Publicado em: 26 de abril de 2026
Roy Batty, o androide replicante Nexus-6 da Tyrell Corporation, na interpretação magistral de Rutger Hauer, foi um dos grandes personagens que minha geração contemplou em cinemas de rua, telas gigantescas com projeção em película, coisa fina que não se encontra mais. Humanóide criado com incrível verossimilhança, capaz até de emocionar-se, Roy chegou ao ápice quando sentiu a mais humana das angústias: a perplexidade diante da morte, também compreendida como medo do desconhecido, melancolia ínsita no que José Saramago chamou de “ter estado e já não estar.”
O filme era Blade Runner, dirigido pelo britânico Ridley Scott, e sua grande questão passava pela revolta dos replicantes, comandados por um indivíduo profundamente inconformado com seu exíguo prazo de validade – entre ligar e desligar, ou nascer e morrer, os androides duravam apenas quatro anos. Na cena final, depois de demonstrar surpreendente compaixão e salvar da queda o antagonista Rick Deckard, vivido por Harison Ford, o robô biologicamente avançado declama um belo monólogo para lamentar que todas as suas experiências sejam desperdiçadas com a morte – um nada absoluto “perdido no tempo como lágrimas na chuva”:
“I’ve seen things you people wouldn’t believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched C-beams glitter in the dark near the Tannhäuser Gate. All those moments will be lost in time, like tears in rain… time do die…”
Recentemente revi a cena algumas vezes. Ela veio a mim por obra e graça do algoritmo nosso de cada dia, esse déspota que pretende determinar aquilo que devo assistir, ler e ouvir, não raro em total desconexão com a minha verdade. Ao menos desta vez, contudo, não posso imputar mau gosto ao moderno tirano. O que ele me serviu foi banquete de memórias e emoções.
Fato é que, ao rever e relembrar a crise existencial do replicante, fui levado a refletir sobre aquilo que eu e meus contemporâneos vimos, vivemos e deixamos para trás, perdido no tempo, esquecido e invisibilizado como lágrimas misturadas à chuva. Na realidade, tenho sempre a impressão de que integro uma geração muito particular, que não pertence a um tempo específico, mas sim a uma transição entre tempos bastante diversos e peculiares.
Nasci numa época em que o conhecimento tinha um aspecto físico, denso e maciço, guardado que estava em livros, enciclopédias e bibliotecas; em que a comunicação era incipiente, precária e apenas ensaiava seus primeiros passos. Encontrar informação passava por manusear pesados tomos e indecifráveis índices onomásticos; era preciso percorrer diferentes volumes, variados fascículos, múltiplas edições. Para falar ao telefone era necessário aguardar conexão, consultar telefonistas ou esperar em filas às portas das agências públicas dos municípios interioranos. Correspondência era sinônimo de carta escrita à mão e enviada pelo correio.
A televisão era um móvel de tamanho considerável, dotado de válvulas e transistores, com um cubo de vidro que até fevereiro de 1972 transmitia imagens em preto e branco. As opções era poucas, duas ou três estações, dois ou três canais, e a programação tinha hora para iniciar e terminar, deixando-nos nos intervalos com faixas horizontais e chiados, sem que houvesse controles remotos aptos a interrompê-los à distância.
Em tudo havia uma certa pedagogia da espera, um ato físico, um esforço minimamente relevante. Levantávamos do sofá para girar seletores, usávamos os dedos para girar discos, depositávamos fichas metálicas em telefones públicos curiosamente apelidados de orelhões. Mais adiante, vieram os aparelhos com teclas, alguns deles sem fios, e as fitas e vídeos cassetes que éramos obrigados a rebobinar até surgirem os dispositivos auto-reverse – atualmente rebobinar é verbo que não existe mais, perdeu a lógica, demitiu-se de qualquer utilidade e já não compõe o vocabulário nacional.
Tudo isso sumiu, desapareceu, escafedeu-se, tal qual Arlindo Orlando, “um caminhoneiro conhecido da pequena e pacata cidade de Miracema do Norte…”. Estávamos a dois passos do paraíso e não sabíamos… Hoje o conhecimento humano é fluido, armazenado em nuvem, transmutou-se em dados eletrônicos acessíveis à ponta dos mesmos dedos que acionavam rudimentares mecanismos de discagem. Agora a informação desliza em telas lisas, praticamente sem atrito ou fricção – o que antes tinha peso agora flutua.
O que minha geração experimentou nenhuma outra experimentará tão cedo, e isso me leva a pensar que não apenas vivemos mudanças, fomos compelidos a traduzir linguagens, obrigados a nos tornar fluentes em dois idiomas, praticamente dois alfabetos – o da escassez, a demandar espera, paciência e materialidade; e o da abundância, a esbanjar velocidade, instantaneidade e virtualidade.
Fomos lançados à travessia tal qual cegos em corda bamba, oscilando entre a riqueza que se conquistava com dificuldade e esforço, e os riscos inerentes àquilo tudo que se tem em excesso. Logramos êxito, chegamos ao outro lado do abismo temporal que divide o incensado hoje de um ontem que parece estar há centenas de anos – comparando o mundo em que estou àquele em que nasci, posso considerar-me quase um neandertal.
Não se pode perder de vista, todavia, se pretendermos ser honestos, que a seguir no mesmo ritmo em breve seremos meros replicantes, humanoides insensíveis às idiossincrasias humanas que seguem incólumes, e que nem as mais incríveis inovações conseguem ou almejam aniquilar. Um mundo de oportunidades literalmente na palma de nossas mãos, a rolar conteúdos em efervescência, ainda não se demonstrou eficiente o bastante para curar as feridas que nos roubam a saúde social.
Nas palavras do Discurso de Estocolmo, proferidas pelo nobel português que tanto admiro: “Neste meio século não parece que os governos tenham feito pelos direitos humanos tudo aquilo a que estavam moralmente obrigados. As injustiças multiplicam-se, as desigualdades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra. A mesma esquizofrênica humanidade capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas, assiste indiferente a morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante. Alguém não anda a cumprir o seu dever…”
Que seja esta a missão bem sucedida dos que nos sucederão – agregar humanismo e valor ao muito que nos desenvolvemos tecnologicamente, mais atentos ao entorno, cientes de que a maior conexão é o amor ao próximo e que toda inteligência, real ou artificial, terá pouca serventia enquanto uma criança estiver fora da escola, sem ter à mesa, três vezes ao dia, um prato de comida.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista





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