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Fama de causídico, eu dizia, na crônica anterior, porque meus argumentos lograram convencer, minha família laurista, intransigentemente e atemporalmente laurista, de que meus afetos salvavam, resgatavam para a civilização, minha “maltratada” namorada de família lemista. Alguns precisaram disfarçar as lágrimas quando relatei essa barbárie moral que era o “armário da virtude”, referida nas crônicas anteriores. Laurista hors de son temps (como todos os lauristas, afinal – e há uma duplicidade de sentidos, aqui – uma delas não exatamente favorável), argumentei a favor dos direitos femininos e relatei as lutas antissistêmicas (com cores anticapitalistas) das três Marinas, cada uma delas a seu modo, em sua geração, rebeladas. Venci…

Mas não foi sem esforço, porque andavam desconfiados de mim, em minha família, de que eu era um irridente – ou, eventualmente, um imbecil. Isso porque, por alguma razão que até de mim escapa, eu somente lograva namorar com moças de referência lemista. Bom, confesso que, tímido como me fez Deus, nunca foi fácil conseguir namoradas (se bem que…) e, para mim, seja por irridentismo, seja por ignorância, tanto me fazia se elas eram lemistas ou lauristas. Tanto me fazia, isso nunca foi um problema meu… Mas olhares arregalados me espiavam – enquanto eu me fazia de leso e ia vivendo minha vida, na dialética amorosa da história.

(Espero que compreendam a deleteriedade e o eventual ridículo dessa atemporalidade belemense, de lutas políticas do passado ressimbolizadas eternamente, como se fosse                                                                                                                                                                                                                                         uma disputa entre Remo e Paysandu, ou, em tempos mais idos, entre os bairros da Campina e da Cidade Velha).

Mas não quero falar mais disso. Talvez no futuro. Voltemos a Pina Gomalina, lembram dele? O diplomata aventureiro e galante, cheio de casos e venturas…

Outra história contada a seu respeito o foi, maravilhosamente, por Ruy Castro, em “A Noite do Meu Bem”.

“Em meados de 1947, o diplomata João Batista Soares de Pina, secretário do Brasil na União Soviética, armou uma confusão num salão do Hotel Nacional de Moscou. Com várias vodcas acima do nível da humanidade, ele discordou de um violinista da orquestra quanto à execução por este de “O voo do besouro”, de Rimsky-Korsakov. A querela converteu-se em troca de insultos, tabefes e empurrões, que sobraram também para o harpista, cujo instrumento caiu no chão. De repente havia três litigantes rolando sobre o barquete: Pina, o violinista e a harpa. O maître tentou separá-los e apanhou também.

Os garçons, os demais músicos e bebuns avulsos entraram na briga, alguns a favor de Pina, outros contra, com flautas e batutas sendo usadas como armas. Alguém chamou a polícia e, numa situação desprimorosa para um representante estrangeiro, Pina foi levado dali pedalando o ar e dando bananas para o Komintern, o Kominform, a Cheka, o Politburo e outras instituições locais. Atiraram-no no xilindró e avisaram a Embaixada”.

Ok, chega de Pina Gomalina por hoje. Acabo de ser bruscamente interrompido por minha playlist, tocando sozinha lá do outro lado da minha casa a interpretação de Dircinha Batista para “Nunca”, o clássico de Lupicínio Rodrigues. Estávamos em Elton John e, de repente, surge Dircinha – desconheço a razão, mas acho Dircinha genial, uma das grandes intérpretes da história da música no Brasil.

Minha teoria é que o “mito” Dircinha Batista, à despeito de seu imenso talento, decorre da midiatização do seu crescimento, pois não foi sem espanto que se descobriu que aquela voz doce e translúcida, surgida no rádio em 1935, cheia de esperança, de uma quase-mulher, pertencia a uma quase-menina – ou melhor, de uma menina – de apenas 13 anos de idade.

A própria “Revista do Rádio”, na sua edição 26, publicada em 19 de setembro de 1935, dava o passo inicial para forjar esse mito e de uma maneira que – hoje percebemos, e em relação à qual nos tornamos necessariamente vigilantes – constituía uma violência simbólica, psicológica e física: “Você agora tem treze anos, é uma garotinha deliciosa. Você olha a vida como uma estrada muito longa. Um dia, nesse passo vazio que você vai, os seus olhos de boneca mimada, hão de ter outro olhar de espanto para o caminho interminável percorrido”. Certamente concordam comigo, creio, na compreensão de que essas palavras são de extrema violência – e de que, nesse processo, há toda uma cadeia de forças, de micropoderes, envolvendo não apenas Dircinha, mas o próprio mito das “cantoras do rádio”.

Quanto a Dircinha, surgida em 1935 de maneira espetacular, ainda que na esteira de sua irmã, a igualmente fabulosa Linda Batista, cabe dizer que, já em 1936, era considerada a grande promessa das rádios brasileiras. O jornal “A Nação”, do Rio de Janeiro, por exemplo, na sua edição de 2 de fevereiro de 1936, a seu respeito escrevia: “Esta garota veio para ficar. O samba para ela não tem complicação. Sai, como deve sair. Sem tremeliques na voz, sem breques forçados. Samba, com ela, é o mesmo como se faz no morro: com muita malandragem e bom senso”.

Data desse ano de 1936 sua interpretação de “Alô! Alô! Brasil”, gravada nesse mesmo fevereiro, que roubou a cena no filme “Alô! Alô! Carnaval”, comédia musical produzida e dirigida por Adhemar Gonzaga e Wallace Downey, e lançada pela Cinédia. O filme foi um sucesso estrondoso, sendo considerado um marco na formação do mito-Brasil, uma marca na forja da “identidade nacional brasileira” propugnada pelo varguismo e que, a partir do ano seguinte (o fatídico 1937, ano do golpe do Estado Novo) se tornaria a norma cultural do país.

Já dei muitas aulas sobre esse filme em meus cursos de “Teorias sobre o Brasil” e tendo às dúvidas a respeito de certos aspectos discursivos da Cinédia, mas devo confessar que, apesar do sucesso popular de Dircinha cantando “Alô! Alô! Brasil”, minha preferência recai sobre outra interpretação sua no mesmo filme: “Muito Riso, Pouco Siso”. Coloco os links nas referências abaixo, podem conferir. E, acreditem, vale à pena voltar a ouvir a grande intérprete, a espetacular cantora, que foi Dircinha Batista. Penso que deveria ser um auto-de-fé fazer justiça a ela, escutá-la e, por meio dela, compreender um pouco das sensibilidades brasileiras.

Referências
BATISTA, Dircinha. Pirata. In: Alô, Alô Carnaval! (filme). In: GONZAGA, A.; Downey, W. Rio de Janeiro: Cinédia, 1935. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=DA4waiz8wLI
BATISTA, Dircinha. Muito Riso, Pouco Siso. In: Alô, Alô Carnaval! (filme). In: GONZAGA, A.; Downey, W. Rio de Janeiro: Cinédia, 1935. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=p39dN7LIogc
BATISTA, Dircinha. Nunca. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=aJLnwLlzJpw
CASTRO, Ruy. A Noite do Meu Bem: A história e as histórias do samba-canção. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

Fábio de Castro
Fábio Fonseca de Castro é professor da Unversidade Federal do Pará e atua nas áreas da sociologia da cultura e do desenvolvimento local. Como Fábio Horácio-Castro é autor do romance O Réptil Melancólico (Editora Record, 2021), prêmio Sesc de Literatura.

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