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Extrair um dente em Portel custa cerca de R$ 100 quando o sistema público não tem vaga. Para chegar até lá, o morador de uma comunidade ribeirinha na Baía de Caxiuanã precisa de duas horas e meia de lancha rápida (ou seis horas de barco). Esse é o cotidiano de saúde de quem vive na Floresta Nacional de Caxiuanã, a 300 quilômetros de Belém. Foi para este contexto que, entre 4 e 14 de junho, uma missão humanitária de cerca de 50 voluntários levou consultas em dez especialidades médicas e terapêuticas, realizando 2.827 atendimentos.

A Caravana da Saúde, coordenada pelos médicos Luciane Faleiros e Marcos Alvinair, operou em três frentes simultâneas: no município de Portel, na Estação Científica Ferreira Penna, base de campo do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, e a bordo do barco-hospital Madonna, que navegou por dois pontos ao sul da Flona, parando em comunidades ao longo da Baía de Caxiuanã. Metade da equipe atuou em cada frente. Nos dois pontos fixos, foram montados consultórios e áreas funcionais para clínicos gerais, pediatras, ginecologistas, psiquiatras, dermatologistas, oftalmologistas, psicólogos, enfermeira, além de cirurgião e anestesista que realizaram procedimentos de baixa complexidade. Medicamentos prescritos foram distribuídos no local.

A estrutura da Estação Científica serviu também de alojamento para os profissionais, uma logística que o coordenador médico Marcos Alvinair definiu como decisiva. Ele integra caravanas da saúde há doze anos e já atuou em Madagascar, Malawi e Moçambique. Para Alvinair, os resultados superaram as expectativas, já que o número de atendidos foi surpreendente devido a imensa demanda tanto em Portel como em Caxiuanã.

Na lista dos problemas mais recorrentes identificados nos atendimentos estão hipertensão arterial, diabetes, obesidade e dores crônicas relacionadas à coluna vertebral, além de queixas abdominais associadas a doenças gástricas. Entre as crianças, predominaram distúrbios gastrointestinais, respiratórios e dermatológicos. Os prontuários produzidos durante a caravana serão convertidos em dados estatísticos, tanto na esfera física como mental e na área psicoemocional, para futuras prospecções e trabalhos de manutenção.

À noite, quando os consultórios fechavam, a programação continuava. Voluntários e moradores participaram de cursos e palestras sobre biodiversidade, acidentes ofídicos, saúde mental, saúde da mulher e prevenção pediátrica.

A iniciativa reuniu o MPEG, as organizações Fraternidade Sem Fronteira e Fraternidade Católica Missionária Ágape da Cruz, a Secretaria Municipal de Saúde de Portel, a Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa (Fadesp) e o Corpo de Bombeiros do Estado do Pará. O conceito que orientou a missão é o de “saúde única”, ou seja, a compreensão de que o bem-estar humano, animal, vegetal e ambiental são interdependentes. A pesquisadora do Museu Goeldi Ana Prudente, que acompanhou o grupo na base científica, articula esse princípio à missão institucional da unidade: “A Caravana da Saúde tem um diálogo estreito com a missão do Museu quando gera conhecimento. A ação promove não só o acesso ao tratamento físico, mas compartilha informações que aumentam a qualidade de vida dos ribeirinhos.” Para ela, a dimensão amazônica torna a separação entre ambiente e saúde humana inviável: “Quando falamos de Amazônia, não conseguimos desconectar o ambiente, a floresta, os vegetais e os animais do ser humano.”

A demanda por oftalmologia e odontologia ultrapassou a capacidade instalada e isso pesará sobre o planejamento para os próximos anos. Alvinair quer fechar parcerias institucionais para tornar a presença regular na região: “Queremos estabelecer caravanas permanentes a partir de 2027, duas vezes por ano naquela região do Marajó, tanto Portel, como Breves, Melgaço e também na Baía de Caxiuanã.”

Com informações da Agência Museu Goeldi.

Foto em destaque: Anderson Teixeira / MPEG

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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