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“O meu carnaval, quero fazer na base do berimbau. E eu vou cantando assim, tininim tininim tininim”, gravada por Jackson do Pandeiro e cantada aos berros naquele baile infantil de carnaval. Lembro vagamente dos bailes no Palace Teatro (Grande Hotel), Pará Clube ali no início da Nazaré e Clube do Remo. Já fui encontrar Momo na adolescência, frequentando os clubes e mais adiante, participando de um belo movimento que iniciou, creio com o Bandalheira. Concentrava no Largo de Nazaré e saía pelas ruas. Quase em seguida, a cidade foi invadida por blocos, que chegavam ao auge de seu passeio na Presidente Vargas. A Praça da República tomada por uma multidão que brincava a cada bloco, até depois das dez da noite. Tive meus momentos.  O repertório era das marchinhas de sucesso, quase todas da década de 50 e não havia problema. Também saí no Quem São Eles. Mas as motivações carnavalescas foram sendo trocadas por outras e fui desanimando. Onde foram parar todas aquelas pessoas animadas? Em Salinas, Mosqueiro, outras cidades? Pior, agora estão decidindo transformar o período momesco em simples festas, com repertório de paradas de sucesso. Sorte têm os pernambucanos que defendem a ferro e fogo suas tradições e o frevo. Alceu Valença, audacioso, lançou um cd com músicas novas. Os baianos vieram com axé music, ganharam o Brasil, abusaram, mas mantém o que hoje ainda chamam de carnaval, mas aos poucos, mudando tudo. Nos trios elétricos, temos mais shows de música pop, dos artistas que estão nas paradas de sucesso. Nas ruas do Rio e de São Paulo ainda vemos blocos de rua cantando músicas de carnaval. Quem, hoje, lança músicas novas de carnaval? As grandes escolas estão cada vez mais modernas, tecnológicas, midiáticas e com baixa qualidade dos sambas que, por força da velocidade em que se deve marchar no desfile, viraram marchas aceleradas e ruins. Há quanto tempo um samba enredo não se destaca e é cantando popularmente? O grande carnaval carioca está cada vez pior em músicas. Até a transmissão global foi ruim. E o carnaval de Belém? Que carnaval? O desfile das nossas escolas de samba quase acontece na Semana Santa. Tentativa de contar com mais público. Admitiram o fracasso. Um deserto de idéias. E há tantas! Parece que entrou política na área. Ih. Não há mais bailes, nem que seja para fazer shows de artistas pop. Os belemenses parecem ter uma ânsia de escapar para fora da cidade que tanto odeiam. Uns dias longe, enfrentando mosquitos, filas, cerveja quente, praia com chuva e multidão são preferíveis do que estar na cidade. Desconhecem que as datas do carnaval existem por conta da Igreja Católica e seu calendário. Agora estamos na Quaresma. Ou estamos no caminho de ignorar tudo e transformar o domingo gordo, segunda gorda e terça gorda em meros feriados para fugir de Belém? Já amamos mais nossa cidade. Já participamos mais. Estamos nos transformando em uma multidão de pessoas presas em uma cidade quenos aprisiona em um cordão que vai asfixiando e provocando essa vontade de dar o fora. A convivência com vizinhos, colegas de trabalho, quase não existe. Se pudessem, todos dariam o fora. E eu ainda lembro de, cansado fim de noite, nos bailes, decidir voltar para casa apenas após ouvir “Viva o Zé Pereira, viva o carnaval” dos músicos esbaforidos por uma noite trabalhando e também se divertindo. Como era bom!

Edyr Augusto Proença
Paraense, escritor, começou a escrever aos 16 anos. Escreveu livros de poesia, teatro, crônicas, contos e romances, estes últimos, lançados nacionalmente pela Editora Boitempo e na França, pela Editions Asphalte.

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