Publicado em: 28 de junho de 2026
Para Ernesto Cruz
A obra da escritora Clarice Lispector indubitavelmente transforma o cotidiano em uma reflexão existencial. Sua escrita implode a narrativa tradicional e mergulha nas inquietações mais profundas da consciência humana. Em suas obras, o drama acontece nos fatos externos, e principalmente no interior das personagens. O conto “Imitação da Rosa”, presente na coletânea Laços de Família (1960), revela de forma intensa essa dimensão psicológica e filosófica da autora. É este conto que buscaremos fazer uma relação com o pensamento de Walter Benjamin. (1892 – 1940)
Em “Imitação da Rosa”, A personagem Laura surge como uma mulher aparentemente equilibrada, organizada e integrada à rotina doméstica. Contudo, desde as primeiras linhas percebe-se que sua estabilidade é frágil. Após uma crise emocional, ela tenta retornar à normalidade por meio da disciplina cotidiana. A personagem vive controlando pensamentos, horários e comportamentos, como se a ordem externa pudesse impedir o colapso interior. Essa tensão silenciosa é o eixo central da narrativa.
A leitura da obra a partir do pensamento de Walter Benjamin permite compreender Laura como representação do sujeito moderno fragmentado. Benjamin afirmava que a modernidade produziu indivíduos marcados pela perda da experiência autêntica. Em uma sociedade dominada pela velocidade, pela racionalização e pela repetição mecânica da vida, o sujeito passa a existir mais como função social do que como presença humana plena. Laura encarna exatamente essa condição.
Benjamin, no ensaio “Experiência e Pobreza”, argumenta que o ser humano moderno perdeu a capacidade de elaborar profundamente suas vivências. Em “Imitação da Rosa”, Laura vive aprisionada em uma rotina que parece organizada, entretanto esconde um vazio existencial profundo. Quando Clarice escreve: “Ela estava bem outra vez. Tomara que ninguém soubesse”, revela-se o medo moderno da exposição da fragilidade humana. O importante não é estar bem de fato, é aparentar equilíbrio.
As rosas do conto possuem forte valor simbólico. Ao comprá-las, Laura é tomada por uma fascinação inquietante diante da perfeição das flores. Clarice escreve: “As rosas estavam ali. Perfeitas.” Essa contemplação rompe a normalidade da personagem e provoca uma espécie de vertigem interior. A beleza das rosas torna-se quase insuportável porque desperta algo adormecido em Laura.
Nesse ponto, o diálogo com Benjamin torna-se ainda mais evidente. O filósofo desenvolve o conceito de aura como a singularidade intensa de uma experiência verdadeira. Em meio à vida automatizada da modernidade, certos objetos ainda possuem a capacidade de interromper o fluxo mecânico da existência. As rosas possuem aura porque provocam em Laura um choque sensível e existencial. Elas suspendem o cotidiano e fazem a personagem confrontar sua própria condição interior.
Benjamin compreendia o choque como uma das marcas fundamentais da vida moderna. O sujeito contemporâneo vive cercado por estímulos constantes que fragmentam sua percepção do mundo. Em Clarice, o choque não aparece na multidão urbana ou na violência explícita, mas no encontro silencioso entre Laura e as rosas. A experiência estética torna-se uma ruptura da racionalidade cotidiana.
A reação de Laura diante das flores revela também o medo da intensidade. Ela tenta afastar as rosas, cogita entregá-las a outra pessoa, porque percebe que aquela beleza ameaça sua estabilidade cuidadosamente construída. Benjamin acreditava que a experiência estética verdadeira possui força transformadora justamente porque interrompe o automatismo social. Laura teme esse despertar porque ele desmonta sua rotina artificial de controle.
Outro aspecto importante da leitura benjaminiana está na ideia de fragmentação subjetiva. Laura vive dividida entre aquilo que sente e aquilo que precisa aparentar. Sua identidade parece construída por gestos mecânicos de adequação social. Benjamin observava que a modernidade frequentemente transforma os indivíduos em estrangeiros de si mesmos. A personagem Laura vive exatamente essa condição: não consegue habitar plenamente sua própria existência.
O espaço doméstico do conto também reforça essa interpretação. A casa organizada, os horários controlados e os pequenos rituais cotidianos funcionam como mecanismos de contenção emocional. Em Clarice, os objetos da rotina nunca são neutros. Eles carregam tensão e silêncio. Benjamin afirmava que a modernidade transformou a vida cotidiana em um espaço de alienação invisível, onde o sujeito perde contato com sua experiência mais autêntica.
Lispector trabalha magistralmente o silêncio narrativo. Muitas vezes, o que não é dito possui mais força do que os diálogos. Essa fragmentação da linguagem aproxima-se da reflexão proposta por Walter Bemjamin sobre a crise da narrativa moderna. Para Benjamin, a modernidade destruiu a experiência compartilhada e tornou o sofrimento cada vez mais incomunicável. Laura não consegue explicar plenamente sua angústia porque ela mesma não compreende inteiramente o que sente.
O título “Imitação da Rosa” carrega uma profunda dimensão filosófica. A ideia de imitação sugere artificialidade e perda da autenticidade. Laura também vive uma espécie de imitação de si mesma. Ela tenta representar o papel da mulher equilibrada, disciplinada e funcional. Benjamin criticava justamente a substituição da experiência autêntica por formas mecânicas de existência social. A personagem torna-se símbolo dessa vida encenada.
A narrativa de Clarice revela que a maior tragédia moderna talvez seja a incapacidade de viver intensamente. Laura não está destruída externamente; sua ruína é íntima e silenciosa. Benjamin compreendia que as ruínas da modernidade não são apenas materiais, são subjetivas. O sujeito moderno carrega dentro de si rupturas, ausências e melancolias que raramente conseguem ser expressos.
Percebe-se que “Imitação da Rosa” ultrapassa a dimensão psicológica individual e transforma-se em uma densa reflexão sobre a condição humana moderna. As rosas representam a possibilidade de uma experiência verdadeira em um mundo marcado pela repetição e pelo vazio. A personagem central, percebe a distância dolorosa entre existir autenticamente e apenas funcionar dentro das exigências sociais da modernidade.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista




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