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Numa manhã de abril de 2014 um pequeno pássaro apareceu morto no prédio cento e quarenta e quatro da Rua Fuego, na Cidade do México. Anos antes o que era um terraço transformara-se numa sala de jantar voltada ao jardim, com paredes em vidro, e o mais provável é que o passarinho, em pleno voo, tenha se chocado contra a barreira transparente que não pôde perceber, quedando-se cadáver no sofá, precisamente no local em que o dono da casa costumava aconchegar-se para as sestas vespertinas.

Dias depois, naquela mesma vivenda, numa quinta-feira santa, dia 17 do mês, fechava os olhos em definitivo um dos maiores escritores da contemporaneidade, Prêmio Nobel de Literatura em 1982, mestre absoluto do realismo fantástico, autor de um monumento literário que muitos consideram, na língua espanhola, menor apenas que Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Ao óbito da pequena ave sucedera o de Gabriel Garcia Marquez, o homem por trás de Cem anos de solidão.

Em meio à estupefação e ao medo que o desparecimento de um gênio provoca entre os homens comuns, temerosos da orfandade que se lhes abate, alguém lembrou de outra personagem importante, igualmente famosa e igualmente falecida numa quinta-feira santa entre pássaros agonizantes: “Amanheceu morta na quinta-feira santa. (…) Foi enterrada numa caixinha pouco maior que a cestinha em que Aureliano tinha sido levado, e muito pouca gente assistiu ao enterro, em parte porque não eram muitos os que se lembravam dela, e em parte porque naquele meio-dia fez tanto calor que os pássaros desorientados se esfacelavam feito perdigotos contra as paredes e rompiam as telas metálicas das janelas para morrer nos quartos.”

Era de Úrsula Iguarán que se falava, matriarca dos Buendia e alma viva de Macondo, onde testemunhou o alvorecer e o crepúsculo de quatro gerações até perecer em circunstâncias incrivelmente similares às do seu criador, como se a arte pudesse não apenas imitar a vida, mas prever e antecipar o desfecho de cada existência. Naquelas mortes – Úrsula, o passarinho e Gabriel – a realidade tangível e a fantasia fundiram-se numa única dimensão de tempo, espaço e beleza. Em outros termos, naquelas mortes houve literatura.

Tudo isto me ocorreu a partir da leitura de Gabo & Mercedes, uma despedida (1ª ed., Record: RJ, 2022), escrito por Rodrigo Garcia, filho de Gabriel Garcia Marques e Mercedes Barcha, para descrever os últimos momentos do pai, falecido em abril de 2014 após longa agonia causada pelo câncer que lhe debilitou o corpo e a demência que lhe confundiu a alma; e da mãe, morta seis anos mais tarde, em agosto de 2020.

Rodrigo escreveu um belo livro, um relato em que pouco se referiu ao homem público mundialmente famoso por sua obra, escritor requisitado e laureado, e muito contou sobre o pai, cidadão simples e afetuoso, defensor intransigente da cultura latino-americana, crítico mordaz do eurocentrismo, cheio de bons amigos, capaz de tornar onírico tudo que aos outros pareceria prosaico.

Ao despir Gabriel da aura brilhante e enigmática que reveste as celebridades, desnudando fragilidades, angústias e medos que apequenam os vivos diante da morte, o filho nos fez a gentileza de apresentar o pai, nos permitiu conhecê-lo na intimidade, como um semideus que descera do Olimpo para circular entre os mortais, criando nestes a ilusão da semelhança.

O livro me levou às lágrimas e me encheu o coração de saudade. Ao contar que saiu de Los Angeles, onde vivia, para voar apressadamente até a Cidade do México, onde Gabo agonizava, Rodrigo me fez recordar o retorno urgente e açodado que enfrentei de Roma até Belém, em meio a uma viagem de férias, deixando Paula e as crianças em terras estranhas, para acompanhar o que seriam as derradeiras horas de meu amado pai.

Seu Albano não era um escritor premiado, de notoriedade internacional, mas em seus olhos magicamente verdes havia uma fantasia inocente que o diferenciava de todos os outros seres humanos, e isto me bastava. Era meu pai, aquele que, com seus defeitos e virtudes, ao amparo permanente de minha mãe, havia me transformado naquilo que sou. E era eu, ali, fingindo força e maturidade que jamais existiram, retornando às pressas para vê-lo partir. Hoje, seis anos passados, o que vivi naqueles dias ainda não me parece genuíno; assemelha-se mais à literatura, e o pequeno livro de Rodrigo Garcia me fez compreender que sua ausência não passa de ficção, encerrando o luto que sombreava recantos que posso voltar a expor ao sol.

