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Casos de autistas que estão passando fome por terem tido o Benefício de Prestação Continuada interrompido pelo governo federal, de mães atípicas que tentam o suicídio pela falta de rede de apoio e proteção, dificuldade de inserção em atividades escolares e o atendimento inapto do sistema público de saúde foram relatados em audiência pública da Frente Parlamentar de Proteção às Pessoas com Transtorno do Espectro Autista na Câmara dos Deputados. O evento foi presidido pelo deputado federal Felipe Becari (Podemos-SP) e integrou a agenda do Advocacy Day do Lions Club International, que a cada ano defende uma importante causa social da sociedade, ampliando os debates sobre o tema.

Os depoimentos foram de pais e mães de autistas de diversas localidades do Brasil. O BPC foi cancelado para cerca de 90 mil autistas em 2025, e as reavaliações para pessoas que já contam com diagnóstico com CID (Classificação Internacional de Doenças) também foram criticadas.

“Tá muito difícil hoje em dia”, relata Tatiane Souza, mãe atípica e conselheira nacional na vaga de autismo do Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência. “O governo, por portaria, excluiu automaticamente quem foi julgado nível 1 nas perícias. É sobre essas famílias que entrou uma política de segregação do governo enfrentando a lei, enfrentando o Congresso que aprovou a lei, e fazendo cortes daquele que hoje não têm defesa. O mundo invisível (dos autistas) pede socorro”, declarou o presidente da Rede Observatório do BPC, Vinicius Mariano. “O corte, inicialmente, era para ser feito com autistas nível 1, mas estão cortando o benefício dos autistas nível 3, está desesperador”, complementou a advogada Carla Bertin, da instituição Autismo Legal. O autismo é classificado de acordo com o nível de suporte necessário – nível 1 (autismo leve), nível 2 (autismo moderado) e nível 3 (autismo severo).

Na Educação, o Planejamento Educacional Individualizado não é aplicado efetivamente. Mães relataram a dificuldade de manter o filho na escola pela falta de profissionais especializados no acompanhamento dos estudantes autistas. Há crianças que se autoagridem, machucam outras crianças, que fogem da sala de aula e que não conseguem se alimentar sozinhas.
A falta de amparo do Estado na orientação e apoio às famílias de autistas na área da Saúde ficou evidenciada nos depoimentos dos participantes. “Quando você recebe o diagnóstico, você recebe um papelzinho que representa um “se vire. Se vire porque você tem uma lista de especialistas para correr atrás, de terapias que você não consegue vaga para pôr seu filho”, registrou Tatiane Souza.

A realidade de mães atípicas é esgotamento físico e mental. “Eu suplico a vocês providenciarem um atendimento, um centro dia, especificamente para os autistas, porque nós não temos descanso. Hoje eu vi a passeata da escala 6X1 e mãe de autista trabalha 24 horas”, registrou Maria do Carmo Tourinho, mãe atípica de 74 anos, com filho de 42 anos, autista severo. “Somos mães que apanham e não dizem nada. Eles se machucam e as mães sofrem. Mães que chegam para mim e dizem que não aguentam mais viver. Os maridos, logo cedo, batem continência e vão embora”, desabafou, trazendo também o tema do abandono dos pais e das famílias monoparentais.

“Ouvimos aqui mães falando de trabalho sem descanso. Isso tem nome: é trabalho. É trabalho de cuidado. Não reconhecido no Brasil. Não remunerado, não contabilizado. Mas é trabalho. É o caso dessa senhora de 42 anos de trabalho e com medo de morrer e deixar o filho”, declarou Vinicius Mariano. “Ser mãe atípica não é sobre força, é sobre necessidade. Necessidade de acesso à saúde, de continuidade nos tratamentos, de educação inclusiva e, principalmente, por apoio no seu dia a dia. Porque quando falta suporte quem sustenta tudo isso somos nós, mães. E isso não pode ser naturalizado”, ressaltou Keila Seler, mãe atípica, do Projeto Dino.

