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Há muitos anos, mesmo não sendo um torcedor atento, tenho a sensação de que minha segunda-feira fica estranha quando o RexPA de domingo resulta em 0x0. Talvez isso se deva porque, desde as vésperas do jogo, começamos a vivenciar esse tipo de ansiedade machucada, tíbia, morna, volitiva que faz a gente ser gente junto do inimigo.

Refletindo sobre essas e todas as coisas que partem delas e levam a outras coisas, chego à percepção de que diría-o, também assim, o rei Rodolfo II quando transferiu a capital de seu império Habsburgo para a cidade de Praga, na antiga Boêmia e atual República Tcheca. No ano em que isso ocorreu, em 1583, Rodolfo II teve razões para fazê-lo que não se deveram à geopolítica ou a grandes estratégias polícias e econômicas, mas, centralmente, ao prazer estético: era porque Praga era bela, mais bela que Viena – e, portanto, mais cenográfica e alegórica para ser uma capital – observando-se que estamos falando de uma estética barroca, imensa em Praga e pouca em Viena, pois somente depois desse rei Viena se tornaria um monumento clássico, ou melhor, um monumento.

Rodolfo II, que se intrigava com o carnaval (do seu tempo) diria, certamente, que Praga era cidade tíbia, morna, volitiva e cheia de seus inimigos. De fato, nunca entendi como esses reis de antigamente podiam ter inimigos, mas percebo que não seriam reis se os não tivessem. Reis são reis quando têm inimigos, e não quanto governavam.

Volto a esse tema logo mais (ou em outra crônica) porque preciso referir que, sendo, também tempo de carnaval, não há como deixar de referir que a ideia de carnaval, na Praga de 1583 estava centrada na ideia de revelar a identidade.

Guardem essa ideia e me permitam passar ao carnaval brasileiro do ano de 1940.

Quando começou o carnaval do ano de 1940 uma boa parte da população brasileira acreditava que, entrando Dircinha Batista na maioridade, as coisas iriam se animar muito. Só que não. Dircinha era muito reservada e vestia-se com grande sobriedade. Presente nos palcos desde os 13 anos de idade, aprendera a cultivar um estilo mais maduro, para convencer o Juizado de Menores, todo mês, a deixá-la se apresentar nos palcos, nos cassinos e nas rádios (Epaminondas, 1982).

Mas ela faria 18 anos! E isso ocupou mentes e debates sociais no Brasil – ou, ao menos, em parte dele. Como apareceria nos palcos depois dos 18 anos? Supunha-se, geralmente, que, com menos roupas. E que temas abordaria em suas canções? Recorreria ao velho jogo de duplo-sentidos que fazia do samba o samba? Resgataria o sabor rítmico do velho maxixe – sempre presente nas mentalidades mais lúbricas?

Muito, muitíssimo, esperava-se da maioridade de Dircinha Batistas, e podemos começar, a partir daqui, a fazer uma sociologia do patriarcado brasileiro, senão mesmo do machismo brasileiro, no que tange ao samba e, sobretudo, à figura-imagem da mulher, no samba.

E qual não foi a surpresa geral?

Na rádio Mayrink Veiga se criou o bordão, “Dircinha sempre”! Na rádio Clube, de Pernambuco – a primeira estação criada no Brasil e operante desde 6 de abril de 1919, havia um locutor que berrava a plenos pulmões (penso que desejando amossar tímpanos alheios) : « Dircinha, rainha ! »

E no Cordão do Bola Preta – o grupo de carnaval do Rio de Janeiro, sempre sintonizado com os debates estéticos da cultura brasileira – quando, necessariamente, não fossem metafísicos – e que, naquele ano, festejava seus 22 anos de existência, saiu homenageando Dircinha: “Garota, garota, agora tu és rainha…”

Bom, não posso deixar de tecer uma comparação entre esse bordão e a canção mais tocada 22 anos depois, no carnaval de 1962, ao menos do Rio de Janeiro, que homenageava outro mito nacional da mesma importância que Dircinha: Leila Diniz. Talvez vocês reconheçam a composição “Vou ter um troço”, do genial Jackson do Pandeiro:

“Garota você é uma gostosura
Foi proibida
Pela censura

(…) Sai de perto de mim
Olhar pra você eu não posso
Me segura que eu vou ter um troço”

Imaginações brasileiras carnavalescas à parte, por aqui vamos percebendo mentalidades… E, enquanto isto, retornemos à Dircinha Batista.

E Dircinha surgiu, no carnaval de 1940, vestida com a sobriedade de sempre, com seus modos gentis. Penso que ela sabia muito bem o que se espera dela naquele carnaval de 1940, e tenho certeza de que não foi de maneira nenhuma inocentemente que ela escolheu os dois grandes sucessos que lançou no carnaval desse ano. Primeiramente, o samba de Claudionor Cruz, Wilson Batista e Pedro Caetano denominado “O Senhor do Bonfim te enganou »…

Na minha compreensão, esse título era uma mensagem velada à sociedade brasileira. Pois Dircinha apareceu nos palcos e nos bailes de carnaval, em 1940, aos 18 anos de idade, com suas elegantes reservas e sobriedade de sempre.

Quem foi, afinal, enganado pelo Senhor do Bonfim? A sociedade patriarcal brasileira…

O outro grande sucesso gravado por Dircinha nesse ano foi, é preciso reconhecer, muito superior ao primeiro: a composição que ficou conhecida popularmente como “Lesco-lesco”, de autoria de Wilton Batista e Germano Augusto:

“Eu já não posso mais

a minha vida não é brincadeira, é!

Estou me desmilinguindo,

Igual a sabão na mão da lavadeira!

Se ele ficasse em casa

Ouvia a vizinhança toda falando!

Se é por me ver lá no tanque…

Lesco-lesco… Lesco-lesco…

Me acordando!”

Bom, já disse qual foi o maior sucesso de Dircinha, qual foi a sua melhor gravação e, para terminar, preciso dizer qual é a que eu mais gosto, dentre seus sucessos de 1940: o samba “Se eu tivesse um milhão”. Decididamente.

Se eu tivesse uma máquina do tempo ia querer mostrar o vídeo do Youtube com essa gravação de Dircinha ao imperador Rodolfo II, lá em Praga, porque a ideia de carnaval, na Praga de 1583, estava centrada na ideia de revelar a identidade de todos os fantasiados, inclusive dos que não usavam fantasias.

E termino ouvindo a voz de Dircinha Batista:

“Se eu tivesse um milhão,

ai meu Deus, que bom seria!

Não dormia mais no chão,

Não comia mais feijão

(…) Meu Deus do céu,

se eu tivesse um milhão,

todo mundo me dava razão!”

Fábio de Castro
Fábio Fonseca de Castro é professor da Unversidade Federal do Pará e atua nas áreas da sociologia da cultura e do desenvolvimento local. Como Fábio Horácio-Castro é autor do romance O Réptil Melancólico (Editora Record, 2021), prêmio Sesc de Literatura.

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