Publicado em: 4 de junho de 2026
O doutorado sanduíche de Kellyane Cesar, acadêmica do Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade e Biotecnologia da Amazônia Legal – Bionorte/Ufopa, no Instituto Superior de Engenharia, em Coimbra (Portugal) rendeu uma descoberta científica: as cascas do fruto da andiroba têm potencial como fonte sustentável de corantes naturais.
Participaram da pesquisa as professoras Rosa Mourão e Sandra Sarrazin, da Ufopa, e as pesquisadoras Nazaré Pinheiro e Filipa Fonseca, da instituição portuguesa, com colaboração de alunos do curso de Farmácia do Instituto de Saúde Coletiva (Isco) da Ufopa.

A Universidade Federal do Oeste do Pará coordena a pesquisa e foi responsável pela coleta de cascas de andiroba, desenvolvimento dos métodos de extração, análises químicas iniciais e testes de tingimento em fibras naturais – a parte central do trabalho científico e a interação com as comunidades locais. O Instituto de Coimbra atua como parceiro internacional, contribuindo com expertise em tecnologia têxtil para a avaliação da solidez e da fixação das cores, além de fortalecer as discussões sobre escalonamento e padrões industriais.

O trabalho também está associado ao projeto institucional voltado ao fortalecimento da infraestrutura científica e tecnológica da Amazônia Legal, financiado pelo edital MCTI/FINEP/FNDCT – Pró-Amazônia, envolvendo o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a Financiadora de Estudos e Projetos e o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, bem como a bolsa de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) da pesquisadora Rosa Mourão.
O estudo inovador aponta alternativa ecológica para a indústria têxtil, substituindo corantes sintéticos, de alto impacto ambiental, por corantes naturais obtidos a partir de resíduos vegetais.
O objetivo foi transformar um resíduo abundante em um produto de maior valor, contribuindo para a bioeconomia amazônica e para o uso sustentável dos recursos da região. Para isso, foram feitas coleta de cascas de andiroba, produção de extratos, análises químicas, testes de aplicação em tecidos e avaliação da durabilidade das cores obtidas.
A extração do óleo gera uma grande quantidade de cascas, antes descartadas como resíduo. O estudo identificou que esse material, rico em taninos (compostos naturais com forte capacidade de pigmentação), tem potencial para ser utilizado como alternativa aos corantes sintéticos e assim alavancar a economia local.

Com isso, parte dos corantes sintéticos, conhecidos pelo elevado impacto ambiental e toxicidade devido à dependência de derivados do petróleo, podem ser substituídos, em um processo que também cria oportunidades econômicas para comunidades extrativistas, valoriza saberes tradicionais sobre pigmentos vegetais e fortalece a bioeconomia.
A andiroba é utilizada por populações amazônicas há gerações, tanto na medicina tradicional quanto na produção artesanal de pigmentos naturais.
O estudo reconhece e valoriza esse saber ancestral, buscando compreender cientificamente os compostos responsáveis pela coloração e validar, em laboratório, práticas já presentes na cultura local.
As cascas de andiroba utilizadas na pesquisa foram coletadas na comunidade de Samaúma (PA), onde o agroflorestor Adamor Santos, ex-garimpeiro, desenvolveu, com apoio de professores e estudantes da Ufopa, uma agroindústria comunitária dedicada à extração de óleos florestais, incluindo o óleo de andiroba.
A comunidade Samaúma fica no Assentamento Tapera Velha, na região do planalto de Santarém, perto da Floresta Nacional do Tapajós.
A equipe de pesquisa extraiu o corante do pó de cascas usando solventes verdes, como a água, sem recorrer a substâncias químicas agressivas.
O extrato natural foi aplicado em fibras de algodão, linho, lã e seda, resultando em uma paleta elegante de tons bege e cinza acastanhados. Os testes demonstraram boa fixação e resistência ao desbotamento, tanto sob exposição prolongada à luz solar quanto após lavagens com água fria e quente.
O estudo também demonstra que ciência, biodiversidade e saberes tradicionais podem atuar de forma integrada na construção de uma economia mais sustentável, inclusiva e alinhada às potencialidades da Amazônia.
O trabalho foi publicado na edição de 2026 dos anais científicos da 7.ª Conferência Internacional WASTES: Solutions, Treatments and Opportunities pela editora Springer. Título do trabalho: “Valorization of Carapa guianensis Fruit Waste as a Sustainable Source of Natural Textile Dyes” (disponivel aqui).










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