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Na crônica anterior eu falei sobre a importância do pão, ligeiramente tostado, no acompanhamento de sopas e caldos reduzidos. E terminei mencionando o antigo boteco Pão-Duro. E por causa disso vou começar a crônica desta semana falando sobre o pão duro. Mas não sobre o alimento, e sim sobre o qualificativo da avareza e sobre a pessoa que primeiro foi por ele qualificada.

Conhecem a origem da expressão “pão duro”? Aos que não conhecem e queiram ouvir, vou contar. Ela surgiu no Rio de Janeiro, nos anos 1920. Havia por lá um mendigo que todo dia perambulava pelo centro da cidade, pedindo esmola e sempre dizia “Aceito qualquer coisa, até pão duro”. Acabou sendo conhecido como “o Pão-Duro”.

Pois bem; um dia ele morreu.

E descobriram que, na verdade, o Pão-Duro era um homem rico, que odiava gastar seu próprio dinheiro e que tinha o vício de pedir esmola pelas ruas. E seu apelido se tornou sinônimo de avareza.

E essa história virou até um espetáculo, de grande sucesso no teatro de revista do Rio de Janeiro (Cavalcanti, 1969). Aliás, por falar em teatro de revista, esse gênero de diversão quase sociológico, fino descritor (e indutor) de modos e costumes brasileiros, deu lastro a vasto imaginário de tipos humanos e a uma enciclopédia de desvirtudes – a maioria delas cômica.

Querem entender o Brasil profundo? Não será na poesia de Fagundes Varella ou de Olavo Billac que o encontrarão. E nem, tampouco, nos compêndios de Ruy Barbosa ou no projeto de Código Civil do douto jurisconsulto Teixeira de Freitas. Muito menos nos debates do Senado Federal ou das Academias de Letras. Sugiro o procurarem, antes, nos lundus e terreiros, na Rádio Nacional, nas ladainhas e modinhas do século XIX, nos causos e nas histórias de visagem, bem como nas conversas de mercado.

Sim, e também no teatro de revista, gênero inaugurado em 1859, no Teatro Ginásio, no Rio de Janeiro, com o espetáculo “As surpresas do Sr. José da Piedade”, de Justiniano de Figueiredo Novaes (Paiva, 1993).

O escritor Arthur Azevedo, autor de muitas revistas, definiu numa delas o gênero. Foi em A Fantasia, estreada em 1896:

“Pimenta sim, muita pimenta

E quatro, ou cinco, ou seis lundus,

Chalaças velhas, bolorentas,

Pernas à mostra e seios nus…”

Muitos seios e pernas à mostra, sim senhor. Junto com muito riso, ironia e falas de duplo sentido. E com personagens cheios de desvirtudes, como o Pão-Duro.

Na verdade, a história do mendigo/milionário Pão-Duro permite uma rápida reflexão sobre a virtude da boa fé e sobre a desvirtude da má fé. Se se pode dizer uma coisa a respeito do Pão-Duro é que ele agiu de má fé: dissimulou sua identidade, mentiu sobre sua necessidade, escondeu sua riqueza, adulterou sua condição.

Foi caviloso, ábtido, ilídimo, astuto, falacioso, mentiroso, ardiloso, avaro, mesquinho. O próprio exemplo da má fé.

E a má fé tem dois elementos fundamentais: o amor de si (algo bem diferente do amor próprio) e a linguagem – ambos presentes no Pão-Duro. O amor de si é o ato de pensar cegamente nos próprios interesses. A linguagem, por sua vez, é, aqui, o instrumento que permite a mentira, a astúcia e o logro – pois tudo isso depende da linguagem para existir.

Como diziam os antigos latinos, homo loquax, homo mendax – homem falador, homem mentiroso…

Mas passemos à boa fé – lembrando que Montaigne (2002) começou assim seus Essais: “Este é um livro de boa-fé, leitor…”. A boa fé é a virtude do desinteresse. A virtude de deixar de ser sujeito de si e de, assim, evitar o amor de si. E isso porque o eu não o é sem seus interesses, e a boa fé precisa ser desinteressada. Por isso mesmo, a boa fé é uma virtude intelectual, uma virtude da autenticidade, senão mesmo da verdade.

O referido Arthur Azevedo, por exemplo, era um sujeito de boa fé. Tal como seu irmão, o igualmente escritor Aluísio Azevedo. Os dois foram mestres em descrever peripécias de gente de má fé, mas foram pessoas de caráter exemplar. E de boníssimo coração.

Talvez um pouco diferente deles, no que tange ao boníssimo coração – e apenas a ele, longe de mim pretender arranhar a memória de uma senhora digna e provecta – tenha sido a irmã de ambos, dona Maria Emília Azevedo. Falo porque sei do que falo, já que dona Emília viveu em Belém e foi avó da avó de minha esposa. Pelo que soube, foi uma senhora que adorava distribuir cascudos e dar beliscões nos netos. E que também trancava-os num armário escuro para que aprendessem a ser crianças virtuosas… Era o armário da virtude… Mas essa história eu conto na próxima crônica.

Fábio de Castro
Fábio Fonseca de Castro é professor da Unversidade Federal do Pará e atua nas áreas da sociologia da cultura e do desenvolvimento local. Como Fábio Horácio-Castro é autor do romance O Réptil Melancólico (Editora Record, 2021), prêmio Sesc de Literatura.

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