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Há um pequeno poema de Maria do Rosário Pedreira, na página 35 do livro Poesia Reunida, que vale por muitas lições de geografia e cartografia. Talvez não ajude tanto os que buscam a aplicação fria e precisa destas ciências, o que não é o meu caso. Meu interesse geográfico é o de registrar o caminho que percorri até aqui, anotando detalhes do relevo e do clima, das águas frescas e das paragens mais áridas, para que dele não me olvide; e o mapa que quero traçar tem o propósito único de facilitar que eu me perca e me encontre ao longo deste mesmo caminho, inúmeras outras vezes, sempre que quiser revisitá-lo.

“Antes de um lugar há o seu nome. E ainda

a viagem até ele, que é um outro lugar

mais descontínuo e inominável.

Lembro-me

do quadriculado verde das colinas,

do sol entretido pelos telhados ao longe,

dos rebanhos empurrados nos carreiros,

de um cão pequeno que se atreveu à estrada.

Íamos ou vínhamos?”

O lugar onde chegarei em breve, no início de agosto, de mãos dadas com parte indissociável de mim, tem um nome, e esse nome realmente estava lá muito antes da chegada. Chama-se Bodas de Prata, a significar que em alguns dias estaremos casados, eu e Paula, há 25 anos, um quarto de século, tempo de uma vida.

Este marco, embora pomposo e solene, motivo de festa, certamente é menor que o caminho que nos trouxe até ele. Muito mais rico que chegar aos 25 anos de casados é ter tido a disposição e a vontade de enfrentar a estrada, e nós a tivemos, sob chuva e sol, frio e calor, na pobreza e na riqueza, na saúde e na doença.

Não vou ao lugar comum, não transformarei a crônica num rocambole de clichês açucarados, frases fáceis e afirmativas desbotadas. Não direi que valeu a pena, isso não é necessário. Se chegamos até aqui juntos, é porque isso nos fez bem mutuamente. Do mesmo modo não ousarei dizer que somos almas gêmeas, que nos conhecemos profundamente um ao outro. Isso não é verdade, a um porque somos ambos metamorfoses ambulantes, como cantava o genial Raul Seixas; a dois porque o que me mantém ao lado de Paula, admirando-a deveras, mais que aquilo que já vi, é exatamente o que dela ainda não conheço, ainda não percebi, ainda não fui capaz de encontrar. Passados tantos anos, sigo tendo por ela imensa curiosidade.

Uma ideia que me surpreenda, um novo desafio dos vários que volta e meia ela resolve enfrentar com coragem, um ângulo inédito do seu rosto contra a luz, talvez um novo corte de cabelo, uma cor nunca utilizada. Um lugar novo para conhecermos, as viagens que ainda não fizemos, coisas bonitas que ainda podemos mostrar paras as crianças, um iceberg, pinguins, dias num veleiro, a aurora boreal.

Depois de vinte e cinco voltas em torno do sol, mais que conhecê-la o que quero é estar ao seu redor, como nos versos de Sophia de Mello Breyner Andresen:

“Não te chamo para te conhecer

Eu quero abrir os braços e sentir-te

Como a vela de um barco sente o vento

Não te chamo para te conhecer

Conheço tudo à força de não ser

Peço-te que venhas e me dês

Um pouco de ti mesmo onde eu habite.

Parecia uma data tão distante; não é mais. Passa a compor as nossas histórias, para nós como destino, para Alana e Artur como origem, ponto cardeal a partir do qual vão trilhar seus próprios rumos. Ambos seguem nos encantando, tal como faziam há 18 e 15 anos atrás. Hoje, ao invés de rirmos dos primeiros passos ou do balbuciar das primeiras palavras, somos agraciados com conquistas pessoais mais maduras, como a escolha da profissão ou a conclusão dos estudos, o nascer das amizades que levarão pela vida, os gestos de independência, os primeiros namoros, as aulas de direção.

Já não os carregamos no colo. Não conseguiríamos, eles não permitiriam e na verdade é prescindível. 25 anos transcorridos, eles é que nos carregam, ainda que não saibam ou não percebam. São a prova viva de tudo de bom que vivemos ao longo de todo esse tempo, são testemunhas de que chegamos juntos num lugar que já tinha nome antes de o alcançarmos, e estiveram conosco na viagem.

Este nome talvez seja felicidade, mas aí lembro do Jobim a dizer que “a felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor, brilha tranquila, depois de leve oscila e cai como uma lágrima de amor.” Prefiro chamá-lo de paz. É como me sinto ao chegar, “como se o vento de um tufão arrancasse os meus pés do chão onde eu já não me enterro mais…”

Fica mais bonito, e ainda serve para fazer um carinho no João Donato, que esta semana nos deixou. Ele também deve estar chegando a um lugar cujo nome o antecede, já estava lá há muitas eras. Espero que o recebam bem.

Albano Martins
Albano Henriques Martins Júnior é paraense, nascido em Belém em 1971. Advogado cursando especialização em Literatura na PUC/RS (EAD). Guarda de Nossa Senhora, foi membro da Diretoria da Festa de Nazaré entre 2014 e 2023, Coordenador do Círio no biênio 2020/2021, os anos da pandemia. Mantém no Instagram uma página recente sobre livros (ler_e_lembrar).

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