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“O fim do ano vai trazendo o balanço dos erros e dos acertos. Assim é a vida.”

Essa bela frase chegou até mim numa singela troca de mensagens com um amigo querido, irmão de toda uma vida, e junto com ela veio e se declarou presente o fim do ano. Eu até pretendia esperar um pouco mais para recebê-lo, deixar chegar o primeiro dia de dezembro, já na próxima sexta-feira, mas não houve jeito; a força da frase foi maior que o calendário.

Pensando bem, nem é o caso de acusar a pressa do fim do ano em chegar, afinal há algumas semanas ele se prenuncia nas vitrines, nas decorações, nas luzes de natal que o comércio já acendeu. Em casa também já há guirlandas nas portas, duendes sobre as mesas, lâmpadas e enfeites a adornar o pinheiro de plástico que passa meses a fio guardado num depósito, esperando tranquilo o tempo certo de alardear que mais um ano vai chegando ao fim.

Não se pode, portanto, alegar que o fim do ano chegou sorrateiro, silencioso ou disfarçado, como a tentar esconder ou adiar a melancolia que permeia os dezembros da vida. Não, de modo algum. Não houve subterfúgios, artimanhas ou manobras evasivas. O fim do ano está aí novamente, cobrando de nós, como de costume, a contabilidade da vida, o balanço dos erros e acertos, a apuração das perdas e danos, a medida das dores, o que pode haver de eloquente nas derrotas e nas vitórias.

É a ocasião propícia para pensar no que fizemos de errado, já que os erros costumam marcar mais que os acertos, e em como corrigir aquilo que nos interessa, estabelecendo prioridades e fazendo as famosas promessas de ano novo, mesmo que não seja possível prever se serão cumpridas. Faz parte do ritual, está no roteiro; é preciso exercitar a esperança, esse impulso sibilino que nos faz crer no futuro e planejar o amanhã, tomando em mãos as rédeas do destino.

Tudo isso é bom, salutar, nos mantém vivos, ativos e pensantes, e não apenas meras testemunhas daquilo que é realmente inexorável: o tempo a correr, abastecendo de passado as nossas histórias e envelhecendo aos poucos os reflexos que encontramos nos espelhos. Esse tempo que transcende as horas, não cabe nos relógios, não se conta em dias ou meses, somente em anos; esse tempo que faz findar gerações, que transforma o novo em antigo e que muda a cor das tintas por detrás dos quadros pendurados nas paredes.

É a ciranda da vida a nos fazer girar, como uma melodia que inicia em cada janeiro para findar em cada dezembro, dividindo o tempo em quantos anos ficaram para trás e quantos anos ainda temos pela frente, essa aritmética sem fórmula, propriedade comutativa da multiplicação a determinar que a ordem dos fatores não altera o produto. O que tem que acontecer tem muita força, e acontecerá ainda que não seja da nossa vontade.

E se é assim, se em grande parte a vida independe de nós, talvez o que nos reste é ter paciência, como na música do Lenine: “Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma, até quando o corpo pede um pouco mais de alma, a vida não para… enquanto todo mundo espera a cura do mal, e a loucura finge que isso tudo é normal, eu finjo ter paciência… e o mundo vai girando cada vez mais veloz, a gente espera do mundo e o mundo espera de nós, um pouco mais de paciência…”

Seria esse então o vaticínio final? Seria esse o saldo que se apresenta após a prestação de contas que o fim do ano nos impõe? Quanta paciência tivemos, quanta paciência nos falta? Sei não, Lenine que me perdoe, mas nesse particular prefiro ficar com Cecília Meireles:

“Esta impaciência que me divide / esta melancolia que me entontece / este desejo pungente de estar um pouco em toda parte / esta incapacidade de aquietar-me / este sonho de ser, de ser depressa, antes da morte / de ser o que? / de concluir que destino longamente esperado, / entrevisto na bruma de dias não vividos, / no sonho de noites calmamente extintas? / – de ser estritamente o servidor adequado, / o mensageiro que entrega a mensagem no exato instante / o servidor que dá conta de seu trabalho no prazo certo / o que ouve o chamado e vai, / recebe as ordens e cumpre, / e dá todos os dias de seu tempo humano / para esse fim obscuro, / e está continuamente correndo por dentro de si, / em varandas, passadiços, subterrâneos, / apenas entrevendo em adeuses a estrela que ama, / o pássaro que o comove, / a extensão da terra iluminada, do mar imenso / por onde, entre suas tarefas, / suspiro, saudade, esperança, obediência, renúncia, / em pensamentos foge, / em pensamentos volta, / subitamente enfermo da culpa / de assim fugir, / de assim voltar.”

A vida tem que ser inquietude e irresignação, tem que ter erros e acertos, alegrias e frustrações. Tem que ser transformação e agonia, tem que ter projetos findos e ideias inacabadas, incompletudes abandonadas pelo caminho, inúmeros livros lidos e algum que vai ficar pela metade. Se não houver tempo, que haja impaciência – “Nada é tão perigoso como teres cumprido todos os teus deveres do dia e ainda ser manhã, teres cumprido todos os teus deveres na vida e ainda não estares morto” (Gonçalo M. Duarte).

Já é fim do ano, e “o fim do ano vai trazendo o balanço dos erros e dos acertos. Assim é a vida.”

Albano Martins
Albano Henriques Martins Júnior é paraense, nascido em Belém em 1971. Advogado cursando especialização em Literatura na PUC/RS (EAD). Guarda de Nossa Senhora, foi membro da Diretoria da Festa de Nazaré entre 2014 e 2023, Coordenador do Círio no biênio 2020/2021, os anos da pandemia. Mantém no Instagram uma página recente sobre livros (ler_e_lembrar).

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