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Vou tratar, desta vez, de um “detalhe” que Adam Smith, o pai do Capitalismo, esqueceu de mencionar, ou de observar, em sua Obra Prima “A Riqueza das Nações”, para muitos a bíblia do Liberalismo econômico. Spoiler: não é bem assim que funciona. Smith era um gênio da observação, e achava mesmo que a riqueza vinha do trabalho duro de empreendedores individuais. Que visão tocante! Que ingenuidade adorável! Que… bem, a revelia da vontade de Smith, vamos ver o que, de fato, a história escreveu.

Por justiça, como recomenda a ciência, é preciso contextualizar a elaboração de Smith – nenhum pensamento é absoluto. Pois bem, apesar do nosso autor ser conhecido como o “Pai do Capitalismo”, ele não o conheceu. Viveu, atuou e pensou no século XVIII, e com muita coragem se alinhou à John Locke na luta contra o Estado Absolutista, que era a estrutura política que ainda resistia em defesa do sistema econômico feudal que sucumbia ao emergente mercantilismo.


Smith abraçou o Liberalismo de John Locke, contra tudo que dizia Thomas Hobbes em defesa do Estado Absolutista, e o traduziu à economia para fundamentar a necessidade de liberdade para os civis, já que o Estado se metia até na vida pessoal de cada um. Igualdade entre todas as pessoas, já que o rei, e sua corte, era apresentado como ungido divino, seres superiores. E, fraternidade entre os seres humanos, já que a violência dos mais fortes impunha uma distância brutal entre os poucos ricos e os muitos pobres que trabalhavam e geravam a riqueza da minoria rica. Não por acaso, Liberdade, Igualdade e Fraternidade foi a insígnia da maior das revoluções liberais burguesas da história, a Revolução Francesa.


Mas pelo menos Smith teve a benção de não ver o que os capitalistas fizeram do Liberalismo. Hoje, quem diz defender a liberdade, a igualdade e a fraternidade, entre os seres humanos, é acusado de Comunista. Deve ser porque Marx, que veio 100 anos depois de Smith, viu o Capitalismo no auge da Revolução Industrial e se horrorizou com crianças de 10 anos desmaiando em cima das máquinas de tanto trabalhar. Mas a história não cansa de tentar ensinar. Apesar de todo avanço na compreensão das mazelas do Capitalismo aos seres humanos, transformando-o no Estado Absolutista de nossos dias, Marx também não viu os desmandos que alguns fizeram em nome de materializar suas ideias.


Mas indo ao ponto. Após a gloriosa tentativa de Smith, a história revelou o verdadeiro segredo que os países ricos não querem que você saiba: eles ficaram ricos porque seus governos gastaram uma quantidade absurda de dinheiro público para beneficiar segmentos econômicos específicos, inclusive privados, inclusive com guerras fabricadas. Enquanto Smith escrevia sobre a “mão invisível” do mercado para justificar porque retirar o Estado do mercado, o que realmente estava acontecendo era muito mais visível: a mão bem visível do Estado, metida até o cotovelo no bolso dos contribuintes, transferindo recursos para os amigos ricos. Como? É assim até hoje? Claro, pensa aí por quê.


O Protecionismo: Ou Como Ficar Rico Enquanto Prega Livre Mercado


Aqui está o segredo: os países que ficaram ricos fizeram exatamente o oposto do que pregam para os países pobres.


Os Estados Unidos protegeram sua indústria manufatureira por 150 anos! Enquanto hoje dizem aos países em desenvolvimento “abram seus mercados”, eles passaram um século e meio com tarifas protecionistas mais altas que uma montanha. A Inglaterra? Mesma coisa. Os franceses? Ainda hoje mandam seus tratores para Paris quando as coisas não vão bem, e o governo corre para proteger os “agriculteurs” como se fossem patrimônio da humanidade. Recentemente rejeitaram um acordo com o Brasil porque se sentiam ameaçados. Claro, protecionismo puro. Mas chamam de “defesa da agricultura europeia”.


A Verdadeira Inovação: Gastar Dinheiro Público em Coisas Legais


Sabe qual foi a grande inovação que fez os Estados Unidos ficar rico? Não foi um empreendedor individual trabalhando em sua garagem. Foi a máquina de guerra que brotou da I e II Grandes Guerras Mundiais com dinheiro público do povo americano e do que extraiam de suas “colônias”. Foi o governo americano criando a NASA em 1958! O governo pegou bilhões de dólares de dinheiro público e investiu em tecnologia espacial. Resultado? Computadores, satélites, tecnologia de comunicação, materiais avançados. Tudo saiu de um investimento público massivo. Eisenhower simplesmente ignorou a teoria das vantagens comparativas ricardiana e disse: “Vamos fazer tecnologia de ponta”. E funcionou! Depois privatizou as tecnologias geradas com recursos públicos.


Enquanto isso, os países que seguiram o receituário neoliberal de “deixar o mercado trabalhar” continuam exportando commodities(sem valor agregado) e importando tecnologia( com alto valor agregado). Coincidência? Diz aí…


O Segredo Sujo: Acumulação de Capital (Com Dinheiro Público)


A riqueza que se acumula não vem do trabalho individual, assim fosse não teria pedreiro, empregada doméstica nem professor pobre, mas de acumulação de capital com ajuda do Estado. O governo pega dinheiro dos impostos dos cidadãos comuns e investe em infraestrutura, educação, pesquisa e desenvolvimento para beneficiar principalmente os segmentos econômicos dos já ricos, até porque estão retribuindo o apoio de financiamento na campanha eleitoral ou porque são a mesma “pessoa”. É redistribuição de renda… para cima!


