais cruel face da normalização do abuso: a sociedade brasileira já computa, como externalidade previsível do espetáculo esportivo, o sofrimento físico e psicológico de suas mulheres, um cenário catalisado pela sinergia destrutiva do consumo hiperbólico de álcool e pela proliferação desregulada das apostas esportivas (bets).


O diagnóstico desmistifica a narrativa de que a misoginia contemporânea restringe-se aos guetos obscuros do ecossistema digital ou à retórica radicalizada dos movimentos “Red Pill”. O preconceito está vivo, audível e coreografado nas arquibancadas, nos comentários cotidianos e nas estruturas corporativas da comunicação esportiva.


O futebol brasileiro, se almeja a modernidade, precisa compreender que a dignidade humana não é negociável na mesa de apostas, tampouco passível de anulação por impedimento.

Franssinete Florenzano
Jornalista e advogada, membro da Academia Paraense de Jornalismo, da Academia Paraense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, editora geral do portal Uruá-Tapera e consultora da Alepa. Filiada ao Sinjor Pará, à Fenaj e à Fij.

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