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Caríssimas e Caríssimos,
Reuniões de pós-almoço em clima quente e úmido são um convite à sonolência. E lá estava eu brigando com a pestana enquanto esperava chegar o café salvador. A reunião começava a decolar até que rolou a seguinte sentença: “santo de casa não faz milagre”.

“Que santo?”. Acordei. Tratava-se da avaliação de uma liderança comunitária a reclamar que muitas vezes não tinha suas opiniões consideradas pelos seus pares lá da comunidade, apesar de serem verdadeiras e coerentes, mesmo que fruto de árduo aprendizado de ir buscar informações e ter a vontade de construir conhecimento na sua localidade. Dizia ela: “Mas você é daqui como a gente, lascada como a gente, como pode nos ensinar? Mas é isso mesmo, santo de casa não faz milagre”. Não negarei esta dificuldade, ainda mais trazendo na mochila da memória a frase de Seu Feliciano, da região do Chicaia, Almeirim: “Só quando o pequeno acreditar no menor é que o mundo vai mudar…”.

E na matutagem que permaneci depois deste encontro, compreendi que as discussões atuais sobre mudanças climáticas e futuro amazônico lembram nossa condição de santos e santas de casa que não recebem o devido respeito pelo acúmulo de saber que detemos. Nos exemplos de institutos acadêmicos do sul do país a propor o desenvolvimento da Amazônia, até as nossas participações efetivas como conselheiros nos espaços decisórios, tenho a impressão de que nossas trajetórias em diversos cantos amazônicos de luta contra o desmatamento, a grilagem, a exploração ilegal de madeira, a contaminação de rios e igarapés são também motivos de peleja por reconhecimento.

Em 2025, ano da realização da 30ª Conferência entre as Partes, a COP 30, Belém será palco de apresentações das inúmeras contradições que a Humanidade percorre desde a Revolução Industrial. Sua tentativa de impedir cenários catastróficos de aumento de temperatura global também colocará em xeque a real intenção de escuta e aceitação das autoridades mundiais às propostas vindas de povos da floresta, montanhas, rios e mares do mundo todo e moradores mais vulneráveis das cidades. Serão cobradas melhorias das condições de vida da população planetária e atitude dos governantes e setores privados ante a vergonhosa acumulação de riquezas nas mãos de magnatas, tão acima da Linha da Cobiça que se consideram deuses, enquanto 828 milhões de pessoas na Terra passam fome.

Não é e não será fácil furar os bloqueios estabelecidos nos palcos institucionalizados que irão elaborar os relatórios finais da COP 30 e seus encaminhamentos. Há de considerar os atores, o jogo e os jogadores que mesmo em parte da sociedade civil lucram e timidamente enfrentam de fato as causas da emergência climática. Há de se considerar os interesses envolvidos e as estratégias de manutenção de privilégios do capital inclusive em soluções baseadas na natureza. Há de se exigir que Moçambique e outros países de alta vulnerabilidade socioeconômico e ambiental recebam os recursos de reparação histórica pelos males causados pela sanha industrial dos últimos séculos.

Havemos de ser Santas e Santos de casa multiplicáveis não por pureza de atos, pois humanos somos, porém sobre o entendimento de quais milagres reais necessitamos para vida digna das novas gerações. É imprescindível que sejamos protagonistas na COP 30 para alcançarmos melhores resultados.

Se chegamos até aqui mesmo com todos os dissabores e resistência amazônida, é porque de certa forma, mais do que santas e santos, somos milagres, a própria natureza. Não é este o sentimento dos olhos nossos a cada raiar do sol que testemunhamos?

Carlos Augusto Pantoja Ramos
Engenheiro Florestal, Mentor de Crédito Socioambiental do Instituto Conexsus no Marajó; Mestre em Ciências Florestais e doutorando do Instituto Amazônico de Agriculturas Familiares da UFPA, membro do Coletivo Campesino Amazônico, colaborador da Comissão Pastoral da Terra no Marajó e da Fetagri.

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