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Na esteira dos debates que anunciam o período eleitoral, começarei neste domingo um ciclo de textos dedicado a temas que atravessam o debate político contemporâneo. Hoje, pretendo refletir sobre a racionalidade histórica e filosófica do pensamento de esquerda. Este texto não pretende vencer um debate contra os adversários da esquerda, mas qualificar o diálogo político público.

No próximo domingo, falaremos sobre a direita. Não será uma análise eleitoral nem de uma defesa partidária imediata, até porque não disponho aqui de material empírico suficiente para uma leitura rigorosa de conjuntura. Trata-se, sobretudo, de compreender, à luz da literatura especializada, as estruturas morais, históricas e filosóficas que sustentam essas duas grandes tradições políticas da modernidade.

Construirei esta reflexão em torno de uma pergunta central que acompanha a esquerda desde o século XIX e permanece profundamente atual no século XXI: é legítimo organizar uma sociedade marcada por desigualdades extremas de poder, riqueza e condições de vida? A esquerda nasce precisamente da recusa em naturalizar essas desigualdades ou considerá-las inevitáveis, moralmente aceitáveis ou historicamente necessárias.

Ser de esquerda, convém advertir, não significa aderir cegamente a governos, líderes ou cartilhas ideológicas rígidas. Significa reconhecer que sociedades produzem hierarquias econômicas, culturais e políticas que frequentemente condenam milhões de pessoas à insegurança permanente, enquanto pequenas parcelas concentram riqueza e influência em níveis extraordinários. A questão central da tradição de esquerda nunca foi simplesmente a existência da desigualdade em si, mas sobretudo o problema dos excessos de desigualdade e de suas consequências sociais, políticas e humanas.

A tradição da esquerda raramente defendeu uma igualdade absoluta entre indivíduos. O que historicamente a distingue é a percepção de que determinadas desigualdades são politicamente produzidas, socialmente destrutivas e moralmente injustificáveis. Nesse ponto, o filósofo e jurista Norberto Bobbio talvez tenha formulado uma das interpretações mais influentes sobre a distinção entre direita e esquerda. Para Bobbio, a diferença fundamental entre essas tradições políticas reside precisamente na atitude diante da igualdade. A esquerda tende a compreender as desigualdades como construções históricas passíveis de correção política. A direita, em maior ou menor grau, tende a considerá-las inevitáveis, naturais ou até funcionais para a organização da sociedade.

A modernidade capitalista produziu avanços tecnológicos extraordinários, ampliou a expectativa de vida, acelerou a circulação de informação e criou níveis inéditos de produtividade econômica. Negar isso seria intelectualmente desonesto. Ao mesmo tempo, o próprio desenvolvimento do capitalismo aprofundou contradições severas. Nunca houve tanta capacidade material de produzir riqueza, alimento e conhecimento, e ainda assim milhões de pessoas permanecem submetidas à fome, ao desemprego estrutural, à precarização do trabalho e à insegurança cotidiana.

Após a Segunda Guerra Mundial, diversas democracias europeias construíram sistemas de proteção social inspirados, em maior ou menor grau, por valores social-democratas. Saúde pública universal, educação de massa, previdência social e ampliação de direitos trabalhistas não eliminaram o capitalismo, mas buscaram submetê-lo a limites institucionais capazes de reduzir desigualdades extremas e preservar coesão social. Mesmo nos Estados Unidos, frequentemente considerados um símbolo histórico do liberalismo econômico, o New Dealrepresentou uma inflexão decisiva ao reconhecer que mercados completamente desregulados podiam produzir instabilidade social, desemprego massivo e erosão democrática.

A esquerda contemporânea parte da percepção de que a lógica de mercado, quando convertida em princípio absoluto de organização social, tende a transformar progressivamente todas as dimensões da vida em mercadoria: a educação, a saúde, os afetos, a natureza e o próprio tempo humano. O indivíduo deixa de ser percebido prioritariamente pelo rótulo de cidadão e passa a ser tratado sobretudo pelo rótulo de consumidor. A crítica da esquerda não é necessariamente à existência do mercado, mas à sua expansão ilimitada sobre esferas fundamentais da experiência humana.

O capitalismo contemporâneo já não se organiza apenas em torno da fábrica industrial clássica analisada pelos pensadores do século XIX. Nas últimas décadas, a financeirização da economia, a concentração tecnológica e a digitalização do trabalho transformaram profundamente as estruturas de poder econômico. Grandes plataformas passaram a acumular níveis inéditos de controle sobre dados, informação, consumo e comportamento social, enquanto relações de trabalho se tornaram progressivamente mais flexíveis, instáveis e precarizadas.

O trabalhador do século XXI muitas vezes já não ocupa a linha de montagem industrial, mas os aplicativos, os contratos temporários, a informalidade digital e a lógica permanente da disponibilidade produtiva. Nesse contexto, a crítica contemporânea da esquerda procura compreender as novas formas de desigualdade que emergem não apenas da propriedade tradicional dos meios de produção, mas também do controle financeiro, algorítmico e tecnológico que reorganiza silenciosamente a vida social.

