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As redes sociais criaram espaços de fala, mas nem sempre de escuta. E, daí a falta de diálogos, falta de negociações, de construção de identidades, de consensos e a falta de decisões conscientemente coletivas em função de um projeto de Sociedade.

A teoria da Sociedade do Cansaço, do filósofo sul coreano Byung-Chul Han, que está na moda, ajuda a compreender em parte esse processo ao explicar que vivemos uma passagem da sociedade disciplinar, que nos colocava entre o certo e o errado para a sociedade do desempenho, custe o que custar. Que nos coloca diante de resultados esperados pelos outros, pelo sistema ou aplicativo, que se não alcançado de qualquer forma, não há mais o drama entre o certo e o errado, a falha é do indivíduo. Indivíduo que entende ter escolhido livremente realizar tal atividade e alcançar os resultados estabelecidos. Daí indivíduos apegados à certezas, verdades, pouco abertos a outra percepção da realidade, pouco abertos a outra pessoa. O “empreendedor de si mesmo”.

A “obediência” deixa de ser a principal virtude e o sujeito passa a ser julgado principalmente pelo seu resultado. Daí o cansaço de ter que render mais, comunicar mais e realizar mais o tempo todo. Han explica que o cansaço não decorre apenas do excesso de trabalho, mas de uma lógica mental de autoexploração alimentada pelo imperativo de desempenho. A ordem já não é “você deve”(fazer o certo), mas “você tem que”(realizar o resultado).

O excesso de conectividade associada ao convívio nas bolhas de mesma opinião, viabiliza a falsa sensação de “conhecimento” da realidade daí as convicções viscerais sem qualquer sustentação científica e a supressão da escuta do outro como processo básico do relacionamento humano, a dissonância cognitiva. Não desejar aprender é um estimulante sentimento de superioridade. O individualismo à enézima potência estabelece uma violência mais sutil, que se manifesta em esgotamento, ansiedade, depressão, burnout e dificuldade de concentração, já que suas convicções não conseguem os resultados líquidos e certos que conseguiria, principalmente os relativos a última instância humana, a felicidade -quem sempre nos exige a interação positiva com outros/outras.

Voltando a Han, sua visão oriental nos mostra que surge uma nova opressão. A hiperatividade deprecia a vida contemplativa. Na hiperpressa não temos “tempo” para pensar, apenas para explodir, acusar, julgar. Passamos a abdicar da racionalidade, para apenas responder emocionalmente aos estímulos do ambiente. Para Han, a aceleração constante da vida digital e a fragmentação da atenção empobrecem a experiência humana, dificultam a escuta, o pensamento profundo e a construção de vínculos mais sólidos. 

O objeto usado para a demonstração d’A Sociedade do Cansaço é a vida dos trabalhadores de aplicativos, UBER, 99, IFood e as IA’s que já infestam o dia-a-dia sem nem sabermos por onde, a fazer escolhas por nós. Mas esta teoria não é apenas um diagnóstico sobre indivíduos exaustos, mas sobre um modo de vida que transforma liberdade em obrigação de desempenho e enfraquece a dimensão coletiva da existência humana. Um modo de vida que não afeta apenas trabalhadores de aplicativos, mas trabalhadores em geral, inclusive os de nível superiorque, aliás nem se identificam como “trabalhadores”. Não diz respeito ao modo de vida apenas “de direita”, mas também “de esquerda”. Tudo gente que sofre. E por aí vai.

Considerando a comunicação, a linguagem, a escuta das pessoas com quem convivemos, elemento central do que nos faz seres humanos, tal como amplamente demonstrado pela antropologia, diria que vivemos a Sociedade dos Eloquentes Surdos. 

Aprendi nos anos 80 e 90, que tínhamos que debater problemas com pessoas que pensavam diferente da gente, o primeiro desafio era estabelecer qual Sociedade era a ideal. Estabelecido, por consenso negociado com bases científicas, o Projeto de Sociedade como objetivo comum, passávamos a negociar as estratégias de solução do problema em questão. Uma inteligência construtiva.

Aos 18 anos, ao entrar na UFPA, me posicionei contra a ditadura militar-empresarial que castigava o Brasil negando democracia e a melhoria da qualidade de vida da grande maioria dos brasileiros, aprendi no coletivo que era de “estudar-falar-escutar-negociar” que surgiam as ações coletivas, passeatas, greves, festas, eleições, alianças, campanhas etc e assim a Ditadura foi derrubada e começamos a redemocratização em 1984. Mas há ainda desafios persistentes. Aprender é o maior deles.

Sem adotar o exercício da inteligência da escuta e da negociação, jamais estabeleceremos uma cultura democrática. Primeiro por não estabelecermos qual deve ser o nosso Projeto de Sociedade, daí o nosso Modelo de Desenvolvimento, inclusive econômico, mas no todo, humano.

Sem colocar as diferentes opiniões à prova do conhecimento demonstrável, como na ciência e nos saberes tradicionais, não construiremos consensos básicos, não transformaremos a diversidade em riqueza, e riqueza em qualidade de vida, em direitos.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

João Tupinambá Arroyo
João Claudio Tupinambá Arroyo, doutor em Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente e mestre em Economia pela Universidade da Amazônia, onde está pró-reitor de Pesquisa e Extensão. Pesquisador e militante da Economia Solidária desde 1999, 11 livros publicados, todos acessíveis como ebook. Pedidos para arroyojc@hotmail.com. Siga @joao_arroyo

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