“Existe um alto nível de suicídio entre as pessoas de nível 1 de suporte. Há um alto nível de suicídio entre as mães atípicas. Eu já cansei de receber ligações de mães à noite, este ano, pensando em suicídio. É muito desgastante”, compartilhou Tatiane Souza.


O autismo na fase adulta, as dificuldades de sobreviver e o bullying pesam. O olhar da sociedade para o autista adulto é limitado e para o autista idoso, quase inexistente.  É questão humanitária sair da bolha e se colocar minimamente no lugar do outro.
O censo do IBGE de 2024 aponta 2,4 milhões de autistas no Brasil. A prevalência mundial é de 1% a 2% da população de cada país. Conhecer as dificuldades dessa parcela da sociedade permite ao poder público criar políticas específicas.

“Precisamos desconstruir o estereótipo que criaram para o autismo, que virou uma forma de qualificação, quando falam ‘você parece um autista’, com o intuito de dizer que a pessoa é antissocial, não fala, que fica no canto dela. Precisamos descontruir isso. Precisamos construir uma nova sociedade onde esses estereótipos fiquem de lado e o preconceito também”, alertou Francisco Djalma de Oliveira, presidente da Associação de Pais, Amigos e Pessoas com Deficiência de Funcionários do Banco do Brasil.

Luiz Geraldo Matheus Figueira, diretor internacional do Lions Club, com mais de 90 anos de idade, sintetizou. ”Em 1942, quando entrei no primário, me deram figuras geométricas desenhadas no papel para que eu recortasse e assim medissem minha capacidade. Passado o tempo, apareceu o QI. Aí se verificou que não era só a inteligência, era preciso também o emocional. Passou um pouquinho e veio o QS, quociente espiritual, social, você tinha que interagir. Aí veio uma outra coisa, que para você empregar sua inteligência, seu emocional, era preciso de autocontrole e passaram a ensinar na escola. Mas hoje, reunido aqui, coloco mais um dado da melhoria, a saúde mental”.

Marcelo Vitorino, da Specialistern, empresa especializada em inserção de pessoas com deficiência no mercado de trabalho, explicou que os autistas têm talentos específicos e que o emprego apoiado consegue inserir pessoas com habilidades importantes. Ele mantém mil trabalhadores com suporte no Brasil e citou o Itaú, que emprega 600 pessoas com suporte. “São empresas que preparam seus times para a inserção, dão acessibilidade e veem valor no talento das pessoas. Um dos autistas para o qual damos suporte fez um sistema que rodava em três horas passar a rodar em 15 minutos. Aproveitamos sempre os talentos que as pessoas têm”.

“Queremos capacitar a sociedade brasileira sobre como se relacionar com uma pessoa neurodivergente. Sua atuação nas redes sociais, deputado Felipe Becari, juntamente com 1.500 clubes no Brasil de Lions e mais de 40 mil leões que temos pelo Brasil, unindo nossas redes para tratar dos temas relacionados ao TEA. Multiplicaremos esse tema em mais de 210 países, em aproximadamente 46 mil células de Lions ao redor do mundo, o que vai multiplicar e muito o debate. A partir do encontro com ongs, aprendemos e daremos voz às entidades e às pessoas que passam despercebidas nesse mundo dos autistas, em especial as pessoas pobres. Temos mais de três milhões de autistas no Brasil, pois não temos um censo atualizado. A realidade brasileira aponta que um em cada 31 indivíduos nasce com autismo no Brasil atualmente. Impossível desenhar qualquer política pública quando não se sabe o tamanho do problema”, expôs o coordenador do Advocacy Day no Brasil, Manoel Messias Mello.

Carla Bertin, do Autismo Legal, explicou sobre o medo que as mães de autistas têm de morrer, deixando seus filhos desamparados. “Se fala muito, mas ainda se faz pouco. Precisamos continuar defendendo os autistas. No Autismo Legal falamos de direito, não de vantagens”, explicou, pontuando que iniciou o projeto a partir de sua própria dificuldade de conseguir informação qualificada sobre os direitos dos autistas.


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