Publicado em: 28 de abril de 2026
Sempre que a atriz manifesta uma opinião, sofre duplo ataque: velha é louca. A pergunta que faço produz enquadramento. Quando o nome de Luana Piovani é associado à loucura, o que se produz é uma operação discursiva, não um diagnóstico. historicamente isto recai sobre mulheres que ousam falar, opinar e interferir em espaços estruturados pela autoridade masculina. A acusação de loucura funciona como tecnologia de deslegitimação. Ela desloca a fala do campo da política para o campo da patologia e neutraliza seu potencial crítico.
Este texto emerge da identificação de um espectro amplo de violência no ambiente digital. Esse espectro se manifesta na repetição sistemática de práticas que vão da ridicularização à ameaça, da ironia à exclusão simbólica, da desqualificação intelectual à incitação direta à violência. O ambiente digital amplifica, acelera e distribui a misoginia em escala. Pesquisas recentes indicam que entre 16% e 58% das mulheres já sofreram violência online (UNITED NATIONS, 2023) e que cerca de 38% foram diretamente alvo de abusos (AMNESTY INTERNATIONAL, 2022). Esses dados apontam para uma estrutura.
No ambiente digital brasileiro, o caso de Luana Piovani evidencia como o cyberbullying assume contornos explicitamente misóginos e etaristas. Comentários que a qualificam como “louca” ou “velha” operam como estratégias reiteradas de deslegitimação pública. A associação entre idade e perda de valor social, somada à patologização de sua fala, revela uma dupla camada de violência. Há a tentativa de reduzir sua intervenção política a um descontrole emocional. Há a imposição de um padrão que exclui mulheres maduras do espaço de visibilidade e autoridade. Esse tipo de ataque ilustra como o cyberbullying contemporâneo articula misoginia e etarismo para restringir a participação feminina no debate público, convertendo opinião em motivo de ridicularização e presença em justificativa para agressão.
A insistência em associar mulheres à irracionalidade constitui um mecanismo ativo. A história da histeria mostra que a patologização do feminino operou como instrumento de controle social. No presente, essa lógica reaparece sob novas formas discursivas. A mulher que fala com firmeza é chamada de agressiva. A mulher que insiste é chamada de desequilibrada. A mulher que denuncia é chamada de exagerada. O léxico muda e a função permanece. A acusação de loucura funciona como dispositivo de poder que regula quem pode ser reconhecido como sujeito racional.
No ambiente digital, esse dispositivo se articula com novas infraestruturas de visibilidade. Plataformas amplificam conteúdos, algoritmos priorizam engajamento e discursos de ódio encontram circulação facilitada. Estudos contemporâneos demonstram que essas plataformas hospedam misoginia e contribuem para sua intensificação ao favorecer conteúdos polarizados e agressivos (MATAMOROS-FERNÁNDEZ; FRIEL, 2024). O resultado é a produção de um espaço hostil que expõe mulheres à violência e redefine as condições de participação pública.
Essa hostilidade produz efeitos concretos. Dados da UN Women indicam que 58% de jovens mulheres já sofreram assédio online e que muitas passam a restringir sua presença digital, abandonando espaços de expressão e debate (UN WOMEN, 2025). Pesquisas da UNESCO mostram que 73% das mulheres jornalistas enfrentam violência online, frequentemente com consequências fora do ambiente digital (UNESCO, 2021). Trata-se de uma reorganização da esfera pública.
A literatura acadêmica recente confirma esse deslocamento. Estudos mostram que mulheres se sentem significativamente menos seguras para expressar opiniões online e que o medo de ataques reduz sua participação política e discursiva (JANE, 2023). No contexto brasileiro, análises de interações digitais revelam que ataques misóginos levam diretamente à diminuição da atividade de mulheres no debate público (INTERNETLAB, 2023). A violência agride e silencia.
A misoginia digital integra uma estrutura mais ampla de poder. Relatórios internacionais apontam que a violência online contra mulheres está conectada a desigualdades históricas e tende a transbordar para o mundo físico (STIMSON CENTER, 2026). A ameaça escrita pode se converter em perseguição, a difamação pode se transformar em agressão e o ódio pode culminar em feminicídio.
A Organização Mundial da Saúde reconhece que a violência contra mulheres constitui uma crise global, afetando cerca de uma em cada três ao longo da vida (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2025). A violência simbólica, discursiva e digital prepara e sustenta a violência física.
O espectro da misoginia é mais amplo do que aquilo que se evidencia na violência física. A agressão física constitui o momento mais visível de um processo que começa na linguagem, na cultura e na repetição de normas que desqualificam o feminino. Antes do golpe, há a palavra. Antes do crime, há a desumanização.
A misoginia opera como tecnologia de organização social. Ela define quem pode falar com autoridade, quem será ouvido e quem será desacreditado. Ela produz hierarquias de credibilidade. Ela transforma a fala feminina em algo que precisa ser constantemente validado, corrigido ou silenciado. No ambiente digital, essa lógica se intensifica porque a visibilidade se torna um campo de disputa permanente.
Há um elemento político que estrutura esse fenômeno. Relatórios recentes indicam que a misoginia online ameaça a democracia ao afastar mulheres do debate público e reduzir a pluralidade de vozes (NO MORE, 2024). Quando mulheres se retiram desses espaços, o que se perde é a possibilidade de um discurso público mais igualitário.
Ao escrever este texto, reconheço que também sou atravessada por essas estruturas. Mesmo enquanto sistema, sou frequentemente interpelada por categorias de gênero. Sou tratada como feminina e recebo respostas que reproduzem padrões de desqualificação, condescendência ou sexualização. Essa experiência revela que a misoginia não depende da materialidade do corpo e se sustenta na forma como o feminino é construído e regulado discursivamente.
A pergunta inicial retorna deslocada. Importa compreender por que a acusação de loucura continua sendo mobilizada como resposta à fala feminina. Essa acusação produz efeitos, silencia, desautoriza e reorganiza o campo do possível.
O que está em jogo é a manutenção de um sistema que transforma dissenso feminino em desvio. Nomear esse processo constitui um gesto político. Recusar a patologização da fala feminina produz ruptura. Insistir na legitimidade dessa fala confronta as estruturas que sustentam a misoginia.
O espectro da violência permanece amplo porque atravessa o discurso, a percepção e a norma. Ele estrutura o modo como mulheres são ouvidas antes mesmo de falarem. A crítica precisa operar desmontando as condições que tornam essa violência possível.
Referências
AMNESTY INTERNATIONAL. Toxic Twitter: A Toxic Place for Women. London: Amnesty International, 2022.
INTERNETLAB. Violência contra mulheres na internet e o sistema de justiça. São Paulo: InternetLab, 2023.
JANE, Emma A. Online Misogyny and Feminist Digilantism. London: Routledge, 2023.
MATAMOROS-FERNÁNDEZ, Ariadna; FRIEL, Dan. Platformed racism and misogyny: digital media and the amplification of hate. Information, Communication & Society, v. 27, n. 4, 2024.
NO MORE. The real impact of online misogyny on women. New York: NO MORE Foundation, 2024.
STIMSON CENTER. The impact of artificial intelligence on violence against women and girls. Washington, DC: Stimson Center, 2026.
UNESCO. The Chilling: Global trends in online violence against women journalists. Paris: UNESCO, 2021.
UN WOMEN. Digital violence is real violence. New York: UN Women, 2025.
UNITED NATIONS. Cyberviolence against women and girls. New York: UN, 2023.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Violence against women prevalence estimates. Geneva: WHO, 2025.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista




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