Publicado em: 19 de abril de 2026
A Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) tem uma sequência de datas importantes no trajeto de sua formação histórica.
Primeiro como Escola de Agronomia e Veterinária do Pará, iniciada em 1918, (seriam 108 anos); depois como Escola de Agronomia da Amazônia (EAA), em 1945, (seriam 81 anos); por sua vez, em 1972, virando Faculdade de Ciências Agrárias do Pará (FCAP), (seriam 54 anos) – e como Universidade, criada em 2002, festejaria, neste caso, os seus 24 anos no atual ano de 2026.
Há sim o que comemorar, a UFRA, corajosamente, com esforço das últimas gestões democraticamente eleitas pela sua distinta comunidade acadêmica, ampliou para seis campi (Belém, Capanema, Capitão Poço, Paragominas, Parauapebas e Tomé-Açu), recebendo diariamente cerca de 6,5 mil alunos de graduação e 650 de pós-graduação, com forte foco em ciências agrárias.
É claro que há problemas e desafios, a começar pelo orçamento e infraestrutura. O dinheiro anual cada vez mais é diminuído, significativamente, mesmo com a expansão de cursos e campi.
No interior, os campi carecem de laboratórios modernos, bibliotecas bem equipadas e alojamento estudantil, afinal é uma universidade que lida que ida e vindas à natureza, como é o caso das fazendas-escola cuja manutenção é custosa.
Houve um crescimento rápido o que gerou uma aposta em recursos humano à altura de sua dilatação como uma jovem universidade que leva grandeza da Amazônia no nome.
Um exemplo está com o Reuni, um programa de expansão das federais, que fez a UFRA criar novos cursos e vagas, todavia, a contratação de docentes e técnicos não cresceu na mesma proporção. Resultado: sobrecarga aos professores e técnicos-administrativos, que acumularam trabalho e a necessidade de convocar terceirizados.
A Interiorização também levou ensino de qualidade aos municípios do interior do Pará e enfrenta, até mesmo no campus Belém, dificuldades, como na conectividade à internet, afinal, nos tempos atuais, a educação 5.0 é fundamental à qualidade de ensino, extensão, inclusão e pesquisa.
Um dos entraves maiores está diante da realidade amazônica de alunos de regiões distantes e as dificuldades de permanência nos cursos por falta de apoio financeiro, no caso, bolsas, transporte e até moradia.
No campus Belém, há reclamação quanto ao uso do conhecido Bagé, o ônibus circular da instituição, muitas vezes sujos, maltratados, superlotados, e, inclusive com relatos de incidentes envolvendo os usuários, relatos encaminhados à Ouvidoria da UFRA que tenta a todo custo driblar as reclamações.
É notório que a UFRA carrega consigo a vocação para agronomia, veterinária, engenharia florestal e pesca, áreas essenciais, hoje, para a Amazônia, mas precisa de mais recursos para pesquisa aplicada que ajude produtores locais a lidar com desmatamento, manejo sustentável e produtividade.
E quanto à Gestão e Visibilidade, ações importantes à credibilidade de uma instituição federal de ensino, por ser uma universidade recém-criada, ainda busca consolidar sua identidade além da herança da antiga FCAP, ampliando cursos em outras áreas.
Sob esse ângulo, a UFRA necessita firmas parcerias com o setor produtivo e órgãos afins para transformar pesquisa em políticas públicas, algo que aconteceu recentemente como o acordo com a China que foi interrompido, meramente, por questões políticas externas à sua autonomia, uma vez que foi sucesso da gestão anterior.
A autonomia universitária está ferida: há muita interferência externa articulada por agentes políticos poderosos que estrangulam qualquer gestão acadêmica compromissada com a UFRA: é o caso dessa desastrosa intervenção que já deveria ter saído de cena há muito tempo.
Hoje, o principal problema da UFRA está em algo fundamental à credibilidade de qualquer instituição: a democracia, a legítima escolha pela comunidade dos seus gestores. Está diante dos olhos de todos essa intervenção desnecessária na reitoria, amordaçando um projeto de gestão que estava dando certo.
Principalmente, depois das fortes chuvas do nosso inverno amazônico, os serviços começaram a ruir de forma visível atingindo a comunidade acadêmica em cheio. O que antes era Excelência em todos os seus segmentos, inclusive com nota máxima do MEC, assim como a maioria dos cursos sob a melhor avaliação, agora são notícias triste nos jornais e nas poderosas redes sociais.
Resumindo: má-gestão e serviços públicos se deteriorando.
E como se resolve isso?
Resposta: através de estabilidade institucional, por via da consulta acadêmica urgente! A questão central é, deveras, o processo democrático que restabeleça a confiança na universidade de perfil amazônico e restaure o eixo motriz de uma engrenagem estritamente inadiável à sua funcionalidade: a autonomia.
É isto que UFRA precisa para voltar a trilhar o caminho republicano do bem-estar comum a todos, princípio constitucional de qualquer universidade em nosso país e à própria República Federativa do Brasil, ferida pela intromissão corporativa, ideológica e partidária.
Podemos dizer que a UFRA tem um legado centenário, e como uma universidade sob forte interferência externa e ainda enfrentando o desafio de crescer com recursos limitados, o seu resgate está, inevitavelmente, nos valores que sedimentam qualquer sociedade ou instituição livre e próspera: a democracia.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista




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