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A efeméride dos 81 anos da assinatura da Carta de São Francisco evoca um misto de solenidade e ironia trágica. Em 26 de junho de 1945, sob os escombros ainda fumegantes da Segunda Guerra Mundial, o concerto das nações buscou erguer um edifício jurídico e diplomático que banisse, em definitivo, o flagelo da guerra. O otimismo daquela aurora jurídica, contudo, esbarra na crueza de uma realidade fragmentada. Como advertia o historiador e pensador Eric Hobsbawm, o século XX inaugurou uma era de “guerra total”, e o século XXI, longe de superá-la, parece ter diluído suas fronteiras, transformando o estado de exceção em regra global.


A conjuntura geopolítica contemporânea desenha um panorama que evoca a clássica máxima de Thomas Hobbes no seu Leviatã: a paz atual se assemelha não à ausência de conflito, mas a uma constante disposição para ele, “uma postura de gladiadores, com as armas apontadas uns para os outros”. Os focos de beligerância se espalham por múltiplos continentes, interconectados por cadeias globais de suprimentos, ciberguerras e rivalidades assimétricas. A multipolaridade do poder mundial, longe de promover o equilíbrio, gerou um vácuo de autoridade onde o direito internacional é instrumentalizado pelos mais fortes.


Nesse tabuleiro, a ONU fica na incômoda posição descrita por Albert Camus em O Mito de Sísifo: a de uma estrutura que empurra exaustivamente a pedra da mediação colina acima, apenas para vê-la rolar de volta sob o peso dos interesses nacionais veto-detentores. Não à toa, seu Conselho de Segurança padece de paralisia congênita. Desenhado para manter o status quo de 1945, ele outorgou o poder de veto justamente às potências que hoje são as principais artífices ou fiadoras dos conflitos. A governança global se assemelha a um tribunal onde os magistrados são, simultaneamente, os réus.


O risco de um conflito de proporções globais — uma Terceira Guerra Mundial atomizada ou híbrida — deixa de ser uma distopia da ficção científica e passa a figurar nos relatórios de risco estratégico. Há uma desconexão profunda entre a retórica humanitária das chancelarias e a práxis militar no terreno. Recordando as palavras de George Orwell em 1984, a inversão semântica do lema “Guerra é Paz” parece materializar-se quando intervenções armadas são justificadas sob o signo da salvaguarda humanitária, enquanto as populações civis permanecem como o “dano colateral” de uma contabilidade macabra.


Não obstante, a reflexão sobre a paz não deve sucumbir ao niilismo absoluto. A diplomacia, ainda que claudicante, continua sendo o único verniz que separa a civilização da barbárie pura. Se a Carta das Nações Unidas parece hoje um documento anacrônico diante da velocidade das guerras cibernéticas e da inteligência artificial aplicada à defesa, seus princípios fundantes permanecem como o norte ético necessário. Como bem sintetizou o poeta Carlos Drummond de Andrade em A Rosa do Povo:


“O poeta declina de toda heresia e aceita a vida como ela é e os homens como são, com sua miséria e sua grandeza, mas não aceita a guerra.”


O panorama mundial exige não o abandono das instituições multilaterais, mas a sua corajosa reforma. O anacronismo do Conselho de Segurança precisa ceder espaço a uma representatividade real do Sul Global e de novas forças, sob pena de a ONU converter-se definitivamente em um museu de boas intenções. Enquanto a arquitetura da paz for refém da geopolítica da força, a humanidade continuará a caminhar na corda bamba, dividida entre a memória de São Francisco e o temor do armagedom.

Franssinete Florenzano
Jornalista e advogada, membro da Academia Paraense de Jornalismo, da Academia Paraense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, editora geral do portal Uruá-Tapera e consultora da Alepa. Filiada ao Sinjor Pará, à Fenaj e à Fij.

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