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48 anos da Revolução dos cravos

Quatro versos de «Poemarma», do poeta Manuel Alegre, anunciavam o primeiro comunicado da Revolução: «Que o poema seja microfone e fale uma noite destas de repente às três e tal/ para que a lua estoire e o sono estale e a gente acorde finalmente em Portugal». Mas, também, em «Lisboa perto e longe», a estrofe já cantava, sete anos antes, Lisboa na rua, de cravo vermelho na mão: «Lisboa tem um cravo em cada mão/ tem camisas que Abril desabotoa mas em Maio Lisboa é uma canção/ onde há versos que são cravos vermelhos/ Lisboa que ninguém verá de joelhos.»

Passava um pouco da meia-noite daquele 25 de abril de 1974 quando começou a soar na emissora católica de Lisboa “Grândola, Vila Morena”, de Zeca Afonso, proibida pela censura, a senha para o início do levante em Portugal. Era a Revolução dos Cravos, que há 48 anos pôs fim à ditadura salazarista em Portugal. A liberdade chegou com a música e os cravos enfiados pela população nas espingardas dos soldados, encerrando, ao mesmo tempo, 48 anos de ditadura fascista e 13 anos de guerra nas colônias africanas.

Artistas, políticos e desertores começaram a retornar do exílio. As colônias receberam a independência. Não houve caça aos responsáveis pela ditadura, e as dívidas do governo anterior foram todas pagas. Os únicos a oferecer resistência foram os agentes da polícia política. Três pessoas morreram no conflito pela tomada do quartel-general. Ao voltar do exílio em Paris, Mário Soares, o dissidente mais popular do governo Salazar, foi recebido por milhares de pessoas na estação ferroviária de Lisboa. Cravos vermelhos foram jogados de helicóptero sobre a cidade e só se ouvia a famosa canção, que já havia se tornado o hino da revolução.

A ditadura salazarista, que lançara na clandestinidade os partidos e movimentos políticos, abarrotara as prisões com os adversários do regime, exilara os líderes oposicionistas e vigiava a vida cultural. Em 18 horas, as Forças Armadas ocuparam locais estratégicos em todo o país. Acuado pelo povo e pelos militares, o sucessor de Salazar, Caetano Marcelo, transmitiu sua renúncia por telefone ao general António de Spínola e, transportado de tanque ao aeroporto de Lisboa, embarcou para o exílio no Brasil.

Em 1974, Portugal era um país atrasado, isolado na comunidade internacional, embora fizesse parte da ONU e da Otan. Era o último país europeu a manter colônias e vinha travando uma longa guerra contra a independência de Angola, Moçambique e Guiné. O regime de Salazar, iniciado em 1926, havia conseguido se manter através da repressão e fora tolerado pelos países vencedores da Segunda Guerra Mundial. Antes de abril de 1974, os sindicatos eram fortemente controlados, a greve era proibida e as demissões fáceis.

Havia sido derrubada a mais antiga ditadura fascista no mundo. A partir daí começou um processo que consolidou o Estado de Direito em Portugal, a liberdade de pensamento, de expressão, de reunião. Por outro lado, também permitiu o início da descolonização. O canto e as flores andaram juntos em Portugal e sopraram ventos novos para todo o planeta. Hoje Portugal é uma democracia socialista e eleito no ano passado o país mais pacífico do mundo.

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