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Terminei a crônica anterior falando sobre o “armário da virtude”, peça de eufemismo e, ao mesmo tempo de ironia e de crueldade da família da minha esposa. Contextualizo-o. Tratava-se, efetivamente, de um armário. Bem escuro, grande e úmido. A avó da avó da Marina, minha mulher, adorava trancar dentro dele os seus netos. Para quê? Segundo o que alegava, para educá-los. Longa é a tradição de educar as crianças, como se sabe, por meio de punições, privações e intimidações. Infelizmente. Mas que dizer da história acontecida? Bom, no mínimo, que ela ilustra as mentalidades… Ilustra no sentido de demonstração…

“Nada como um armário escuro para ensinar às crianças as virtudes cristãs!”, dizia dona Maria Emília. “E bota aquela menina lá, de novo!”

E essa menina era a Marina, sua neta mais danada, mais teimosa, mais levada, mais insubmissa e mais respondona. Não a minha mulher, a avó dela, também chamada Marina e, por sinal, mãe de outra Marina, minha sogra. Três Marinas subsequentes, todas danadas, teimosas, levadas, insubmissas e respondonas.

“Marina, já para o armário da virtude, e já!”

E lá ia a menina, muito aborrecida. Fingindo que não tinha medo (mas tinha). E não adiantava seu pai, o filho de dona Maria Emília, Arthur de Azevedo Valle, protestar. A primeira Marina era órfã de mãe, e quem mandava nela não era seu pai, mas sua avó.

“Vai!”, ralhava essa avó – que, segundo me contam, nunca teve paciência com a primeira Marinazinha, a órfã (por sinal, expulsa de três colégios internos…).

E na sombra da tarde, a malvada ficava sentada no canto da sala, junto da grande janela, ali na avenida Independência, atual Magalhães Barata, na casa lateral à antiga Celpa (que ainda hoje existe) esperando que o armário da virtude corrigisse e educasse seus netos. Não adiantava protestos. Nem de seu marido, Libânio Valle, nem de seu filho, Arthur, e nem de seus irmãos, gentilíssimos e tolerantíssimos que, como disse na crônica anterior, eram os escritores Arthur e Aluízio de Azevedo, o primeiro deles padrinho de Marinazinha.

E devem os estimados leitores estarem a fazer a pergunta: Corrigiu-a, o armário? E a resposta é: Não!

Gente há que é incorrigível. E, embora ainda haverei de contar das peraltices dessas três Marinas, cada uma no seu tempo, cada uma delas atrapalhando o curso da história como pode, quero agora falar de um outro peralta, possivelmente insubmisso a todo armário da virtude: Pinna Gomalina.

Conhecem?

João Baptista Soares de Pinna, o famoso Pinna Gomalina, foi, provavelmente, o diplomata brasileiro mais pitoresco, famoso e relembrado na história do Itamaraty. Atuou na primeira metade de século XX. São incontáveis as histórias a seu respeito, mas uma delas me parece a mais marcante. O caso ocorreu em Lima, Peru.

Pina Gomalina, então conselheiro de embaixada, participava de importante recepção nos jardins de um palácio da cidade. Conversador exímio, encantador de serpentes, decantador de scotchs, acabou emocionando, profundamente, com sua exímia conversação, um embaixador de certo país latino-americano que, provavelmente alterado pelas tais decantações, considerou imperativo fazer um pacto de sangue com Pinna Gomalina – e saltou do bolso um canivete afiadíssimo:

“Mi querido hermano, tenemos que firmar un pacto de sangre para sellar nuestra amistad. ¡Esto es imperativo! ¡Hagamos un corte en la palma de nuestras manos y mezclemos nuestros sangres!”

Pina Gomalina ficou aturdido. Cabe dizer que morria de medo de ver sangue, sobretudo o próprio. Já fugira de dois duelos na sua vida galante e, pelo que se conta, ficava intranquilo até diante de um simples exame de sangue. Imaginem rasgar a palma da mão para misturar seu sangue com o de um outro homem!

Porém, ocorreu que o embaixador de um certo país latino-americano estava falando seríssimo, e ele não poderia fugir do tal pacto sem alguma solução original.

E teve-a: propôs que trocassem “el pacto de sangre” dos latinos pelo “pacto brasileño”, que ele mesmo inventou, no desespero daquela hora e que consistiria, fruto de sua fértil imaginação, no seguinte: cada pactuante urinava na canela do outro.

“¡En Brasil, la orina es más importante que la sangre!”, exclamou, muito dramático.

E o embaixador latino-americano concordou com a situação, de modo que os dois foram vistos, nos fundos do belíssimo jardim do palácio peruano, naquela madrugada, creio de de 1943, um urinando na canela do outro.

O que não deixou de ser bastante comentado da diplomacia do continente, sempre perturbada diante desses “exóticos costumbres brasileños”.

Ah, seu apelido, Pinna Gomalina, se deve ao hábito de empastar seus cabelos com gomalina, de preferência da marca Gumex (décadas atrás um produto famosíssimo no Brasil inteiro, sempre lembrado por sua propagando no rádio: “dura lex, sed lex, no cabelo só Gumex”).

Daí vocês imagem a figura.

E mudemos de assunto. Mas continuemos no enredo. Dura lex sed lex quer dizer, em latim, como se sabe, “a lei é dura, mas é lei”.

Pois bem. No Pará houve uma aplicação alternativa, criada pelo cacique político Antônio Lemos: “Para os inimigos, dura lex, sed lex, a lei é dura, mas é lei. Já para os amigos, dura lex sed latex: a lei dura, mas estica!”.

Certo, todos sabemos (de poderíamos saber) o latim de Lemos era circunstancial, tal como sua política, afinal… (e tratava-se, de fato, de pessoa de escassas luzes).

E foi, justamente, Antônio Lemos quem contratou, por meio de justos contratos e no vigor da honra dos contratantes, Libânio Valle, seu conterrâneo maranhense, poeta, mas comerciante – 99% comerciante, mas 1% poeta, como o próprio Libânio se descrevia – como fornecedor de estoques da intendência belemense.

Como disse acima, esse Libânio Valle era casado com dona Maria Emília de Azevedo. Falta dizer que, na juventude, foi companheiro de sonhos literários (1% poeta…) de seus cunhados Arthur e Aluízio de Azevedo, e seu melhor amigo… Porém, vir de São Luís do Maranhão para a vizinha capital, a plutocrática Belém do Grão-Pará, não se fazia sem escolhas políticas.

As quais eram lemistas.

E isso me arranjou muitos problemas futuros e aperreações sem conta, porque as três Marinas referidas acima eram de “família lemista” – enquanto eu era de família arrebatada, feroz e intransigentemente laurista, e, a pretender me casar com a terceira dessas Marinas, não tive como não lançar mão, a meu favor, perante o tribunal da minha própria família, da conhecida rebeldia dessas três meninas e da maldade – em meus argumentos, maldades lemistas – da sua gente, particularmente o tal “armário da virtude”, sem falar de outras coisas…

Argumentos esses que poderiam ter-me feito fama de causídico…

Fábio Fonseca de Castro
Fábio Fonseca de Castro é professor da Unversidade Federal do Pará e atua nas áreas da sociologia da cultura e do desenvolvimento local. Como Fábio Horácio-Castro é autor do romance O Réptil Melancólico (Editora Record, 2021), prêmio Sesc de Literatura.

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