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O Brasil, em sua vastidão continental, sempre foi um gigante. Nossas terras férteis, nossos minérios abundantes e nossa biodiversidade inigualável nos alçaram, há séculos, ao papel de celeiro e mina do mundo. No entanto, ao caminharmos pelas ruas de nossas cidades ou adentrarmos os rincões de nosso interior, uma pergunta ecoa, silenciosa, mas ensurdecedora: como podemos produzir tanto e usufruir tão pouco? 

Essa indagação, que parece simples à primeira vista, esconde um dos maiores paradoxos de nossa história econômica. Somos a 11ª maior economia do planeta, ostentando um Produto Interno Bruto (PIB) que causa inveja a muitas nações. Em 2025, nossas exportações bateram recordes históricos, atingindo a marca de US$ 348,7 bilhões. O agronegócio tem sido o motor incansável dessa engrenagem, respondeu por quase metade desse valor. Somos os campeões mundiais na exportação de soja, carne bovina, café e suco de laranja. Nossos navios partem abarrotados de minério de ferro e petróleo bruto, alimentando a fome insaciável de potências globais, especialmente EUA e China. 

Contudo, quando olhamos para o espelho do desenvolvimento humano, a imagem refletida é dura e amarga, mas infelizmente, real. Ocupamos a modesta 84ª posição no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU. Enquanto nossas safras quebram recordes, nossos jovens amargam a 65ª posição em Matemática e a 52ª em Leitura no PISA. A riqueza que geramos do nosso solo, subsolo e florestas, parece escorrer por entre nossos dedos, sem irrigar as raízes de nossa Sociedade, nossos filhos e filhas. 

O retrato da desigualdade é ainda mais cruel. Somos o 5º país mais desigual entre 216 nações avaliadas. Um seleto grupo, os 10% mais ricos, captura quase 60% de toda a renda nacional. Na outra ponta, metade da nossa população, os 50% mais pobres, sobrevive com míseros 9%. É uma tragédia de inteligência econômica, um abismo social que nos equipara a nações com históricos de profunda instabilidade, além de transformar nossa democracia em uma falácia. 

Mas por que isso acontece? A resposta, dura e incômoda, reside no modelo de desenvolvimento que deixamos acontecer, já que ninguém daqui participou da elaboração nem da decisão. Um processo que nos foi introjetado desde os tempos coloniais. Assim o Brasil consolidou-se como um mero fornecedor de produtos primários, brutos e baratos, as famosas commodities, antes drogas do sertão. Exportamos bens de baixo valor agregado, sujeitos à volatilidade dos preços internacionais e à voracidade de mercados concentrados e importamos, pagando caro, tecnologia que não funciona bem em nosso bioma.  

A dinâmica é perversa. O poder econômico submete o Estado brasileiro, que através de políticas públicas, promove isenções fiscais e crédito subsidiado, financia e sustenta esse modelo. Bilhões de reais em dinheiro público são direcionados para o agronegócio e para a mineração, enquanto a educação, a ciência e a tecnologia definham à míngua. A isenção da Lei Kandir e os generosos planos safra são apenas a ponta do iceberg de um sistema que privatiza os lucros e socializa os custos ambientais e sociais. 

O resultado é um ciclo vicioso. A riqueza gerada pela exportação de commodities não se traduz automaticamente em desenvolvimento humano sustentável. Pelo contrário, perpetua a pobreza, aprofunda a desigualdade e nos mantém reféns de cadeias globais de valor onde a maior fatia do bolo fica fora de nossas fronteiras. Como bem apontam os estudos de Francisco de Assis Costa e Norbert Fenzl da UFPA. Ao analisar a cadeia do açaí na Amazônia, a riqueza produzida localmente muitas vezes evapora antes de beneficiar as comunidades que a geram. 

A Amazônia, aliás, é o epicentro dessa contradição. O bioma mais rico em diversidade do planeta sofre as consequências de um modelo extrativista predatório. A promessa da “economia verde” e da “bioeconomia” corre o risco de se tornar apenas uma nova embalagem para velhas práticas de espoliação, caso não haja uma mudança estrutural, e de gestão estratégica, profunda. 

É imperativo, portanto, repensar que papel queremos ter no mundo. A transição da economia de commodities para uma sócio bioeconomia do conhecimento não é apenas uma escolha, é uma questão de sobrevivência de ser amazônida. Precisamos internalizar a riqueza gerada, agregar valor aos nossos produtos e, acima de tudo, investir no nosso maior capital: as pessoas, nosso trabalho, nossa cultura. 

A verdadeira soberania nacional não se mede apenas pelo volume de grãos exportados, mas pela capacidade de um país de garantir educação de qualidade, saúde digna e oportunidades iguais para todos os seus cidadãos. O Brasil não precisa apenas de “fazedores”, precisa de pensadores, de inovadores, de doutores capazes de transformar nossa riqueza natural em bem-estar social. 

O desafio é monumental, mas a oportunidade é igualmente grandiosa. Temos nas mãos um mercado consumidor interno gigantesco e um potencial científico e tecnológico latente. Chegou a hora de rompermos as amarras desse padrão secular de especialização regressiva. Chegou a hora de o gigante acordar e, finalmente, caminhar com as próprias pernas, construindo um futuro onde a riqueza do nosso solo seja, de fato, a riqueza do nosso povo. 



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

João Tupinambá Arroyo
João Claudio Tupinambá Arroyo, doutor em Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente e mestre em Economia pela Universidade da Amazônia, onde está pró-reitor de Pesquisa e Extensão. Pesquisador e militante da Economia Solidária desde 1999, 11 livros publicados, todos acessíveis como ebook. Pedidos para arroyojc@hotmail.com. Siga @joao_arroyo

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