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Sentar para conversar com meu filho Lucas é sempre um exercício de tradução cultural e do “internetês” que já domina o mundo. Recentemente, enquanto eu tentava processar uma dessas polêmicas passageiras da internet, ele me observou com aquele olhar de quem domina um código secreto e sentenciou que tal assunto já havia alugado um triplex na minha cabeça. “Mãe? Não deixa isso entrar na tua mente!” A princípio, a imagem me pareceu curiosamente luxuosa para descrever um simples incômodo, mas logo compreendi a arquitetura da gíria.

Na era digital, as ideias não apenas passam por nós; elas se instalam, ocupam todos os andares do pensamento e, com uma audácia impressionante, recusam-se a pagar o aluguel. Essa lição de vocabulário da internet abriu caminho para uma reflexão maior sobre como as mídias digitais transformaram a nossa capacidade de afetar o próximo.
Percebi que a língua das redes sociais é moldada pela reação imediata e pelo impacto. Existe uma habilidade contemporânea, quase uma arte marcial psicológica, que consiste em entrar na mente das pessoas e desestabilizar a tranquilidade delas com uma precisão de corte a laser.


Em outros tempos, dizíamos que algo nos deixava com a pulga atrás da orelha, mas o termo atual sugere algo muito mais permanente e invasivo. O triplex representa o sucesso de quem deseja ser um inquilino indesejado na nossa psique, transformando o nosso sossego em um território ocupado.


A Moeda Invisível da Economia da Atenção


Nesse cenário, a elegância mudou de endereço porque o valor das coisas também mudou. Lucas me explicou, à sua maneira, o que os estudiosos chamam de economia da atenção. Em um mundo em que somos bombardeados por estímulos a cada segundo, o nosso foco se tornou o recurso mais escasso e valioso do planeta.


As plataformas digitais e as pessoas que nelas habitam não lutam apenas pelo nosso clique, mas pelo nosso tempo de antena mental. Quando alguém consegue entrar na nossa mente e provocar um incômodo persistente, essa pessoa ganha uma fatia da nossa riqueza mais preciosa. O triplex, portanto, é o lucro máximo de quem soube sequestrar a nossa atenção, transformando a nossa paz em um ativo que gera dividendos para o algoritmo.


Proteger a própria atenção, hoje, exige mais do que simplesmente selecionar o que consumimos; implica desenvolver um filtro interno contra informações que nada constroem e apenas se alimentam da nossa energia mental, aquilo que, se não vigiado, facilmente “aluga um triplex” na nossa cabeça.


Nem tudo o que atravessa a nossa timeline merece permanecer. É preciso aprender a encerrar, com certa disciplina emocional, aquilo que não conduz a nenhum crescimento; resistir ao impulso quase automático de revisitar incômodos e, sobretudo, recusar o diálogo interno com provocações vazias. Esse tipo de filtragem não empobrece a experiência; ao contrário, preserva o espaço psíquico para o que realmente importa, impedindo que ruídos passageiros se instalem como presenças permanentes na arquitetura do pensamento.


Nesse contexto, podemos falar também de uma espécie de fagocitose mental, em que passamos a engolir conteúdos externos de forma quase automática, como se tudo precisasse ser processado e integrado. No entanto, diferentemente do processo biológico, que protege o organismo, aqui muitas dessas “ingestões” não nutrem; apenas sobrecarregam.


Absorvemos polêmicas, opiniões alheias e estímulos irrelevantes como se fossem essenciais, quando, na verdade, caberia à consciência exercer um papel seletivo mais rigoroso. Aprender a não fagocitar tudo o que nos atravessa é, portanto, um gesto de lucidez, uma forma de preservar a integridade do pensamento e impedir que o excesso de mundo comprometa a qualidade da nossa vida interior.


Se antes a sofisticação estava em não incomodar, hoje a dinâmica digital parece premiar quem consegue ser inesquecível pelo desconforto que causa.


Lucas me explicou que existe até uma glória em viver rent free (sem custos) na mente de quem nos detesta, uma forma de domínio em que o outro não consegue mais agir sem considerar a nossa presença invisível. É um tipo de poder que ignora as fronteiras físicas e se manifesta no silêncio de uma madrugada de insônia, quando um comentário lido na tela continua a reorganizar os nossos móveis mentais contra a nossa vontade.


Aprendi que, para os jovens, certas atitudes minhas são consideradas cringe, uma vergonha alheia que, ironicamente, também aluga seus próprios quartinhos na cabeça dele. Ele me disse que eu não deveria me importar tanto com o flop de uma ideia ou com o julgamento alheio, pois o importante é manter o hype da vida real. Enquanto ele falava sobre como o mundo agora é dividido entre quem “lacra” e quem apenas observa, percebi que a internet transformou a convivência em um grande meme coletivo, em que o it’s over (acabou) de uma reputação pode acontecer em um piscar de olhos.


Enquanto ele falava, notei que eu também tentava as minhas próprias invasões. Ao questionar suas gírias e oferecer conselhos que ele considera obsoletos, eu estava, de certa forma, tentando garantir o meu próprio espaço naquele condomínio mental tão disputado. Lucas, com a rapidez de quem nasceu conectado, percebeu a manobra e brincou que meus sermões já formavam um edifício inteiro na mente dele, embora estivessem com o condomínio atrasado.


Foi um momento de clareza mútua, em que entendemos que a comunicação moderna é, no fundo, uma disputa por espaço interno. Aceitar que certas ideias alugaram um triplex na minha mente é admitir que a minha tranquilidade se tornou permeável. A tecnologia não trouxe apenas ferramentas de diálogo, mas novas formas de presença que desafiam a nossa privacidade emocional. Aprender essas expressões com o meu filho é mais do que uma simples atualização linguística; é entender como proteger as chaves da própria mente em um mundo em que todos querem ser moradores, mas poucos se preocupam com a paz da vizinhança.


No fim das contas, a estratégia talvez seja saber selecionar exatamente quem merece uma cobertura de frente para o mar e quem deve ser um transeunte na paisagem mental.
E você? O que está roubando seu tempo e atenção na internet?
Cuide dos espaços valiosos da sua mente. Nem todo conteúdo merece morar nela, e menos ainda permanecer.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Shirlei Florenzano Figueira
Shirlei Florenzano, advogada e professora da Universidade Federal do Oeste do Pará - UFOPA, mestra em Direito pela UFPA, Membro da Academia Artística e Literária Obidense, apaixonada por Literatura e mãe do Lucas.

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