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Eis que entro em casa cantarolando Caymi, chego até Paula, minha esposa, e dou-lhe incontinente a peremptória notícia: “Meu amor, prepare-se, passando o carnaval vamos a Salvador.” Ela me olha, tomada pela incredulidade, e pergunta: “Salvador…na Bahia???” (assim mesmo, acentuada ênfase na interrogação). De pronto questiona se estou bem, fazendo potoca ou se há alguma motivação profissional específica. Digo-lhe que não, que vamos a Salvador a passeio, que quero conhecer a cidade, o Pelourinho, a Ladeira do Tabuão, o Rio Vermelho e o Terreiro de Mãe Menininha do Gantois. Ela então chama Alana, acadêmica de medicina: “Filha, corre aqui, teu pai tá variando…”

Explico melhor: nasci em 1971 e entre os meus contemporâneos, até os nossos vinte e poucos anos, era natural ter grande afeição pela Bahia, terra de gente boa, criativa, que levava a vida na velocidade certa, passando as tardes em Itapoã, ao sol que arde em Itapoã. Havia por lá um vasto manancial cultural, sobretudo musical: Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia e Raul Seixas, todos vinham de lá, da capital, do interior e de um lugar de nome pomposo que repetíamos com gosto: o Recôncavo Baiano.

Mesmo quem não era de lá parecia ser, afinal grande parte da melhor música brasileira vinha da Bahia. Pessoalmente, eu era capaz de afirmar a baianidade de Nana Caymi (carioca), Baby Consuelo (carioca), Toquinho (paulista) e Clara Nunes (mineira). Baby inclusive chegou a integrar os Novos Baianos, outra boa contribuição daquela terra à MPB.

Lembro bem de 1992, quando Caetano, prestes a completar 50 anos, surgiu com “Circuladô”, um disco genial lançado também em vídeo (não lembro se minha cópia era VHS ou se já havia o DVD). Gil vinha de “Raça Humana”, álbum fantástico, e pouco depois lançaria o “Acústico MTV”, ali por 1994. Nana Caymi era um bálsamo, uma deusa que tanto lotava grandes salões quanto encantava em performances intimistas tendo por palco pequenos templos do jazz. Dentre os vários shows seus que assisti, guardo nítidas imagens de uma noite nos salões do Hotel Hilton, em Belém, e de outra na Boate People, notória casa noturna da Zona Sul do Rio de Janeiro.

Mas aí, meus amigos, sabe-se lá o que azedou naquele dendê, a Bahia resolveu mudar de rumos (digamos assim…). Não sei se houve mau tempo em Itapoã, se o mar de Itapoã não se fez mais ouvir e por isso deixou-se de falar de amor em Itapoã. Só sei que a turma que por lá passava as tardes demorou a voltar da praia, e em seu lugar surgiu uma barulheira disforme, de letras questionáveis, melodias rudimentares e um mau gosto de fazer vexar Dodô e Osmar, possivelmente arrependidos da invenção do trio elétrico.

Nota importante: por óbvio me refiro ao meu gosto musical, àquilo que eu considero canto, melodia, harmonia e ritmo; que eu aprecio enquanto letra e poesia, ao que faz bem ou agrada os meus ouvidos, sem nenhum demérito aos que gostam de algo diferente.

Não satisfeitos em desfigurar a doce imagem que eu tinha da Bahia, os responsáveis pela inovação musical (digamos assim…) que afetou indelevelmente a minha geração, incentivados pelas ousadas metas de lucro e arrecadação da indústria fonográfica, resolveram tomar o país, saindo da sua terra “para fazer barulho na terra alheia”, como já cantou o nosso carimbolesco Pinduca.

Rompendo as fronteiras baianas aquela onda sentou praça no país inteiro com as famigeradas micaretas, disseminando danças que iam da manivela à boquinha da garrafa, rebolados que certamente estão na origem de boa parte das doenças de articulação que acometem jovens senhoras da minha idade, e conjuntos musicais cujas contribuições mais afamadas parecem ter sido as dançarinas que as impiedosas caixas registradoras do entretenimento levaram às capas das revistas masculinas.

Nota importante (novamente): estou me referindo ao meu gosto musical, que sempre esteve muito mais próximo do gosto dos meus pais, e até dos meus avós, do que do gosto dos meus amigos (não espalhem, por favor, mas eu até hoje ouço Elizeth Cardoso, Maria Creuza, Maysa, Marisa Gata Mansa, Herivelto Martins, Lupicínio Rodrigues e, pasmem, Noite Ilustrada…). Em sendo assim, é bem provável que o errado nessa história seja eu!

De todo modo, aquele fenômeno musical (digamos assim…) criou em mim uma aversão à ideia de ir a Bahia. Baita tolice, mas preciso ser honesto e admitir que aquela música, mais que maltratar meus ouvidos, cegava-me os olhos às belezas da terra em que Cabral aportou no Brasil. Na verdade, admito constrangido, eu tinha pavor de descer do avião e, ainda no aeroporto, ser compelido a vestir um abadá e sair atrás de um caminhão de som, entoando horas a fio aqueles inspiradores versos (digamos assim…).

Em razão desse pânico, lamentavelmente, jamais fui à Bahia.

