Publicado em: 16 de abril de 2026
Uma pesquisa conduzida pela Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) que analisou espécies amplamente presentes na dieta local, identificou a presença de elementos como mercúrio, arsênio, cádmio e chumbo, metais tóxicos com impactos que variam conforme o padrão de consumo.
O estudo foi realizado em Faro, Juruti, Santarém e Oriximiná, no Baixo Amazonas, além de Itaituba, no sudoeste do estado. A investigação partiu de uma comparação entre dois perfis alimentares distintos: o consumo médio nacional, estimado em 24 gramas de peixe por pessoa por dia, e o cenário amazônico, onde a ingestão pode chegar a 462 gramas diárias, especialmente em comunidades ribeirinhas, onde o pescado é a principal fonte de proteína.
A diferença entre esses padrões altera significativamente o risco associado à exposição aos contaminantes. Enquanto os níveis observados no consumo médio brasileiro indicam, em geral, baixo risco, o cenário amazônico revela situações em que a ingestão contínua pode representar ameaça à saúde ao longo da vida.
Seis espécies foram avaliadas, divididas entre predadoras (tucunaré, surubim-pintado, pirarucu e piranha) e não predadoras (aracu e acari). A escolha considerou a ampla presença desses peixes nas áreas analisadas e sua relevância no consumo regional.
Os resultados apontam que os peixes carnívoros concentram maiores níveis de mercúrio, substância associada a danos neurológicos. “Altas concentrações de mercúrio se encontram nos peixes predadores, como o tucunaré, a piranha, o surubim-pintado e o pirarucu. Nos peixes não predadores (aracu e acari) foram observadas concentrações elevadas de arsênio, possivelmente associadas à exposição ao sedimento”, explicou o pesquisador Fábio Albuquerque, doutor em Ciências Ambientais e colaborador do Programa de Pós-Graduação em Sociedade, Natureza e Desenvolvimento (PPGSND).
Em parte das amostras analisadas, o arsênio também foi associado a risco potencial de câncer. No recorte amazônico, o consumo de determinadas espécies, como acari e pirarucu, em municípios como Faro, Juruti e Santarém, apresentou níveis considerados inaceitáveis para populações com alta ingestão de pescado.
Apesar dos achados, o estudo não classifica os peixes como impróprios para consumo. A interpretação dos dados leva em conta a variação entre espécies e locais, indicando que há casos com concentrações abaixo de limites críticos. Ainda assim, o alerta recai sobre a tendência de agravamento associada à degradação ambiental. “Vale ressaltar que os metais pesados ocorrem naturalmente nos ecossistemas, mas as atividades antrópicas como mineração, desmatamento, queimadas, entre outras, vai favorecer o aumento das concentrações de metais que chegam aos organismos aquáticos”, destacou Albuquerque.
O cenário analisado reflete transformações recentes na região. Em Itaituba, a intensificação do garimpo – em grande parte ilegal, é preciso ressaltar – ampliou a liberação de mercúrio nos rios, impulsionada pela adoção de equipamentos mais pesados e por uma dinâmica mais industrializada da atividade. Já em Oriximiná e Juruti, a exploração de bauxita, instalada desde 1969 e 2009, respectivamente, produz resíduos conhecidos como lama vermelha, material de alta alcalinidade que pode carregar metais pesados e alterar as características do solo e da água.
Mesmo municípios sem atividade mineradora direta, como Santarém, acabam impactados pelo transporte de sedimentos pelos rios Tapajós e Amazonas, que recebem influência das áreas de extração. Em Faro, embora não haja conexão direta com essas águas, fatores como expansão agrícola, desmatamento, queimadas e exploração ilegal de madeira configuram um ambiente de pressão ambiental semelhante.
A pesquisa também aponta a rápida mudança no uso do solo no oeste do estado, com a substituição de práticas agrícolas tradicionais por um modelo mecanizado voltado à produção de milho e soja. A área plantada com soja saltou de 25 hectares, em 2001, para 122 mil hectares em 2024, fazendo da região como nova fronteira agrícola.
Esse conjunto de atividades contribui para a liberação de mercúrio naturalmente presente nos solos. A remoção da vegetação e a perturbação do terreno intensificam processos erosivos, aumentando a disponibilidade do metal nos ecossistemas aquáticos e, consequentemente, sua incorporação na cadeia alimentar.

O estudo defende a necessidade de revisão dos parâmetros utilizados para avaliar riscos à saúde na Amazônia. As diretrizes nacionais, baseadas em médias de consumo mais baixas, não refletem a realidade de populações que dependem fortemente do pescado. A pesquisa indica que esse descompasso pode subestimar os efeitos da exposição contínua a contaminantes.
Além de fornecer dados sobre riscos carcinogênicos e não carcinogênicos associados aos metais analisados, o trabalho destaca a urgência de políticas específicas de monitoramento ambiental e saúde pública voltadas a essas comunidades.
A pesquisa foi desenvolvida por Fábio Albuquerque e pelo professor Antonio Minervino, ambos vinculados ao Laboratório de Sanidade Animal (Larsana) da Ufopa, em parceria com a Universidade de Santiago de Compostela. Os resultados foram publicados em periódico científico internacional e o artigo pode ser lido aqui.
Foto em destaque: Prof. Fábio Albuquerque (Ascom Ufopa)









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