Subsídios agrícolas na Europa e nos EUA? Bilhões de dólares por ano. Incentivos fiscais para grandes empresas? Trilhões. Investimento público em pesquisa que depois é privatizado? Rotina. No Brasil, 650 bi para o Agro-commodities. É como se o governo dissesse: “Ó, queridos empreendedores, deixem que nós façamos todo o trabalho pesado de construir infraestrutura, educar a população para consumir e trabalhar pra vocês, fazer pesquisa básica… e vocês apenas colhem os frutos e chamam isso de livre mercado”. Genial, não é?


A Ironia Deliciosa: Quanto Maior, Menos Trabalha


Aqui está a cereja do bolo: quanto maior “o negócio”, menos trabalha o empreendedor. Você conhece aquele empresário que trabalha 80 horas por semana, dorme no escritório? Ele está construindo sua riqueza. Mas o dono de uma multinacional? Está em um iate em Mônaco, tomando champanhe, enquanto seus executivos trabalham para ele. Na verdade, até implica em um estilo de vida, quase 70% dos bilionários o são por que herdaram fortunas. E, pelo menos mais 15% se tornam bilionários por influência no poder público e/ou negócios como guerras, armas, drogas etc. Quanto mais a empresa cresce, mais ela consegue influenciar o governo para passar leis que a beneficiem. É um ciclo virtuoso! Para os ricos, claro.


Os pequenos empreendedores trabalham mesmo. Acordam cedo, dormem tarde, fazem tudo. Enquanto isso, o CEO de uma grande corporação tem um assistente para seu assistente. Ambos são chamados de “empreendedores” e ambos supostamente ficam ricos “pelo trabalho duro”. Só que um deles tem o Estado investindo bilhões em infraestrutura para sua empresa, enquanto o outro paga impostos para financiar essa mesma infraestrutura. Mas se quiser uma saúde melhor tem que pagar plano privado.


Decisões Políticas, Não Mercado


Qual é a verdadeira história da riqueza das nações? Não é a mão invisível do mercado. É a mão bem visível do Estado, sob influência do poder econômico, fazendo escolhas políticas deliberadas para beneficiar segmentos econômicos específicos, através das emendas parlamentares e orçamento público.


Os países ricos ficaram ricos porque seus governos: (1) protegeram suas indústrias nascentes enquanto pregavam livre comércio para os outros; (2) investiram massivamente em educação e pesquisa própria com dinheiro público; (3) construíram infraestrutura que beneficiava principalmente os ricos; (4) fizeram escolhas políticas deliberadas sobre quais setores financiar; (5) acumularam capital de forma concentrada, com ajuda do Estado.


Enquanto isso, os países pobres foram instruídos a fazer exatamente o oposto: abrir seus mercados, privatizar, desregulamentar. Resultado? Continuam pobres, exportando commodities, sem valor agregado e importando tecnologia, pagando royalties. É como dizer: “Nós ficamos ricos usando protecionismo e investimento público massivo. Mas vocês têm que usar livre mercado. Confia em mim, funciona”. E depois ficamos surpresos quando não funciona. Ou, porque nossos tomadores de decisão, sabem o que fazem e se contentam com as migalhas que lhes jogam.


A Amazônia e a Lição Não Aprendida


Na Amazônia, temos uma oportunidade de aprender essa lição. Temos estudos próprios, daqui, sobre cadeia de valor em produtos florestais. Temos conhecimentos para desenvolver sistemas complexos. Temos experiências e pesquisas socioculturais mostrando que é possível fazer economia de forma diferente, internalizando a riqueza que já geramos. Mas o que fazemos? Continuamos esperando que o “mercado” resolva. Continuamos esperando que empreendedores individuais consigam competir com multinacionais que têm bilhões em subsídios. Ou que um redentor nos salve. Protagonismo, nem pensar.


A Economia Solidária, que pesquiso e experimento há 20 anos, não é um retorno ao passado. É uma inovação comportamental genuína. É reconhecer que as pessoas não são apenas maximizadores de lucro, que a cooperação pode ser mais eficiente subordinando a competição, como aliás fizeram no Vale do Silício que estudei. Que o desenvolvimento pode ser local e contextualizado. Que a riqueza não se resume em dinheiro mais em qualidade de vida, incluindo segurança e boas relações humanas. É preciso escolher a dignidade humana como centro da atividade econômica.


Conclusão: A Verdade Que Ninguém Quer Ouvir


A verdadeira história da riqueza das nações é que a riqueza da nação não vem do trabalho individual, mas de decisões políticas. Os países ricos não ficaram ricos por serem melhores ou mais trabalhadores, mas porque seus governos fizeram escolhas deliberadas para beneficiar seus cidadãos ou parte deles. O livre mercado é uma religião pregada por quem já está rico, não uma lei da natureza.


Adam Smith estava certo sobre uma coisa: há uma “mão invisível” no mercado. Mas ele não percebeu que essa mão é frequentemente a mão do Estado, transferindo recursos de forma invisível para os ricos. A boa notícia? Agora sabemos a verdade. E na Amazônia, poderíamos fazer algo diferente: usar essas mesmas ferramentas (investimento público, proteção de cadeias de valor, decisões políticas deliberadas), mas para beneficiar todos, não apenas alguns poucos. Será que conseguimos? Isso depende de decisões políticas, que começam nas escolhas de cada um de nós. Exatamente como a história, a ciência das ciências, revela.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

João Tupinambá Arroyo
João Claudio Tupinambá Arroyo, doutor em Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente e mestre em Economia pela Universidade da Amazônia, onde está pró-reitor de Pesquisa e Extensão. Pesquisador e militante da Economia Solidária desde 1999, 11 livros publicados, todos acessíveis como ebook. Pedidos para arroyojc@hotmail.com. Siga @joao_arroyo

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