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Ou seria “o desenvolvimento do crime”? Mas quem define o que é crime? Nestes últimos 526 anos, temos visto invasores violentos acusando os invadidos de invasores, os agredidos de agressores, os roubados de ladrões, trabalhadores de vagabundos e famintos de acumuladores. Uma série de inversões, inclusive morais, inclusive anti cristãs, para justificar um modelo de desenvolvimento econômico baseado na acumulação desmedida de renda, riqueza e poder.

Em Pau D’Arco, imperdível documentário dirigido por Ana Aranha e disponível na Netflix, a chacina de dez trabalhadores rurais sem-terra no Pará, em 2017, deixa de ser tratada como episódio isolado de violência policial para aparecer como sintoma de uma engrenagem maior: a articulação entre concentração fundiária, expansão predatória do território, criminalização da luta pela terra e lentidão seletiva da Justiça. O filme acompanha sobreviventes, familiares e defensores de direitos humanos em uma narrativa surpreendente que combina investigação jornalística, memória coletiva e denúncia política.

O maior mérito da obra está em deslocar o olhar do crime em si para as condições que o tornam possível. A violência no campo não surge como desvio moral de alguns agentes, mas como consequência de um modelo de desenvolvimento que historicamente reduz terra, floresta e gente (para trabalhar) a recursos produtivos a serem apropriados, inclusive sob violência física e institucional, para gerarem lucro desmedido.

Nesse enquadramento, a Amazônia aparece menos como paisagem e mais como fronteira de disputa: de um lado, populações originárias, os verdadeiramente invadidos e trabalhadores empobrecidos que reivindicam sobrevivência, moradia e reforma agrária; de outro, interesses econômicos sustentados de fora, por gente que nem mora aqui mas controla o poder local, submetendo empresários rurais que por ignorância de outros modelos de desenvolvimento mais adequados ao próprio território, assumem o papel de meros operadores do terror para saciar um modelo de desenvolvimento insustentável e imoral, pagando todos os riscos ao recorrerem ao vale tudo da corrupção de agentes públicos, inclusive do judiciário, da intimidação, do controle armado dos espaços sociais e de assassinatos.

Ao retratar a busca por responsabilização, Pau D’Arco evidencia que o crime não termina no momento dos disparos. Ele continua nas versões oficiais “apressadas”, nas tentativas de acobertamento, nas ameaças a testemunhas e na demora processual que converte a passagem do tempo em aliada da impunidade. A “Justiça”, na verdade o judiciário, nesse sentido, é apresentado como campo de disputa: pode ser instrumento de direito e reparação, mas também pode funcionar como mecanismo de esfriamento, adiamento e esquecimento da falta de garantia para o exercício de direitos, o que vai muito além do judiciário para daí alcançar o Modelo de Desenvolvimento Econômico. Aí está a Justiça,

* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

João Tupinambá Arroyo
João Claudio Tupinambá Arroyo, doutor em Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente e mestre em Economia pela Universidade da Amazônia, onde está pró-reitor de Pesquisa e Extensão. Pesquisador e militante da Economia Solidária desde 1999, 11 livros publicados, todos acessíveis como ebook. Pedidos para arroyojc@hotmail.com. Siga @joao_arroyo

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