Publicado em: 19 de abril de 2026
Desconfio que talvez este espaço não seja apropriado para compartilhar as inquietações que tenho na minha rotina de leitura e escrita, mas sinto que devo dividir este processo com os amigos que também estão travando uma luta para encontrar sentido no que estão lendo e produzindo.
Em tom de confidência, estou em uma pequena e persistente batalha com a ferramenta Obsidian, percebo que não estou apenas aprendendo um aplicativo, mas sendo levada a uma forma de pensamento que se reorganiza no próprio ato de tentar organizá-la. A interface sugere ordem, estrutura, continuidade, e o que se instala é um deslocamento progressivo do lugar onde imaginava que o pensamento se estabilizava, como quando começo uma nota sobre um tema jurídico e acabo abrindo várias outras, que passam a redefinir o que eu pretendia escrever inicialmente. O processo de escrever passa a interferir diretamente na forma do pensamento, como se ambos fossem a mesma operação em estados diferentes.
Nesse movimento, retorno a Niklas Luhmann e ao seu modo de trabalhar com caixas, ou fichas, unidades de sentido que existem pela conexão e não pela completude. Uma nota curta sobre autopoiese, por exemplo, não precisa explicar tudo, basta ligar-se a outras, como sistema jurídico ou decisão. O pensamento aparece e se sustenta na articulação entre fragmentos, e cada fragmento ganha consistência na medida em que entra em relação com outros, formando um campo em recomposição permanente.
Luhmann antecipou a transição do pensamento em linha reta para o pensamento em rede. Este texto nasce dentro dessa dinâmica, em que escrever acompanha o próprio processo de formação do pensamento. A escrita deixa de funcionar como registro de algo concluído e passa a operar como parte do que está sendo produzido, como quando uma ideia leva imediatamente à criação de uma nova nota, que altera o rumo do próprio texto.
O movimento se dá em tempo irregular, com deslocamentos que fazem parte do próprio método. Muitos estudantes usam post-its e mapas conceituais para fugir da forma tradicional linear de construir ideias e textos. Luhmann chamava este método de comunicação com o próprio arquivo: o sistema (seu Zettelkasten) começa a ter uma complexidade interna que o surpreende, devolvendo conexões que você não planejou conscientemente.
Há, neste momento, uma sensação de saturação das formas tradicionais de organização do conhecimento dentro do próprio ambiente acadêmico. As hierarquias continuam operando como dispositivos de ordenação, mas o fluxo de informações já não se acomoda a esses modelos, como ocorre ao alternar rapidamente entre textos, vídeos e anotações.
O que se apresenta é um campo de circulação intensa, no qual o pensamento se distribui por múltiplas direções e se reorganiza conforme avança. Tocamos em um ponto nevrálgico da epistemologia contemporânea do direito, por exemplo: a tensão entre a necessidade de fechamento do sistema para gerar segurança jurídica e a abertura necessária para que o Direito não se torne um museu de conceitos anacrônicos.
A produção do conhecimento na contemporaneidade desafia a chamada falácia do colecionador, ao postular que o saber não habita a inércia do acúmulo de fontes, mas a vibração do acontecimento intelectual. Onde o colecionador vê um tesouro de dados estáticos, o pensamento reconhece uma paralisia de conexões, pois a informação acumulada e não processada asfixia a capacidade de produção com inovação.
Superar a tentação do arquivo absoluto exige compreender que a verdade não é uma propriedade a ser estocada em silos digitais, mas uma síntese provisória que emerge do diálogo entre a memória técnica e a intuição viva. Assim, o conhecimento deixa de ser um inventário de fragmentos para se tornar um exercício de liberdade, no qual o sujeito abdica da segurança da posse em favor da incerteza criativa das conexões.
Luhmann se insere aqui como uma prática de operação do pensamento. O Zettelkasten organiza por distribuição, criando unidades que existem pela rede de relações que constroem, como, por exemplo, no estudo do direito, notas independentes sobre dolo, culpa e tipicidade que passam a se conectar depois. Cada nota participa de um sistema de conexões que não se encerra em si mesmo e se mantém em expansão contínua. O método desterritorializa o conceito do manual de Direito e lhe permite habitar outros contextos sociológicos ou filosóficos, em rede cognitiva.
No Obsidian, essa lógica se torna visível na prática. Cada nota aparece como unidade limitada, e essa limitação é o que permite a circulação do sentido, por exemplo, uma anotação breve sobre proporcionalidade que ganha força ao se ligar a outras. O significado não se concentra em um ponto, mas se forma no percurso entre pontos, nas conexões que se estabelecem e se reconfiguram a cada nova inserção. Isto é um método, portanto, requer prática e exercício.
Alerta: é preciso estar atento para que tais ferramentas não se transformem em um exoesqueleto cognitivo que altera a biologia do seu raciocínio. O risco reside em deixar que a estrutura do software substitua a lógica da descoberta, trocando a intuição humana pela automação dos links. A tecnologia deve servir ao pensamento, e não se tornar uma prótese que atrofia a capacidade de síntese subjetiva.
