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Peço desculpas previamente aos leitores pelo tom deste texto e já alerto para gatilhos de violência.

Eles não são casos isolados. Eles não são pontos fora da curva. Os potenciais assassinos de mulheres estão em toda parte. Caminham ao nosso lado, atravessam ruas, entram em casas, manifestam-se confortavelmente nas redes sociais, controlam palavras e criam um manual de reprodução da violência. Foi um desses homens que, na última madrugada, interrompeu brutalmente a vida de Caroline, uma jovem de Santarém, Pará, impondo mais uma pena capital a uma mulher.


O lar e o afeto, que deveriam ser abrigo, tornaram-se prisão e câmara de execução de mulheres. O gesto de controle, a palavra sufocante e o olhar ameaçador culminaram em violência letal, e eu percebo, com inquietação ruidosa neste espaço, que essa violência é a superfície visível de estruturas históricas profundas, cujas raízes sustentam o edifício da violência de gênero de nosso tempo.


Os números, frios e intransigentes, me assombram. Milhares de feminicídios registrados nos últimos dez anos são mais do que casos isolados e estatísticas: são vidas apagadas, histórias interrompidas, corpos que não puderam exercer o direito natural de existir plenamente no mundo. Vejo nesses dados o reflexo de normas sociais que concedem aos homens o controle sobre os destinos das mulheres. É uma tradição persistente, invisível e estrutural, que se revela em cada ato de violência.


Mulheres foram queimadas, silenciadas e punidas por desafiar normas patriarcais e imperativos biológicos de poder. O corpo feminino sempre foi palco de controle, ritualizado e sancionado socialmente e, vendo os números do presente, percebo que carregamos as sombras de práticas antigas que continuam a reverberar fora dos manuais de igualdade de gênero, nas casas, nas ruas e nas plataformas digitais.


Nas redes sociais, vejo uma pedagogia da violência que se ensina estrategicamente. Cada comentário hostil, cada meme degradante, cada vídeo de humilhação funciona como uma lição não formal de treinamento do algoritmo e de mentes, uma forma de aprendizado sobre o que é permitido, tolerado e invisível à justiça. Jovens e adultos aprendem a normalizar o assédio, a manipulação emocional e o desprezo pelas mulheres, internalizando padrões de dominação que se manifestam em atos simbólicos, verbais e letais. Esta pedagogia invisível molda comportamentos e naturaliza a violência, criando espaços digitais onde a misoginia se hiper-reproduz e se fortalece a cada interação.


Vejo a gamificação da violência nos fóruns digitais como uma engrenagem perversa que transforma o ódio em um sistema de recompensas, onde a desumanização é tratada como conquista de status. Nesse ambiente, percebo como mecanismos de pontuação e rankings de agressividade treinam mentes para enxergar a hostilidade como uma habilidade social a ser aprimorada, validada pelo eco constante de curtidas e compartilhamentos. Esse processo gera um lucro direto para a economia da atenção: quanto mais extremo é o conteúdo, mais tempo o usuário permanece conectado, alimentando algoritmos que priorizam o choque. Entendo que essa arquitetura digital converte o ressentimento em um produto rentável, moldando comportamentos que transpõem a barreira da tela e se materializam em violências reais e sistêmicas.


Interpreto os memes — que, para Dawkins, são unidades de transmissão cultural — para além de simples imagens ou piadas: são dispositivos de superlativação e de reprodução de comportamentos e de normas sociais. Cada meme misógino atua como um manual silencioso de violência e ódio que “educa” pelo algoritmo a coisificar as mulheres, prescrevendo, naturalizando e celebrando práticas de dominação.


O meme é uma linguagem poderosa de codificação de padrões comportamentais. A reprodução da mensagem transforma desprezo em aprendizado e instrui a quem observa sobre o que é aceitável, tolerado e invisível à justiça. Na circulação infinita de likes, compartilhamentos e comentários, o meme torna-se um agente pedagógico: vitaliza a hostilidade, reforça a misoginia e prepara o terreno para atos simbólicos, emocionais e letais, mostrando como a cultura digital pode ser instrucionalmente fatal.


A cultura Red Pill representa uma escola contemporânea de misoginia organizada e viralizada, prescrevendo penas capitais simbólicas para mulheres. Ela se fundamenta no discurso de que os homens são vítimas de uma sociedade que favorece as mulheres, promovendo a ideia de dominação masculina como resposta “necessária” à suposta opressão. É uma derivação abjeta da retórica do preconceito reverso.


Fóruns, vídeos e conteúdos online ensinam técnicas de manipulação, objetificação e controle de parceiras, construindo uma pedagogia da hostilidade. Seus adeptos compartilham fóruns fechados onde reforçam uns aos outros crenças de superioridade masculina e desprezo pelas mulheres, transformando raiva, frustração e ressentimento em manual de conduta social. Essa subcultura reforça padrões de violência simbólica, emocional e física, e se articula com práticas digitais de assédio e intimidação.


