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Não sem conotação política, há uma linha direta entre a simbologia da Grande Muralha da China e The Great Firewall. O que vem a ser isto? Bom, a Grande Muralha, vocês já sabem… Já The Great Firewall, embora muitos saibam, é preciso, por sua vez, explicar: trata-se da barreira cibernética que impede 1,4 bilhão de chineses, bem como os estrangeiros na China, de acessarem os sites e plataformas ocidentais, como Google, Gmail, Facebook, Instagram, X, bem como sites de notícias ocidentais etc e etc.

O Ocidente vê isso como censura, mas a China sempre diz o seguinte: censura, na verdade, são os algoritmos ocidentais e os diretivos políticos e econômicos de cada site, que cerceiam o que você lê e o que você publica de acordo com as diretivas (interesses) do mercado e – evidentemente – do Estado, que, bem, como se sabe, é explorado pelo mercado.

Daí a pergunta que precisa ser feita: onde está a censura: nos algoritmos que determinam o que será visto ou nas políticas públicas que destroem esses algoritmos? São vocês, amáveis leitores, que o respondem (e não eu…).

E, verdade seja dita: no ciberespaço chinês, o barulho feito pela sociedade é imenso, gigantesco, e penso que muito maior do que no “Ocidente”. Se querem ver como isso acontece entrem, sugiro, no WeChat e no RedNote. Eles repercutem intensamente a opinião pública chinesa. Nesses espaços, toda incoerência política, toda corrupção, toda covardia pública, são denunciadas e repercutem, siderativamente, no limite exaustivo de um debate democrático. Inclusive como, em minha percepção, no Ocidente não se tem. Estou conectado há dois meses nesses sites e posso dizer que é incrível a fluidez dos debates e a intensidade das críticas neles presentes. Na verdade, penso o seguinte: se você realmente acredita que publicar alguma coisa no Instagram ou no Facebook constitui uma expressão da sua vontade de expressão, você não estará preparado para entender o que significa liberdade de expressão, digamos, no Instagram e no Facebook.

Isto colocado, falemos a respeito dos sistemas de comunicação da China, antes de voltarmos ao The Great Firewall.

O sistema de mídia e comunicação da China constitui um dos fenômenos mais complexos e singulares do mundo contemporâneo. Frequentemente reduzido, no imaginário ocidental, à ideia de censura estatal ou propaganda política, ele é, na realidade, um arranjo híbrido que articula modernização tecnológica, capitalismo digital, planejamento estatal, soberania informacional e defesa cognitiva. Trata-se de um modelo que combina mercado e direção política, inovação e vigilância, competição empresarial e centralização regulatória.

Pensar nisso é tentador para mim, que, durante anos, ministrei as disciplina Economia Política da Comunicação, na UFPA.

Na verdade, essa dinâmica complexa parte de um mote: desde a fundação da República Popular, em 1949, os meios de comunicação foram concebidos como instrumentos fundamentais de integração nacional, educação política e construção social. Durante a era maoísta, imprensa, rádio e cinema estavam profundamente vinculados ao projeto revolucionário e ao papel pedagógico do Estado. A partir das reformas conduzidas por Deng Xiaoping, sobretudo após o final dos anos 1970, ocorreu uma profunda transformação econômica e institucional. Os meios de comunicação passaram a operar, também, segundo lógicas comerciais, disputando audiência, publicidade e relevância cultural. Contudo, essa abertura econômica não implicou liberalização política nos moldes do competitivismo ocidental de mercado. Consolidou-se, então, uma fórmula peculiar: mercado na economia e direção política na informação.

Nesse contexto, o Partido Comunista da China permanece como eixo estruturante do sistema comunicacional. A mídia chinesa não atua de maneira autônoma em relação ao Estado. Órgãos como o Departamento Central de Propaganda, a Administração Nacional de Rádio e Televisão e a Administração do Ciberespaço da China exercem funções regulatórias, ideológicas e estratégicas. Isso não significa, entretanto, uniformidade absoluta de conteúdo. Há diversidade estética, temática e mercadológica, especialmente no entretenimento, na cultura pop, nas plataformas digitais e no jornalismo cotidiano – sobretudo neste, e de uma maneira muito mais rica e diversa de que no Brasil. Contudo, certos temas considerados sensíveis — como separatismo, organização política independente, críticas diretas ao Partido ou determinados episódios históricos — permanecem sob vigilância.

É nesse cenário que emerge o chamado Great Firewall, um dos pilares da política chinesa de comunicação digital. Frequentemente interpretado apenas como mecanismo de censura, o Great Firewall é, na realidade, um amplo sistema de soberania cibernética. Ele combina infraestrutura tecnológica, filtragem de dados, regulação jurídica, monitoramento algorítmico e políticas industriais voltadas à proteção do ecossistema digital chinês.

