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O Círio de Nazaré, e de Maria, e de Pedro, e de João…

Fafá de Belém canta que o Círio não se explica, só se sente…

Nos meus 51 anos e tantos Círios passados na cidade onde nasci e cresci, eu achava, vajam só quanta arrogância, que já sabia tudo sobre ele. O que aconteceu por aqui nesses últimos dois dias me mostrou que eu não sabia nada! E como diz a música de Fafá, o que vi provavelmente não conseguirei traduzir em palavras…

Quando os amigos de outras cidades me perguntavam sobre o Círio, eu lhes respondia sobre a grandeza de nossa procissão, eu falava da beleza da berlinda, da corda, daquele mar de gente que se levanta cedo para estar perto da Imagem Peregrina de Nossa Senhora, rezando e cantando louvores para a nossa Mãe de Nazaré, no segundo domingo de outubro. Era assim que meus olhos enxergavam um dos maiores eventos religiosos do mundo. Era assim que era pra mim.

Mas daí veio a pandemia no ano passado e a procissão foi suspensa. O povo esmigalhado pelo sofrimento aceitou, submisso. Não tivemos Trasladação, não tivemos o nosso Círio de Nazaré.

Neste ano, já vacinados, conhecemos o alívio da sobrevivência. Chegamos até aqui. Estamos vivos, estamos salvos! Perdemos amigos, amores, familiares… Sofremos, tivemos medo, revimos tantos valores nestes últimos dois anos, aprendemos o que é realmente importante nessa nossa passagem pela vida, no nosso planeta.

E por tudo isso, experimentamos uma gratidão que confesso, ainda não havia conhecido desta forma. Então outubro chegou! Como não saudar Maria? Como não agradecer à Nossa Mãe, de pertinho, como costumávamos fazer?

O Círio “desconstruído” deste ano veio para nos mostrar de que a fé é bem maior do que qualquer convenção.

Não, o Círio não é um mar de gente ao redor da berlinda. O Círio é muito maior do que isso. Ele é o povo! Ele é a própria fé materializada. Ele é um profundo sentimento de amor e desta gratidão que nos invadiu. Somente o amor e a gratidão explicam o que houve em Belém nesses últimos dois dias. Sem carrinhos, sem bandas musicais, sem papel picado, sem a corda, sem autoridades, sem a berlinda, o Círio foi do povo, por Maria, para Maria, em Maria. Milhares de pessoas fizeram o que o coração mandou: o mesmo percurso, de forma espontânea, com suas casinhas de mitiri nos braços, suas velas em forma de pulmão, seus terços, cantando e louvando à Nossa Senhora, como se todos nós disséssemos: ESTAMOS AQUI. NÃO PRECISAMOS DE NADA ALÉM DA NOSSA FÉ! OBRIGADO NOSSA SENHORA DE NAZARÉ.

Foi sem dúvida a maior prova de amor que Maria já recebeu de seus filhos.

Por tudo isso que vi e que senti, quando os “lá de fora” me perguntarem novamente sobre a nossa maior procissão, vou responder:

O Círio é de Nazaré, mas ele é feito por Marias e Joões.

E como diz nossa Fafá:

“é fato que a palavra não alcança

Não cabe perguntar o que ele é.

O Círio ao coração do paraense, é coisa que eu não sei dizer,

deixa pra lá…”

@olharnato

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