O tipo incel violento representa a face extrema da misoginia digital. Esse perfil é formado por indivíduos que se percebem privados de relacionamentos afetivos e sexuais, internalizando ressentimento e ódio contra mulheres e homens que “conseguem”, construindo narrativas de vingança e direito à dominação. Fóruns e comunidades online tornam-se incubadoras de frustração, onde instruções sobre assédio, manipulação emocional e violência física são compartilhadas e legitimadas.


O incel violento combina isolamento social, radicalização digital e convicções de superioridade moral ou direito à retribuição, frequentemente culminando em ataques planejados ou espontâneos contra mulheres. Esse fenômeno demonstra como a cultura digital radicaliza sentimentos de frustração em práticas de violência real, reforçando padrões históricos de dominação masculina.


A eficácia dessa pedagogia do ódio é potencializada por uma arquitetura algorítmica que está longe de ser neutra. As plataformas digitais operam sob uma lógica de economia da atenção, onde o engajamento é frequentemente extraído do conflito, da indignação e do choque. Quando um conteúdo misógino recebe “likes” e interações de um nicho específico, o sistema do algoritmo não apenas o valida, mas o impulsiona ativamente para perfis com inclinações semelhantes, formando uma mentalidade de colmeia e retroalimentando as bolhas de radicalização da violência.


Esse mecanismo transforma o preconceito em lucro e a hostilidade em tendência, criando câmaras de eco onde a violência simbólica se normaliza sem contraditório e alimenta a economia digital. Portanto, a luta contra o feminicídio em 2026 exige, obrigatoriamente, a transparência e a responsabilidade ética das Big Techs, que devem ser cobradas por uma moderação rigorosa que interrompa o fluxo dessas engrenagens de ódio antes que elas se materializem em tragédias físicas. Mas o império digital é irracional e se alimenta do engajamento, seja ele negativo ou positivo.


A misoginia digital planta medo, paralisa iniciativas e esmaga vozes. Mulheres aprendem a medir cada gesto e palavra enquanto a hostilidade se instala como sombra sobre carreiras, debates e espaços públicos. O poder se infiltra nos espaços invisíveis. Estruturas sociais concedem espaço, dão voz, tolerância e impunidade, legitimando comportamentos que, no paroxismo, conduzem ao feminicídio.


Mapear essas estruturas, responsabilizar agressores e identificar padrões de comportamento digital e real oferece proteção preventiva e reduz riscos. Cada morte é um farol que denuncia falhas sociais, e cada discurso misógino online cria raízes que sustentam árvores frondosas de violência. A transformação exige ação sobre cultura, educação, tecnologia e aparelhos estatais de justiça. É preciso quebrar as correntes históricas da dominação para que a vida possa respirar livremente.


Suponho, finalmente, que políticas públicas coordenadas são urgentes e inadiáveis. É necessário conectar prevenção, educação e proteção de forma articulada: programas escolares de conscientização, campanhas digitais contra misoginia, capacitação de profissionais de saúde, segurança e judiciário, criação de centros de acolhimento e apoio psicológico, monitoramento digital de perfis de risco online, marcos regulatórios transnacionais das Big Techs e promoção de políticas culturais que desconstruam padrões históricos de dominação masculina. Uma ação sinérgica, coletiva, consciente e coordenada é urgente, diante da escalada da violência, para que se possa estancar o ciclo de violência e proteger vidas que ainda respiram.


REFERÊNCIAS
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BRASIL. Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Pesquisa inédita mostra como influenciadores lucram com conteúdos misóginos no YouTube. Brasília, DF: Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, 2024.
CNN BRASIL. Brasil tem maior número de feminicídios dos últimos 10 anos, diz pesquisa. São Paulo: CNN Brasil, 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br. Acesso em: 20 mar. 2026.
FERREIRA, L. et al. Perspectives on gender-based violence: theoretical approaches. [S. l.]: Academic Press, 2021.
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NOGUEIRA, R. et al. Violence against women and gender-based power relations: challenges and reflections. Revista de Saúde Pública, [s. l.], v. 53, n. 10, 2019.
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PEREIRA, M. et al. Gender, power and violence: historical and social intersections. Rio de Janeiro: Editora Científica, 2022.
THE GUARDIAN. Social media algorithms are amplifying misogynistic content. Londres: The Guardian, 2024. Disponível em: https://www.theguardian.com. Acesso em: 20 mar. 2026.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Shirlei Florenzano Figueira
Shirlei Florenzano, advogada e professora da Universidade Federal do Oeste do Pará - UFOPA, mestra em Direito pela UFPA, Membro da Academia Artística e Literária Obidense, apaixonada por Literatura e mãe do Lucas.

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