0
 







Das quarenta cadeiras, apenas sete são ocupadas por mulheres na Academia Paraense de Letras, que, ao longo de 126 anos, só admitiu 13 membros femininos. Fundada em 3 de maio de 1900, a APL ainda não foi presidida por uma mulher. Porém, é pioneira entre suas congêneres, pois elegeu e empossou em 1913 a jornalista Guilly Furtado Bandeira, aos 23 anos, a segunda acadêmica do país. Eurídice Natal e Silva, fundadora da Academia de Goiás, em 1904, foi a primeira mulher a se eleger e dirigir uma Academia de Letras no Brasil. Muito antes da Academia Brasileira de Letras, que empossou a primeira mulher em seus quadros, Rachel de Queiroz, em 1977.

Ontem, 23, a APL fez história ao realizar uma roda de conversa com o tema Dignidade humana e cidadania feminina na Amazônia. O encontro inédito reuniu mulheres que ocupam espaços estratégicos de poder e decisão e enfrentam, cotidianamente, os desafios impostos à condição feminina, evidenciando a luta contra a violência e a invisibilidade. 

Protagonizaram o debate a professora doutora Betânia Fidalgo Arroyo, reitora da Universidade da Amazônia; as promotoras de justiça do Ministério Público do Pará Ana Maria Magalhães – presidente da Ampep e primeira mulher a chefiar o Gaeco – e Sabrina Napoleão Kalume, coordenadora do Núcleo de Proteção à Mulher; a advogada Ângela Sales, presidente do Instituto de Direito Eleitoral e Político do Pará, vice-presidente da Academia Paraense de Letras Jurídicas, ex-presidente da OAB-PA e conselheira federal da OAB; a criminalista Bruna Koury, ex-presidente e sócia fundadora do Instituto de Pesquisa Direito e Defesa (IPDD-PA), conselheira federal da OAB e  líder do grupo Mulheres do Brasil em Belém; e Poliana Bentes Gomes, ex-diretora executiva do Simineral e presidente do Conselho da Mulher Empresária da Associação Comercial do Pará. O presidente da Academia, advogado, professor e literato Ivanildo Alves, presidiu a mesa oficial, com mediação da jornalista e advogada Franssinete Florenzano, diretora de Biblioteca da APL. 

Apesar de maioria absoluta da população brasileira e do eleitorado, mulheres são minorias nos lugares de protagonismo, direção e postos políticos. No Brasil, uma mulher ganha, em média, 78% dos rendimentos de um homem. Se for preta ou parda o percentual cai para menos da metade. Ocupamos o 131º lugar em termos de representação de mulheres no parlamento, no universo de 181 países. Considerando o continente americano (e incluindo o Caribe), somente o Haiti está em posição pior. Nosso país é o 5º maior no triste ranking dos feminicídios e o campeão em transfeminicídios.

A violência e a desigualdade de gênero grassam em todos os lugares: no monopólio dos espaços de poder, nas posições elevadas em instituições privadas e públicas. O fato é que em 136 anos de República não se modificaram as enraizadas desigualdades raciais, econômicas e sociais, que são transversais.

A legislação nacional é avançada e uma das melhores do mundo, mas não alcança eficácia. Homens continuam a assediar, desqualificar, oprimir, torturar, estuprar, espancar e assassinar as mulheres, diariamente. As vítimas não conseguem a proteção do Estado. Os agressores ficam à solta e elas, escondidas com medo. As delegacias especializadas não funcionam como deveriam. Não existe plantão permanente nem na capital, assim como peritas e acolhimento adequado. Não há integração entre Polícia Civil, Polícia Militar, Instituto de Perícias, Ministério Público, Defensoria, OAB e Judiciário. No interior, a tragédia é muito maior.

Pela primeira vez na história, vozes femininas de liderança deram o tom na APL, discorreram sobre as angústias diante da naturalização da violência, da sub-representação política, da perpetuação de um modelo que massacra as mulheres, às quais são atribuídas obrigações e subtraídos os direitos.

A literatura não existe no vácuo; ela é um espelho, um registro e, muitas vezes, uma crítica das questões mais urgentes da humanidade. A presença feminina é constante, passando de musas inspiradoras a protagonistas e autoras fundamentais. Desde o Romantismo até o Realismo e a contemporaneidade, a escrita tem sido usada para expor chagas sociais como racismo, escravidão e misoginia. Mesmo quando impedidas de estudar ou publicar, mulheres romperam barreiras, utilizando a literatura para denunciar.  A voz feminina é um fio condutor essencial que, ao longo dos séculos, teceu resistência.

O evento da APL deixou claro que não se pode conceber conhecimento sem partilha, cultural e politicamente engajado. Com tolerância, solidariedade, pluralidade, sororidade, liberdade. São muitos os desafios da cidadania.

Votar é dever e poder para cuidar da vida e do futuro

Anterior

Você pode gostar

Mais de Notícias

Comentários