Essa vigilância contra a rigidez deve estender-se também à forma do texto acadêmico tradicional. Frequentemente, o rigor das normas e as estruturas lineares rígidas institucionalizam a falácia do colecionador, premiando o empilhamento exaustivo de referências em detrimento da intuição.
Onde a academia exige um inventário de autoridades como escudo de segurança, o pensamento em rede propõe a vulnerabilidade da síntese, subvertendo a linearidade para refletir a verdadeira complexidade da descoberta.
A ideia de caixa passa a designar uma unidade de passagem. Cada caixa opera como um ponto de conexão que mantém o pensamento em movimento, como quando uma nota leva a outra em sequência sem encerrar o tema. O sentido se estabiliza apenas de maneira provisória, suficiente para permitir novas ligações.
Nesse percurso, ideias jurídicas, filosóficas, sociológicas, psicológicas… aparecem como fragmentos em circulação: redução de complexidade, norma como operação que organiza possibilidades, autopoiese como continuidade do sistema jurídico. Esses conceitos funcionam como elementos que se cruzam e se reorganizam conforme entram em contato, como quando a noção de norma muda ao ser ligada à interpretação ou à decisão.
A própria decisão jurídica é um resultado dessas articulações. A contingência participa do funcionamento do sistema como elemento estrutural, como se observa em decisões diferentes para casos semelhantes. A força vinculante dos precedentes e o IRDR para casos standard, por exemplo, podem ser pensados no método das caixas. O sistema se mantém pela capacidade de reorganizar suas próprias operações diante das variações que produz.
O tribunal, ao fixar uma tese, tenta fechar a caixa do pensamento jurídico para criar estabilidade e segurança jurídica. No seu Obsidian, porém, essa caixa permanece aberta para ser conectada a novos fatos sociais: uma tensão constante entre a segurança jurídica (fechamento) e a realidade social (abertura).
Escrevendo, percebo que o texto acompanha o pensamento apenas parcialmente. A escrita se posiciona em outro tempo, pois registra o que já foi reorganizado internamente, como quando se entende algo durante a leitura e só depois se consegue formular. Esse descompasso integra o processo e se torna parte da forma de produção do texto.
Antes da internet, existiam fichas. Antes das fichas, outras formas de fragmentação do pensamento em suportes materiais, como cartões de leitura. O que permanece é a necessidade de dividir o pensamento em unidades manipuláveis que possam ser recombinadas. O que muda é a velocidade e a escala dessas recombinações.
No ambiente digital, em ferramentas como Obsidian, Logseq e Notion, essa dinâmica se intensifica. Cada nota funciona como ponto de circulação, cada link amplia o alcance das conexões, como quando se navega entre notas relacionadas sem seguir uma ordem fixa, e o pensamento passa a se organizar como rede em expansão contínua.
A estrutura aparece como operação interna do próprio sistema de pensamento. Ela não antecede as ideias, mas acompanha seu movimento e se reorganiza conforme novas relações são estabelecidas, como quando padrões surgem apenas depois de muitas conexões feitas.
O conhecimento se forma como deriva de conexões em constante atualização. Luhmann formula a ideia de que os sistemas produzem aquilo que os mantêm em funcionamento. Essa formulação retorna como princípio de observação do próprio processo de escrita, que se reorganiza enquanto se descreve, como um conjunto de notas que cresce a partir de suas próprias conexões.
Pensar em caixas se estabelece como prática de segmentação e recomposição contínua do pensamento. Cada unidade existe para ser conectada, e cada conexão altera o conjunto, como quando uma nova ligação muda o sentido de várias notas anteriores.
Curiosamente, um dos maiores pensadores do século XX nos legou um método pelo qual pensar em caixas é apenas outra maneira, muito interessante e criativa, de pensar fora da caixa. Para pensar fora da caixa (o pensamento criativo, expansivo), você precisa de caixas (limites, unidades de sentido).
Sem a unidade da nota, o pensamento é um fluxo lento. A caixa não prende o pensamento; ela o ancora para que ele possa saltar para a próxima conexão.
Minhas caixas para este texto:
O [[Zettelkasten]] de [[Niklas Luhmann]] organiza o conhecimento por distribuição. No estudo do direito, notas sobre [[autopoiesis]] e [[IRDR]] se conectam via [[Autopoiese Social]]. Ao usar o [[Obsidian]], a [[Teoria da Decisão Judicial]] deixa de ser estática, pois o [[IRDR e Estabilização]] funciona como uma unidade de passagem no meu [[Pensamento Não Linear]].
Referências
LUHMANN, Niklas. Introdução à teoria dos sistemas. Petrópolis: Vozes, 2010.
LUHMANN, Niklas. Comunicando-se com caixas de fichas (Learning How to Read).
OBSIDIAN. Obsidian: knowledge base that works on local Markdown files. Disponível em: https://obsidian.md/. Acesso em: 17 abr. 2026.
LOGSEQ. Logseq: a privacy-first, open-source knowledge base. Disponível em: https://logseq.com/. Acesso em: 17 abr. 2026.
NOTION LABS INC. Notion: all-in-one workspace. Disponível em: https://www.notion.so/. Acesso em: 17 abr. 2026.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista



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