Mas eis que chega a redenção, eis que já mais maduro e calejado resolvo corrigir um erro de rota imperdoável para qualquer brasileiro que tenha recebido as graças e oportunidades que Deus se dignou a me ofertar. Percebi, envergonhado até o limite máximo da vergonha, que além de não conhecer a Bahia, eu não havia lido Jorge Leal Amado de Faria, o Jorge Amado, baiano de Itabuna que criou um tesouro literário dos mais densos, sólidos e significativos da cultura nacional, traço fundamental da identidade brasileira.

Quanta heresia! Quanta perda de tempo! Um pecado inominável e odioso pelo qual precisarei passar anos a pedir perdão aos santos e orixás. Só espero que sejam todos misericordiosos e que minha penitência não envolva a audição compulsória daquele fenômeno musical (digamos assim…) e muito menos a participação nas suas manifestações festivas (digamos assim…). Aliás, nesse quesito, lembro aos santos e orixás que já não tenho mais idade pra isso… (antigamente eu tinha ressaca, hoje adoeço).

Fato recente é, caríssimos, que ao reparar o equívoco caí perdido de amores pela Bahia. Preciso ir até lá com urgência, preciso andar pelo Pelourinho, descer a Ladeira do Tabuão, ver onde funcionou a Tenda dos Milagres. Quero conhecer Pedro Archanjo, encomendar uma arte a Lídio Corró, admirar o encanto de Rosa de Oxalá, ver Mestre Budião jogar capoeira e dizer umas boas verdades ao racista Nilo Argolo, encarnação maldita do inquisidor italiano Girolamo Savanarola.

Preciso ir ao cais para conhecer o abrigo dos Capitães de Areia, jogar conversa fora com Pedro Bala, João Grande, Querido-de-Deus, Sem Pernas e Pirulito. Deixar Padre José Pedro e Dona Aninha me fazerem uma reza no peito. Gostaria muito de conhecer Felício, filho de Benedita, suposto filho de Gringo ou de Massu, de todo modo afilhado de Ogum por meio de seu cavalo Artur da Guima, recuperado no ato do Batismo pelo bem aplicado tabefe do Padre Gomes.

Quero ver Gabriela, Tereza Batista, Quincas Berro d’Água e Tieta. Ter dois dedos de prosa com Dona Flor, Vadinho e Teodoro em meio às festas, batuques, quitutes e virtudes daquela gente maravilhosamente mestiça que Jorge Amado tão bem soube retratar como gênese coletiva nacional. Uma gente de coração bom, resistência forjada no sofrimento, capaz de gestos de amizade, lealdade e ternura como os de Pedro Archanjo em relação ao “camarado” Lídio Corró.

Sabedor da paixão de Lídio por Rosa de Oxalá, Pedro resistiu até o fim da vida à formosura e às tentações perturbadoras da mulata, cujo amor era a ele destinado, ainda que secretamente, e por ele correspondido, mais secretamente ainda:

“Não me importa o nobre, não me importa o rico, Rosa, muito ao contrário. Fosse o fidalgo da Cachupeleta, fosse o português dos secos e molhados, lhe ornaria a testa com prazer. Mas entenda, Rosa, e não me olhe assim; se Lídio nascesse de minha mãe, nela posto por meu pai, não seria tão meu irmão, não lhe deveria eu tanta decência e lealdade. Não, não pode ser — mesmo que de amor eu morra, mesmo que estoure o coração ou vá de porto em porto buscando errante em cada uma teu sabor noturno e teu perfume, em nenhuma decifrando tua adivinha.

Rosa, nós não somos os bonecos da marmota, temos honra e sentimento. Rosa, nós não somos degenerados em promiscuidade imunda, uns animais ou, pior, uns criminosos. Sim, Rosa, exatamente isso: ´Mestiços degenerados em sórdida, em imunda promiscuidade´, foi o que escreveu um professor de medicina, um doutor, um catedrático. Mas é mentira, Rosa, é calúnia desse sabe-tudo que não sabe nada.

Archanjo rompe o sonho num esforço extremo, abre os olhos, nasce a manhã no mar e os veleiros partem. A sueca é feita de jasmim e exala um perfume suave, matinal. Um menino escuro correrá na neve. Dissolve-se a imagem de Rosa na distância, toda nua. Na gringa te esquecerei, e em Sabina, em Rosenda, em Risoleta: te esquecerei em muitas outras, livre de tormento e aflição. Livre? Esquecerei ou buscarei em desespero? Em campo de jasmim e trigo, teu negrume. Em todas elas, Rosa de Oxalá, tua indecifrável adivinha, teu proibido eterno amor.” (Jorge Amado, em Tenda dos Milagres)

Se o Brasil nasceu na Bahia, somos todos um pouco baianos; e se somos todos um pouco baianos, precisamos todos prestar reverências a Jorge Amado. Eu o farei, em breve, se Deus, os santos e orixás assim o permitirem, e se for preciso levo comigo bons fones de ouvido, conectados via bluetooth ao esplendor da musicalidade baiana pré-micarética (digamos assim…).

Albano Martins
Albano Henriques Martins Júnior é paraense, nascido em Belém em 1971. Advogado cursando especialização em Literatura na PUC/RS (EAD). Guarda de Nossa Senhora, foi membro da Diretoria da Festa de Nazaré entre 2014 e 2023, Coordenador do Círio no biênio 2020/2021, os anos da pandemia. Mantém no Instagram uma página recente sobre livros (ler_e_lembrar).

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