Ainda assim, seria simplista atribuir todos os problemas contemporâneos exclusivamente ao capitalismo ou às elites econômicas. Parte da esquerda também desenvolveu limitações importantes. Em muitos momentos, setores progressistas substituíram debate racional por moralização política, transformaram divergências em condenações éticas absolutas e perderam capacidade de diálogo com amplas parcelas da população. Em determinados contextos, parte da esquerda passou a operar em discursos culturais fechados sobre si mesmos, excessivamente acadêmicos ou distantes da experiência cotidiana do cidadão comum.

O mesmo ocorre nas chamadas pautas identitárias. A esquerda argumenta que racismo, machismo, LGBTfobia e outras formas de discriminação não foram inventados pelos movimentos progressistas, mas herdados de estruturas históricas profundamente desiguais. Essa observação é correta. Democracias liberais conviveram, durante séculos, com exclusões radicais de gênero, raça e classe.

Por outro lado, parte da população percebe em determinadas abordagens identitárias fatores de fragmentação do espaço público comum. Nem toda crítica a essas pautas nasce necessariamente de intolerância ou extremismo. Há situações em que o discurso progressista abandona perspectivas universalistas e passa a enfatizar excessivamente diferenças particulares, dificultando a construção de consensos amplos. Ignorar essa tensão apenas empobrece o debate democrático.

Também não é possível compreender o presente sem considerar a crise ambiental. O século XXI é marcado por mudanças climáticas, eventos extremos, queimadas, secas, colapsos ecológicos e deslocamentos populacionais crescentes. Os mais pobres e os povos tradicionais tendem a sofrer os impactos mais severos dessas transformações. A esquerda contemporânea compreende que um modelo econômico baseado em crescimento ilimitado e exploração predatória dos recursos naturais tornou-se progressivamente incompatível com a estabilidade ecológica do planeta.

Ainda assim, emerge uma questão legítima: como equilibrar preservação ambiental, desenvolvimento econômico e melhoria concreta das condições materiais das populações pobres? Nem sempre a esquerda oferece respostas plenamente convincentes para esse dilema. Em muitos casos, críticas ambientais corretas convivem com dificuldades práticas de implementação econômica e social.

Existe também uma dimensão moral decisiva nesse debate. Níveis extremos de concentração de riqueza tendem a corroer o tecido social, ampliar ressentimentos coletivos e enfraquecer instituições democráticas. Períodos de grande desigualdade frequentemente coincidem com crescimento de discursos autoritários, populismos radicais e crises de confiança pública. Quando parcelas significativas da população perdem perspectivas de futuro, tornam-se mais vulneráveis ao medo, ao ódio político e às promessas simplificadoras de líderes messiânicos. Como advertia Montesquieu, sociedades politicamente equilibradas dependem da existência de limites institucionais capazes de conter concentrações excessivas de poder, sejam elas econômicas ou estatais.

Nesse sentido, o século XX produziu uma advertência histórica incontornável. Regimes formulados em nome da emancipação humana também foram capazes de gerar burocracias repressivas, censura política e violência institucional quando submetidos à concentração excessiva de poder estatal. Albert Camus observou, após as tragédias políticas de seu tempo, que certos projetos revolucionários passaram a admitir a suspensão da dignidade humana em nome de futuros abstratos de redenção histórica. O problema começava precisamente quando a política deixava de reconhecer limites morais. Em A Peste, ainda que de maneira alegórica, permanece a reflexão sobre a facilidade com que sociedades submetidas ao medo e à crise podem normalizar mecanismos de desumanização.

Isso não significa reduzir toda a tradição da esquerda a suas experiências autoritárias. Seria igualmente reducionista ignorar que democracias liberais e economias capitalistas também estiveram historicamente associadas ao colonialismo, ao imperialismo, a guerras devastadoras, a ditaduras apoiadas por interesses econômicos e a formas globais de exploração do trabalho.

Nenhuma tradição política está livre de contradições. A questão decisiva talvez seja outra: qual projeto político oferece respostas mais humanas, democráticas e sustentáveis para os desafios do presente? A emergência climática se intensifica, o trabalho se precariza, a desigualdade cresce e o hiperindividualismocontemporâneo produz uma profunda crise de pertencimento social.

A esquerda permanece relevante porque insiste na ideia de que saúde, educação, moradia e trabalho digno não deveriam ser privilégios determinados pelo mercado. A noção de direitos sociais universais talvez represente uma das mais importantes conquistas políticas da modernidade.

A esquerda continua considerando inaceitável naturalizar a fome, a pobreza extrema e a exclusão social em sociedades materialmente abundantes, porque entende que a liberdade, sem condições materiais mínimas, frequentemente se transforma em privilégio reservado a poucos. Sua aposta histórica reside na ideia de que a política não deve apenas administrar a desigualdade existente, mas ser instrumento permanente de ampliação da dignidade humana.

A questão decisiva do século XXI talvez não seja apenas quanto crescimento econômico produzimos, mas que tipo de civilização estamos construindo com ele.

Referências

BOBBIO, Norberto Bobbio. Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. Tradução de Marco Aurélio Nogueira. São Paulo: Editora Unesp, 2011.

CAMUS, Albert Camus. A Peste. Tradução de Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro: Record, 2017.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Shirlei Florenzano Figueira
Shirlei Florenzano, advogada e professora da Universidade Federal do Oeste do Pará - UFOPA, mestra em Direito pela UFPA, Membro da Academia Artística e Literária Obidense, apaixonada por Literatura e mãe do Lucas.

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