Publicado em: 30 de maio de 2026
Pajé Roxita encantou neste sábado (30), aos 76 anos, encerrando uma trajetória de espiritualidade, ação social, política comunitária e preservação cultural no arquipélago do Marajó e deixando uma rede de luto entre admiradores de sua atuação espiritual e comunitária.
Considerada uma das principais referências da Pajelança Cabocla na Amazônia e conhecida como Dona Roxita, Pajé Roxita ou simplesmente Tia Rô (como era chamada por familiares e amigos), Irandilva Miranda Dalva estava internada em Soure e havia sido transferida para Belém para atendimento especializado. Uma primeira tentativa de remoção aérea precisou ser interrompida na sexta-feira (29), diante do agravamento do quadro clínico. Na manhã deste sábado, uma nova transferência foi realizada, mas a líder espiritual morreu já na capital, a caminho do hospital.
O impacto de sua partida mobilizou homenagens lamentando a partida da figura central na história marajoara. A Pajé tinha presença decisiva para a memória espiritual, social e cultural do território marajoara, além do vínculo afetivo cultivado ao longo de décadas com moradores, amigos e famílias acolhidas por ela.
Reconhecida como uma das últimas guardiãs dos conhecimentos tradicionais do Marajó, Pajé Roxita se tornou referência viva da cosmologia marajoara e da medicina da floresta. Pajé cabocla, dedicou décadas ao atendimento espiritual e à cura tradicional, mobilizando rezas, ervas medicinais, banhos de cheiro e rituais ligados aos Encantados, entidades centrais da cosmologia amazônica. Sua atuação teve papel decisivo para a perpetuação da Pajelança Cabocla, manifestação religiosa amazônica formada pela convergência de elementos indígenas, católicos e afro-brasileiros.
Sua trajetória ganhou ainda relevância por representar uma presença feminina em um espaço historicamente ocupado por homens. Ao longo dos anos, tornou-se símbolo do protagonismo das mulheres na espiritualidade marajoara e da preservação de conhecimentos transmitidos entre gerações.
O reconhecimento ultrapassou as fronteiras do arquipélago. A história de Pajé Roxita foi registrada em pesquisas acadêmicas, documentários e reportagens voltadas à cultura amazônica, alcançando projeção nacional.
Sua presença simbólica também esteve no Carnaval de 2025, quando a escola de samba Acadêmicos do Grande Rio apresentou, na Marquês de Sapucaí, o enredo “Pororocas Parawaras: As águas dos meus encantos nas contas dos Curimbós”, inspirado na cultura parauara, na Encantaria e nas tradições amazônicas. Pajé Roxita foi reverenciada na concepção oficial do desfile como uma das grandes representantes dos saberes ancestrais do Pará. A apresentação garantiu à escola o vice-campeonato do Carnaval carioca daquele ano.
A influência de Pajé Roxita, contudo, não se restringiu à espiritualidade. Em Soure, construiu uma atuação contínua em ações comunitárias e filantrópicas. Presidiu a Cruz Vermelha local e esteve à frente do Centro Comunitário Filantrópico de Soure desde sua fundação, instituição voltada ao acolhimento de crianças e famílias em situação de vulnerabilidade social.
Era notória a dedicação de Pajé Roxita às crianças atendidas pela E.R.C. Centro Filantrópico de Soure, instituição à qual esteve profundamente ligada. Reconhecida pelo acolhimento e pela atenção dispensada a crianças e famílias em situação de vulnerabilidade, ela tinha compromisso contínuo com o cuidado ao próximo, pela atuação em causas sociais e pela disposição em oferecer apoio a quem mais precisava.
O compromisso comunitário também passou pela política institucional. Como vereadora de Soure, exerceu mandato marcado pelo cuidado com pautas ligadas ao interesse coletivo e às demandas sociais do município.
Pajé Roxita também teve atuação marcante na preservação das manifestações culturais do Marajó, apoiando e incentivando grupos de carimbó, quadrilhas juninas e boi-bumbá. Sua participação esteve associada à valorização das tradições locais e ao fortalecimento da identidade cultural marajoara, ajudando a manter vivas expressões populares transmitidas entre gerações.
A despedida pública será realizada em Soure.
Foto: Pajé Roxita após tratamento de cura (dissertação de mestrado “Nas margens de lá: entre caboclos e caruanas na encantaria marajoara”, de Kauã Vasconcelos, disponível em http://objdig.ufrj.br/72/teses/901405.pdf)










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