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Estive pensando, sabe Deus a razão, em como determinados objetos, certos fenômenos e alguns elementos da natureza, tanto da fauna quanto da flora, transformam-se em sinônimos de sensações e impressões pessoais específicas, de tal modo que a mera visão destes itens evoca em nós sentimentos muito particulares. É como se, cultural e involuntariamente, tivéssemos criado sínteses imagéticas perfeitas, associações diretas entre o que vemos e o que sentimos.

Relógios antigos de parede me fazem sentir envelhecido e nostálgico, enquanto um livro me traz conforto e bem estar. A lua cheia traduz mistério e contemplação, enquanto o som de uma cigarra gera reminiscências da infância na Ilha do Mosqueiro. Batráquios e serpentes são representações usuais do asco e do medo, enquanto que flores, notadamente tulipas e rosas, parecem descrever com precisão o conceito de beleza, e não somente a beleza enquanto cognição estética e visual, mas também como virtude, motivação e consequência das ações humanas, algo como uma percepção ampla e sibilina do que é belo e virtuoso.

No caso das rosas, por exemplo, essa ligação com a beleza é praticamente lugar comum, compreensão coletiva próxima da unanimidade, daí porque a imagem da flor cria em torno dela própria uma egrégora de positividade e formosura. Não por acaso a rosa é considerada a rainha das flores, espécie ancestral cultivada desde o Egito, onde rosas eram postas nos túmulos para acompanhar os mortos até a eternidade; a Grécia, onde eram utilizadas como adorno nas cerimônias nupciais; e a Roma antiga, onde suas pétalas eram espalhadas pelo chão e lançadas sobre os convidados em dias festivos.

Entre nós, lusófonos, a referida flor é presença constante na poesia e na música, e talvez venha daí, sobretudo da música, parte expressiva da sua notoriedade. Para citar apenas dois exemplos, vale lembrar a melodiosa valsa composta por Pixinguinha em 1917, que se tornou sucesso absoluto anos mais tarde, quando recebeu a parnasiana letra criada por Otávio de Souza, ilustre desconhecido, mecânico por profissão, que escreveu os rebuscados versos tomado de amor pela irmã de um conhecido seu, batizada com o mesmo nome da vistosa flor. Décadas depois, em 1975, um cidadão carioca levou para casa uns pés de roseira e os plantou no jardim. Dias depois, encantada com as flores, a esposa perguntou-lhe como haviam nascido tantas rosas, e ele de pronto respondeu: “Não sei mulher, as rosas não falam…” O tal cidadão era Angenor de Oliveira, o imortal Cartola; a esposa era Dona Zica, seu segundo e definitivo amor conjugal; e a resposta, nem é preciso rememorar, deu origem a uma das mais belas e icônicas canções da música popular brasileira.

A rosa é, portanto, um símbolo milenar das emoções humanas, traduzindo dores e amores com força, intensidade e significados que variam conforme as suas cores, do mais angelical e pueril branco ao mais romântico e erotizado vermelho, passando pela alegria do amarelo e pela delicadeza do róseo, sem mencionar as inúmeras opções de pigmentação artificial. Seja lá como for, em que quantidades e matizes, ainda discretas em botão ou já fulgurantes e desabrochadas, as rosas parecem sintetizar e resumir com perfeição o conceito de graciosidade.

Mas porque resolvi vir hoje com essa conversa de florista, como se especialista fosse. Explico: é que estive visitando umas vinhas alentejanas nas cercanias de Beja e Albernoa, mais precisamente numa fascinante herdade familiar chamada Malhadinha Nova, que produz anualmente trezentas e cinquenta mil garrafas de vinho tinto, branco e rosé de diferentes castas de uvas, setenta por cento delas destinadas ao mercado interno português, trinta à exportação.

Despertou-me curiosidade a quantidade expressiva de roseiras ao pé dos parreirais, no início de várias filas de videiras. Rosas enormes chamavam a atenção de quem apreciava a plantação, todas vermelhas, e eu cheguei a pensar que se tratava de um detalhe de ornamentação e paisagismo, criado com a intenção de tornar a herdade ainda mais bonita e aconchegante, enriquecendo a plasticidade e o charme do ambiente.

Ledo engano!

Na visita guiada que fizemos no dia seguinte ao da chegada nos foi esclarecido que as roseiras, na verdade, têm uma função bem mais importante que o encantamento dos olhos, qual seja a de proteção do vinhedo, eis que na eventualidade do surgimento de fungos, parasitas ou pragas, é primeiro nas roseiras que atacam, dando tempo aos agricultores para combatê-los antes que comprometam as vinhas, salvaguardando plantio, colheita e produção.

As rosas se oferecem em sacrifício para que a uva viceje, prospere e atinja sua finalidade precípua. A flor fenece para o resguardo do vinho. A beleza se entrega ao ocaso ante a plena compreensão de que mais relevantes e menos efêmeros são o conteúdo do parreiral e o resultado da vindima.

Bonito, não? Autêntica metáfora da vida, em que mais vale o que é visto com o coração, posto ser naturalmente fugaz muito do que é visto com os olhos; mais vale a beleza da alma, perene e imorredoura, que a beleza do corpo, frágil e passageira.

Fui ao Alentejo apreciar os encantos da terra e do vinho. Voltei encantado com a beleza que Deus põe no mundo a cada dia. Pra completar a viagem, percebi que as rosas, lácteas estrelas descritas por Pixinguinha, podem bem mais que simplesmente exalar o perfume roubado da mulher que Cartola amou.

Um brinde à vida, outro brinde às rosas!

Albano Martins
Albano Henriques Martins Júnior é paraense, nascido em Belém em 1971. Advogado cursando especialização em Literatura na PUC/RS (EAD). Guarda de Nossa Senhora, foi membro da Diretoria da Festa de Nazaré entre 2014 e 2023, Coordenador do Círio no biênio 2020/2021, os anos da pandemia. Mantém no Instagram uma página recente sobre livros (ler_e_lembrar).

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