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Na semana que passou tropecei em boas histórias, dei de encontro a enredos curiosos, esbarrei em assuntos que poderiam render textos promissores, potencialmente capazes de atrair a atenção dos generosos leitores que honram e prestigiam esta modesta coluna. Foram dias cheios de notícias relevantes, ao longo dos quais testemunhei também um sem número de trivialidades, exatamente como ocorre na vida de cada um de nós, exatamente como nascem as crônicas.

Nem sempre há grandes motivos por trás dos bons relatos. Não raro excelentes textos advém das mais corriqueiras banalidades, seja porque elas próprias tinham algo de especial, seja porque um pequeno detalhe acendeu no cronista a fagulha mágica que pode gerar a desejada combustão, aquele momento sublime de interação entre quem escreve e quem lê.

Machado de Assis, com humor refinado e inigualável elegância de estilo, dizia não ser capaz de afirmar quando surgiu a crônica, mas desconfiava que o gênero era contemporâneo do primeiro encontro de vizinhas: “Essas vizinhas, entre o jantar e a merenda, sentaram-se à porta para debicar os sucessos do dia. Provavelmente começaram a lastimar-se do calor. Uma dizia que não pudera comer ao jantar, outra que tinha a camisa mais ensopada do que as ervas que comera. Passar das ervas às plantações do morador fronteiro, e logo às tropelias amatórias do dito morador, e ao resto, era a coisa mais fácil, natural e possível do mundo. Eis a origem da crônica” (O nascimento da crônica, in As cem melhores crônicas brasileiras, organização de Joaquim Ferreira dos Santos, 1ª ed, Rio de Janeiro: Objetiva, 2007).

Em sendo assim, conto com a compreensão do estimado leitor e da simpática leitora e deixo de lado os mais destacados temas da semana. Não me sinto apto ou inspirado para sobre eles me debruçar, até porque muito já se escreveu recentemente, com superior qualidade e melhor conteúdo, acerca da insólita paisagem política brasileira, das primeiras pesquisas de intenção de voto para as eleições municipais do ano vindouro ou, ainda, da confirmação de Belém como sede da Conferência das Nações Unidas para as Mudanças Climáticas em 2025.

De igual modo, rogo permissão para não cuidar das agruras do futebol paraense, da bela participação da tenista brasileira Beatriz Haddad Maia em Roland Garros e nem do inacreditável resgate das quatro crianças colombianas que sobreviveram na selva, sozinhas por quarenta dias, após o trágico acidente aéreo que ceifou a vida da mãe e dos demais adultos com que viajavam.

Há abundantes matérias sobre tais tópicos na grande imprensa nacional, em especial na rede mundial de computadores, coloridas com várias cores, pinceladas com várias matizes, idealmente isentas e informativas ou repletas de proselitismo político e ideológico. Não preciso meter a minha colher nesse angu para deixá-lo ainda mais caudaloso, talvez azedo, quiçá insosso.

Aqui neste precioso espaço, no dia de hoje, o que eu queria mesmo era falar de uma imensa tristeza, uma angústia excruciante que me maltrata há bastante tempo sem que no horizonte se vislumbre solução, nem efetiva e nem paliativa. O que eu queria mesmo, com todas as letras do alfabeto, todas as palavras do léxico e todo o esforço que me seja possível envidar, era lamentar o abandono atroz a que está submetida a Ilha do Mosqueiro.

Não há nada de novo nesta pauta, dirão alguns, e infelizmente estarão certos. Não há novidade ou ineditismo no descuido da atual administração municipal com a ilha. Muito ao contrário, acumulam-se sobre os escombros do bucólico distrito várias décadas de irresponsabilidade, incompetência, descaso e desamor, resultando num panorama sombrio de devastação e empobrecimento, com todas as mazelas que daí decorrem.

Outrora um paraíso de turismo e lazer, fonte de emprego e renda a assegurar o sustento digno de milhares de famílias, o Mosqueiro hodierno parece um cenário de guerra, com imóveis em ruínas, ruas esburacadas, lixo acumulado, violência urbana desenfreada e absoluta carência de equipamentos urbanos essenciais.

Não bastasse isso tudo, agora já não se pode chegar à Vila pela estrada que costeava a baía a partir da Praça do Farol. A Avenida Beira-Mar está interditada em diversos pontos, trechos inteiros ruíram, terrenos costeiros desabaram, casas desmoronaram e foram literalmente engolidas pelo rio, que agora regurgita na preamar os destroços físicos da estupidez humana.

A cena é profundamente melancólica, inacreditável até. A impressão que se tem é a de que o Armagedom acabou de ocorrer por ali, deixando um rastro de destruição e iniquidade digno da batalha final dos exércitos de todas as nações da terra contra Deus e contra a beleza de tudo que Ele criou.

O pior é que a natureza não vai parar e nem se apiedar de nós. A erosão causada pelo movimento constante das marés, agravada pelas chuvas intensas e pelos fortes ventos que sopram sobre a ilha, vai avançar rapidamente, acentuando o risco de um desastre ainda maior, ameaçando a vida e o patrimônio da população local, dos turistas e de todos aqueles que ainda mantém investimentos na ilha.

Para mim, que tenho do Mosqueiro as mais doces recordações da infância, e que o frequento desde quando o Furo das Marinhas era cruzado por balsas, o atual estado de coisas é como um punhal cravado no peito, um motivo incessante de pranto, uma dor imune a analgésicos. Faz lembrar e parafrasear Nietzsche. De tanto nos habituarmos, enquanto cidadãos e eleitores desta terra sofrida, a olhar para o abismo, parece que agora o abismo resolveu olhar para nós…

Albano Martins
Albano Henriques Martins Júnior é paraense, nascido em Belém em 1971. Advogado cursando especialização em Literatura na PUC/RS (EAD). Guarda de Nossa Senhora, foi membro da Diretoria da Festa de Nazaré entre 2014 e 2023, Coordenador do Círio no biênio 2020/2021, os anos da pandemia. Mantém no Instagram uma página recente sobre livros (ler_e_lembrar).

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