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Menos de dois meses após defender uma tese de doutorado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o pesquisador Guilherme de Almeida viu um dos conceitos centrais desenvolvidos em seu trabalho assumir uma dimensão concreta fora da academia. Em 9 de junho, foi inaugurada em Pequim a exposição O Brasil de Portinari, instalada no Museu Nacional da China, projeto do qual participa como diretor executivo e que passou a materializar, na prática, reflexões formuladas durante sua pesquisa sobre autoria e protagonismo de pessoas autistas.

Presidente da Autistas Brasil e pessoa autista, Almeida concluiu em abril seu doutorado na Faculdade de Educação da Unicamp. Orientada pela professora Sandra Fernandes Leite, a pesquisa investiga a participação efetiva de pessoas autistas no ensino superior e propõe novos referenciais para compreender sua presença em espaços de produção de conhecimento e tomada de decisão.

Entre os conceitos desenvolvidos está o de autoria histórico-criativa. A formulação descreve o momento em que pessoas autistas deixam de ocupar exclusivamente a condição de beneficiárias de políticas de inclusão para assumirem posições de liderança, criação intelectual e influência institucional. Outro eixo da tese é a noção de justiça neurocognitiva, definida como o reconhecimento de diferentes formas legítimas de pensar, aprender e produzir conhecimento.

A inauguração da mostra dedicada à obra de Candido Portinari acabou transformando essas reflexões em experiência concreta. O projeto leva trabalhos do artista brasileiro ao principal museu chinês em articulação com João Candido Portinari, responsável pela autoridade curatorial da exposição, enquanto a direção executiva está sob responsabilidade de Almeida.

“Há uma vertigem boa em ver um conceito que a gente criou voltar para dentro da própria vida”, afirma Guilherme de Almeida. “Na academia, na própria forma da tese: um autista teorizando e exercendo a autoria autista. E, na cultura, acompanhando a concretização de um projeto que ajudamos a construir no maior museu da China. Se a autoria histórico-criativa valeu para mim, pode servir de mapa para outras pessoas autistas.”

O caso chama atenção também por sua raridade. Levantamento realizado pela Autistas Brasil sobre a presença de pessoas com deficiência em cargos de liderança em grandes instituições culturais identificou que funções executivas e curadorias em museus de grande porte permanecem concentradas em poucos países. Quando ocupadas por pessoas com deficiência, essas posições são mais frequentemente associadas a deficiências físicas ou sensoriais. Registros de lideranças autistas em funções equivalentes continuam pouco comuns.

Segundo a entidade, a direção brasileira da exposição O Brasil de Portinari reúne características pouco frequentes no cenário internacional: uma liderança autista exercendo função executiva em um dos maiores museus do mundo, representando um país do Sul Global em uma das instituições culturais mais relevantes da Ásia.

A pesquisa defendida por Almeida parte da constatação de que muitas organizações avançaram na ampliação do acesso de pessoas com deficiência, mas ainda enfrentam dificuldades para transformar inclusão em participação efetiva. Em sua análise, universidades, centros culturais e instituições de conhecimento frequentemente acolhem pessoas com deficiência como público ou beneficiários de políticas específicas, mas permanecem limitadas quando o tema envolve ocupação de cargos de liderança e influência.

Os desafios encontrados por pessoas autistas no mercado de trabalho ajudam a contextualizar essa discussão. Dados do A.J. Drexel Autism Institute indicam que apenas cerca de 14% dos adultos autistas possuem emprego remunerado nos Estados Unidos. No Brasil, levantamento divulgado pelo Instituto Autismos em 2025 aponta que quase 30% dos adultos autistas estão desempregados ou sem qualquer fonte de renda.

Os índices refletem obstáculos estruturais persistentes e não falta de qualificação profissional. Entre eles está a chamada barreira atitudinal, prevista na Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015), que se manifesta por meio de preconceitos, expectativas reduzidas e mecanismos informais de exclusão capazes de restringir oportunidades antes mesmo do ingresso em processos seletivos.

“Essa barreira tem nome: é a barreira atitudinal, e talvez seja a mais difícil de superar. Diferentemente de uma escada sem rampa, ela é invisível. Está nos pressupostos, nas expectativas rebaixadas e em processos que decidem, antes mesmo da entrevista, que a pessoa autista não vai dar conta”, argumenta o pesquisador.

Em 18 de junho é celebrado o Dia Nacional do Orgulho Autista, data incorporada oficialmente ao calendário brasileiro pela Lei nº 15.365/2026. Diferentemente do Dia Mundial de Conscientização do Autismo, comemorado em 2 de abril, a nova data enfatiza protagonismo, valorização da neurodiversidade e reconhecimento das contribuições de pessoas autistas à sociedade.

Para a Autistas Brasil, a trajetória de Guilherme de Almeida sintetiza essa mudança de perspectiva. A entidade avalia que experiências como a do pesquisador demonstram a possibilidade de ampliar a presença de pessoas autistas em espaços de liderança institucional, produção de conhecimento e tomada de decisões estratégicas, tanto na universidade quanto em organizações culturais de alcance internacional.

Fotos: @juliabrendas

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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