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O suicídio é, segundo dados de 2018 da Organização Mundial de Saúde, a segunda causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos de idade. Este mesmo estudo, anterior à pandemia, apontava um suicídio a cada 40 segundos. A morte pelo suicídio gera uma sensação de impotência e desamparo extremo. De acordo com a National Action Alliance for Suicide Prevention, cada morte por suicídio impacta em média 115 pessoas. “Um dia o mundo desaba e não se é mais o mesmo”. Frases como essas são frequentes aos que foram atravessados pela dor insuportável do suicídio. Como criar condições para que esse solo completamente fragmentado e estéril possa revificar? Como seguir amando para além da dor?

O tema suicídio é sempre muito denso e está aberto a diferentes perspectivas, em especial por sua natureza multifatorial, complexa e dilemática. Os fatores aos quais o suicídio está relacionado vão desde os de natureza cultural, política, econômica, social, psicológica, até os biológicos. Assim, explicações inequívocas e simplistas devem ser declinadas. Não há uma única maneira de abordar o problema. Aos profissionais da área de saúde mental cabe eleger o que mais se adequa à sua prática, considerando a subjetividade de cada paciente.

O violento sequestro do sonho de estar junto e em harmonia com quem se matou é de uma brutalidade inenarrável. O sujeito é invadido por uma avalanche de sentimentos desacolhedores, sendo os mais frequentes a mágoa, o abandono, a raiva, a vergonha, a revolta, o medo e a culpa, que vão transformando e distanciando tudo aquilo que um dia foi familiar. Dos sentimentos enumerados, a culpa é quase unânime. Ela é a falsa ilusão de uma onipotência na qual poderíamos mudar o rumo dos acontecimentos e também a negação da assimilação de que o suicídio é ato único e exclusivo de quem se mata. Na busca por uma explicação que nunca chega, a dúvida e a culpa acabam caminhando de mãos dadas. Questionamentos do tipo: como não percebi? Fiz algo errado? Eu fui negligente? Se eu tivesse…? Ele (a) não pensou em mim? Como fez isso comigo? É um turbilhão de sentimentos que se mesclam e que atordoam os enlutados. Entretanto, talvez uma das coisas que mais provoque dor é o “ter que continuar”, embora se sentindo perdido e acreditando que jamais conseguirá superar.

O luto, essa dor tão grande que faz o mundo se tornar pobre e vazio, é um trabalho de elaboração que pode ser bem ou malsucedido. Quando o sujeito consegue elaborar bem o luto, ele resgata a libido e dispõe-se novamente a amar e investir no mundo. Mas, quando essa dor é insuportavelmente devastadora, o próprio Eu sofre esse processo de empobrecimento, esvaziamento e aridez. O início de um luto bem elaborado começa com a constatação de que houve a perda – chamada prova da realidade. Somente a partir da conscientização da inexistência do amado é que a libido poderá retornar ao sujeito para posteriormente buscar outros objetos.

Em meio a tanta dor, as pessoas enlutadas pelo suicídio ainda precisam superar padrões sociais, comportamentais, morais, ideológicos que vêm na ignorância, no estigma, no preconceito, nos mitos e tabus, que não raro se apresentam em frases cruéis, como: “a familia nunca deu suporte”, “era um fraco”, “era um covarde”, “foi egoísmo”, “isso é falta de Deus”. Portanto, é imperativo ser avaliado o prejuízo psíquico causado pelo julgamento, pelo desrespeito e pela invasão da privacidade, antes de divulgar uma foto nas redes sociais e comentários maldosos sobre quem suicidou e seus familiares. Atitudes como essas tornam o processo de luto ainda mais desgastante e penoso.

Precisamos, sim, falar de suicídio, pois o silêncio gera ainda mais desamparo e é desnorteador. Porém, a escuta deve ser feita de forma a resgatar com respeito a memória daqueles que, ao partirem abruptamente, deixaram muito da sua existência. O famoso poeta argentino Jorge Luis Borges escreveu: “Tu és nuvem, és mar, esquecimento. És também o que perdeste em um momento. Somos todos os que partiram…”.

France Florenzano
France Florenzano é psicanalista, pós-graduada em Suicidologia pela Universidade de São Caetano do Sul. Whatsapp: (091)99111-5350 Instagram: psifrance2023

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