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O Realismo e o Realismo Fantástico em Noites Alienígenas

Uma das plataformas mais populares de filme em streaming no Brasil está exibindo “Noites Alienígenas”, produção do estado do Acre que arrebatou o prêmio de melhor filme na última edição do Festival de Cinema de Gramado.

Dirigido por Sérgio Carvalho, a premiação de “Noites Alienígenas” é praticamente um marco histórico no festival realizado na serra gaúcha, marcado pela visibilidade de produções brasileiras dos estados do Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro e filmes de língua espanhola.

Com produção modesta, atores desconhecidos (com exceção de Chico Diaz) e aquela dose de coragem de realizar parte da produção no período da pandemia Covid 19, “Noites Alienígenas” é um filme sobre jovens da periferia de Rio Branco que tentam sobreviver em meio ao tráfico de drogas, dependência química e assassinatos como parte do teste de adesão de um suposto código de ética letal da criminalidade urbana. 

Nesse contexto, o roteiro de Camilo Cavalcanti e Sérgio de Carvalho segue a tradição do cinema realista que denuncia, por meio da ficção, a ausência de políticas públicas realmente eficazes quando o assunto é a rotina de jovens negros, pardos e índios na periferia da periferia de um Brasil pouco conhecido.

Aqui, os movimentos de ir e vir nas fronteiras entre a cidade e a floresta são arriscados, perigosos. São movimentos atravessados pela velocidade violenta da chegada do crime organizado do sudeste do Brasil e suas conexões locais na Amazônia

O filme acompanha a história de Rivelino (Gabriel Knox) e Paulo (Adanilo), que cresceram na capital do Acre e sonham com dias melhores, seja para o afastamento do vício das novas drogas sintéticas, ou na ilusão de que mudar de lado na geografia do crime poderá trazer vantagens e reconhecimento.

Mas o duro relato de jovens periféricos em situação de risco também abre espaço para as manifestações lúdicas por meio das batalhas de rap em praças públicas depois das longas jornadas de trabalho, na teimosia da imaginação que espera a chegada de seres extraterrestres, e na ancestralidade dos povos indígenas como forma alternativa de cura, redenção e resolução de conflitos.

As manifestações lúdicas em “Noites Alienígenas” inserem outra tradição do cinema latino-americano: o realismo fantástico, onde fantasia e sonho se misturam com a realidade, com aparições míticas que geram uma narrativa híbrida, combinada de forma certeira em filmes como “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles; “O Abraço da Serpente”, de Ciro Guerra; e “Febre do Rato”, de Cláudio Assis.

“Noites Alienígenas” é inspirado no romance homônimo escrito por Sérgio Machado com acréscimos que atualizaram a adaptação para o cinema, o que resultou nos prêmios em Gramado de melhor longa-metragem, melhor ator (Gabriel Knoxx), menção honrosa (Adanilo), ator coadjuvante (Chico Diaz) e atriz coadjuvante (Joana Gatis). Um filme imperdível na compreensão plural das novas vozes do cinema brasileiro.

José Augusto Pachêco
José Augusto Pachêco é jornalista, crítico de cinema com especialização em Imagem & Sociedade – Estudos sobre Cinema e mestre em Estudos Literários – Cinema e Literatura. Júri do Toró - 1º Festival Audiovisual Universitário de Belém, curadoria do Amazônia Doc e ministrante de palestras e cursos no Sesc Boulevard e Casa das Artes.

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