Ajudou-me também, urge ressaltar, a perceber a força imensurável das mulheres, sempre mais firmes e sólidas em momentos difíceis, como que cientes de que delas, mais do que de nós, dependerão as retomadas. Na postura de Mercedes Barcha reencontrei a coragem e a altivez que vi em Paula, sozinha em Roma com Alana e Artur, e em Maria Luiza, minha mãe, colosso de dignidade e resignação diante do fim de um tempo que durou mais de meio século.

“Pelo interfone, ligo para o térreo. Minha mãe atende e digo a ela: “O coração dele parou”, e a duras penas consigo terminar a última palavra sem que minha voz falhe, mas acho que ela desliga antes disso. Volto para o lado do meu pai. Sua cabeça jaz de lado, sua boca está um pouco aberta e ele parece tão frágil quanto qualquer pessoa. Vê-lo daquele jeito, nesta escala tão humana, é aterrador e reconfortante. Vejo mamãe subindo a escada e andando até o quarto, seguida pelo meu irmão e a família dele. Em geral é ela quem se move mais devagar, mas é evidente que todos decidiram deixá-la ir na frente. Nas últimas semanas ela se apoiou no meu irmão e em mim para incontáveis decisões. Quando entra no quarto e vê meu pai, me impressiona como suas décadas lado a lado conferem uma completa autoridade sobre este momento. Um dia foram estranhos, algo que é inconcebível. Se conheceram como vizinhos, quando ele tinha catorze anos e ela, dez, e ele a pediu, de brincadeira, em casamento, então ela foi embora correndo e chorando para casa. No dia do casamento, cinquenta e sete anos e vinte e oito dias antes deste momento, mas na mesma hora, ela não se vestiu até ficar sabendo que ele estava do lado de fora da igreja, e, portanto, não havia a possibilidade de que a deixasse no altar vestida de noiva.”

Nos estertores da vida as cenas se repetem, tal como ocorre com as dores. Não há ricos ou pobres, famosos ou anônimos, cultos ou néscios, eloquentes ou lacônicos. Há, isto sim, capítulos que chegam ao fim embora a história prossiga sem jamais cessar. Nem sempre serão fáceis de entender ou assimilar, mas haverá o dia em que tornar-se-ão mais claros, como a ensinar que não se pode mudar o destino e que Deus é quem estabelece a ordem natural das coisas.

“O som de uma cortina sendo fechada me faz dar meia-volta, e percebo que me deixaram sozinho no quarto. Olho ao meu redor, além da maca onde meu pai descansa e de outra mesa vazia, não há mais nenhuma peça de mobília nem equipamentos na sala, que está impecável e livre de qualquer odor que me pareça estranho. Não sei se tenho pressa em sair ou não, as duas opções me agradam. Toco sua face e está fria, mas não é uma sensação desagradável. Nesse estado de plácido repouso, seus traços não revelam sinais de demência. De novo posso ler em seu rosto a lucidez, a infinita curiosidade e a prodigiosa capacidade de concentração que invejo nele acima de todas as coisas. Trabalhava quase todos os dias das nove da manhã às duas e meia da tarde naquilo que só posso descrever como sendo um transe. Quando meu irmão e eu éramos crianças, minha mãe às vezes nos mandava ao seu estúdio com um recado e ele parava de escrever e se virava para nós enquanto dávamos o recado. Olhava através de nós, com suas pálpebras mediterrâneas semicerradas, com um cigarro aceso numa das mãos e outro que se queimava no cinzeiro, e não respondia nada. Quando cresci, eu às vezes falava: “Você não tem ideia do que acabo de dizer, não é?”, e ainda assim não conseguia uma resposta. Depois que saíamos ele continuava na mesma posição, olhando para a porta, perdido no labirinto da sua narrativa. Cheguei a acreditar que com esse nível de concentração não havia quase nada que ele não pudesse conseguir (…)”

“A imagem do corpo do meu pai entrando no crematório é alucinante e anestésica. É ao mesmo tempo plena e sem sentido. A única coisa que sinto com alguma certeza neste momento é que ele não está ali de jeito nenhum. Continua sendo a imagem mais indecifrável da minha vida.”

Albano Martins
Albano Henriques Martins Júnior é paraense, nascido em Belém em 1971. Advogado cursando especialização em Literatura na PUC/RS (EAD). Guarda de Nossa Senhora, foi membro da Diretoria da Festa de Nazaré entre 2014 e 2023, Coordenador do Círio no biênio 2020/2021, os anos da pandemia. Mantém no Instagram uma página recente sobre livros (ler_e_lembrar).

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