Publicado em: 30 de junho de 2026
Não tenho a menor ideia da última vez que gritei tanto quanto ontem. Talvez em 2002, quando o Brasil ganhou o penta. Nesta última segunda-feira, 29 de junho, minha personalidade crítica e politizada passou a bola, oficialmente, para a temporariamente alucinada por futebol, patriota por uma federação que tanto questiona e tem sérios problemas de pertencimento, que mergulha de peixinho no pão e circo e que sente no coração que nada mais importa além da Copa.
É muito doido esse efeito que as paixões têm no cérebro humano. Te fazem encegueirar. No calor desespero, cheguei até a dizer que, se fosse para o Neymar marcar um gol, tudo bem para mim se ele entrasse. Olha o nível em que chegamos.
Passamos o sufoco. Cebolinha e Cascão ganham do Naruto e do Goku, Louro José fez o Pikachu chorar. E aí foi a hora de virarmos Paraguái (em guarani, como deve ser) de coração. O mesmo Paraguái que o Brasil, Argentina e Uruguai massacraram nos meados do século XIX, uma guerra entre ditadores que culminou em um genocídio que dizimou mais da metade da população geral e a grande maioria da população masculina paraguáia, deixando, ao final da guerra, regiões em que a proporção era de um homem para cada vinte mulheres. Milhares de meninos, crianças e adolescentes, morreram nas batalhas. Na batalha de Acosta Ñu, vinte mil militares brasileiros trucidaram cerca de três mil e quinhentos meninos, menores de idade, paraguáios.
O apoio ao nosso irmão guarani frente a Alemanha certamente não pode ser lido como uma reparação histórica a este específico evento, porém não podemos ignorar a importância das redes sociais no processo de decolonização das paixões do Sul Global. Se no início do século XXI o “normal” era ver os brasileiros torcerem por seleções europeias (em jogos em que a seleção canarinha não jogava, claro), atualmente é notório o apoio mútuo entre os países outrora considerados de terceiro mundo em uma aliança contra as nações colonizadoras, responsáveis pelas opressões físicas, econômicas e sociais que moldaram a geopolítica mundial.
As informações globalizadas de como governos e populações do Norte Global se posicionam em relação aos cidadãos imigrantes não-brancos foi um grande chá de revelação decolonial, impulsionando a sororidade principalmente entre nações da América e África. Nesse contexto, é nítida a ruptura do Brasil em relação a Portugal. Se antes a população brasileira considerava Cristiano Ronaldo praticamente “nosso”, hoje em dia a série de violências institucionais e sociais sofridas por imigrantes brasileiros em Portugal – partilhada também pelos oriundos de Cabo Verde e Gana, para citar seleções que ainda seguem na Copa – aflorou uma rejeição lusitana em massa, por mais que narradores e comentaristas de ambos os países tentem apaziguar os ânimos e defender no futebol um sentimento de irmandade.
E foi assim que o Brasil viralizou a garota congolesa que rebateu uma postagem infeliz de uma miúda que considerava uma vergonha a seleção de Portugal empatar com a da República Democrática do Congo, traduzindo (mesmo que involuntariamente) para o futebol a soberba da extrema-direita portuguesa que incorpora o discurso fascista para se autovalidar. Se os livros de história nos ensinaram que descendemos dos portugueses, agora a troca de informação global faz nosso sangue banto falar mais alto – o mesmo que nomeou o nosso futebol mu’leke e nos ensinou a, em comemoração, sambar. O preconceito e o ódio uniram o que a colonização separou.
Não sejamos ingênuas de achar que o 7×1 não foi o principal motivo para o Brasil ter vibrado com a vitória do Paraguái sobre a Alemanha assim como viramos equatorianos desde pequenininhos semana passada, mas concordemos que ver Marrocos desclassificar os Países Baixos tem um sabor tão bom quanto o do Cuscuz que adotamos como nosso. A Copa do Mundo é um momento de alienação gostosa, quando nada parece mais importante do que parar tudo para ver nações definirem orgulhos através de uma disputa de bola, mas a aliança do Sul Global está aí para provar que essas paixões já não são tão cegas assim.
Dito isto, chegamos no momento em que tá impossível não acreditar.










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