Além disso, a China desenvolveu um ecossistema digital próprio. Empresas como Alibaba, Tenente, ByteDance e Baidu tornaram-se algumas das maiores corporações tecnológicas do planeta. O WeChat, controlado pela Tencent, exemplifica bem esse modelo: trata-se de um “superaplicativo” que integra comunicação, pagamentos, serviços públicos, consumo, redes sociais e entretenimento num único ambiente digital. Já a ByteDance, criadora do TikTok e do Douyin, tornou-se referência mundial em sistemas algorítmicos de distribuição de conteúdo.

A política do Great Firewall fundamenta-se na ideia chinesa de “ciber-soberania”, segundo a qual cada país possui o direito de regular seu espaço digital de acordo com suas necessidades políticas, culturais e estratégicas. Sob a ótica do governo chinês, o controle da internet não é apenas uma questão ideológica, mas também econômica e geopolítica. O sistema protege empresas nacionais, reduz dependência tecnológica externa e fortalece a segurança do Estado. Seus críticos, contudo, argumentam que ele restringe a liberdade de expressão, amplia mecanismos de vigilância e limita o pluralismo político.

No campo da televisão, a China mantém um dos maiores sistemas audiovisuais do mundo. O principal conglomerado estatal é o China Media Group, que reúne a CCTV, a China National Radio e outros. Esse conglomerado possui dezenas de canais e atua tanto no mercado doméstico quanto internacional. A televisão chinesa combina programação jornalística oficial, entretenimento de massa, reality shows, concursos musicais, dramas históricos e séries contemporâneas. Os chamados C-dramas transformaram-se, inclusive, em importantes produtos de exportação cultural, alcançando audiências em diversos continentes.

O cinema chinês também experimentou uma expansão nas últimas décadas. A China tornou-se um dos maiores mercados cinematográficos do mundo, frequentemente rivalizando com os Estados Unidos em volume de bilheteria. O setor articula grandes grupos estatais, produtoras privadas e mecanismos regulatórios de roteiros e distribuição. Empresas como China Film Group, Wanda Film e Huayi Brothers ocupam posição central nesse cenário.

Ao mesmo tempo, o cinema chinês revela tensões entre nacionalismo cultural, mercado global e experimentação estética. O Estado incentiva produções voltadas à construção do soft power chinês, incluindo épicos históricos e narrativas patrióticas. Paralelamente, diretores como Zhang Yimou, Jia Zhangke e Chen Kaige desenvolveram obras de forte reconhecimento internacional, muitas vezes marcadas por críticas sociais indiretas, alegorias históricas e reflexões sobre modernização e memória.

O rádio, embora menos central do que em décadas anteriores, continua relevante, sobretudo por meio de redes nacionais e provinciais. Além disso, houve crescimento expressivo das plataformas de streaming de áudio, podcasts e aplicativos móveis. O mesmo ocorre no setor editorial, que combina grandes editoras estatais, universidades, plataformas digitais e um vastíssimo mercado de literatura online. A chamada web fiction chinesa tornou-se um fenômeno de massa, reunindo centenas de milhões de leitores e alimentando adaptações para cinema, televisão, animação e games.

Outro aspecto essencial é compreender que o sistema comunicacional chinês não opera exclusivamente por coerção direta. Diversos pesquisadores observam a existência de mecanismos mais sutis de regulação, incluindo autocensura, negociação cultural, incentivos econômicos e formas indiretas de moderação. Em muitos casos, o nacionalismo digital possui apoio social efetivo, especialmente entre parcelas da população que associam estabilidade política ao crescimento econômico e à ascensão internacional da China.

Ao mesmo tempo, o país investe fortemente em estratégias de projeção internacional. Redes como a CGTN, iniciativas culturais globais, plataformas digitais, produção audiovisual e diplomacia midiática integram um amplo esforço desse soft power. A China busca não apenas ampliar sua influência econômica, mas também disputar a hegemonia narrativa tradicionalmente dominada pelo Ocidente.

Por isso, o sistema midiático chinês desafia categorias simplificadoras. Ele não pode ser compreendido apenas como “mídia estatal”, tampouco como simples reprodução do modelo liberal de mercado. Trata-se de um ecossistema singular, no qual capitalismo digital, planejamento estratégico, nacionalismo tecnológico e controle político coexistem em permanente tensão. Suas contradições são profundas: inovação e censura, globalização e soberania, consumo de massa e disciplina ideológica, plataformas privadas e supervisão estatal. Justamente por isso, a experiência chinesa tornou-se um dos mais importantes modelos alternativos ao paradigma ocidental contemporâneo da comunicação.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Fábio Fonseca de Castro
Fábio Fonseca de Castro é professor da Unversidade Federal do Pará e atua nas áreas da sociologia da cultura e do desenvolvimento local. Como Fábio Horácio-Castro é autor do romance O Réptil Melancólico (Editora Record, 2021), prêmio Sesc de Literatura.

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