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Meu amigo Rohan Lima escreveu bela crônica, lembrando o genial argentino Borges e os sonhos. Eu, como todos, sonho muito. Na maioria das vezes, ao acordar, não lembro nada. Se acordo e volto a dormir, chego a pensar em continuar onde parei, mas não. Poucos sonhos lembro com intensidade. Um deles transformei em poema que está em um de meus primeiros livros. Lendo Rohan, me lembrei.

Quase toda minha vida passei ao longo de duzentos, trezentos metros, talvez, distância entre o prédio em que morava e o Palácio do Rádio, onde morou meu avô e funcionou a Rádio Clube do Pará, depois Radio Cidade Morena e adiante, Rádio Jovem Pan Belém. Conheço cada centímetro, acompanhei o começo e fim de casas comerciais. Tenho quase intimidade com seus frequentadores, alguns espantosamente vivos, ainda, por conta da vida com parcos recursos e fartas farras que levam. Eles me servem como referência em vários dos livros que escrevi. A Praça da Republica foi meu playground. Quando asfaltaram e PV, desci com minha bike para experimentar. Carnaval, desfiles escolares, Círio, passeatas, até um cerco ao prédio da frente assisti, no tempo do golpe militar. O cinema Palacio, Correios, Edifício Bern, mercado Versúvio, a barbearia cheia de espelhos, a loja Severino que vendia artigos talvez contrabandeados, Lojas Mundial, Lojas Salevy, Irmãos Esteves que vendiam revistas em quadrinhos, Casa Amazônia, enfim. Tanta explicação para algo que até hoje nunca entendi. Algum especialista deve dizer algo.

O sonho é que há uma chuva forte, dessas de inverno, fim de tarde, começo da noite. Era um sábado, domingo ou feriado. A Presidente Vargas, deserta, à exceção de um grupo que conduz, empurrando, um desses carros que alguns apelidaram “burro sem rabo”, talvez por conta da baixa escolaridade dos condutores, ensejando emprego de tão reduzida capacidade intelectual. Vêm na contramão, ocupando o lado direito de quem está certo no transito, lentamente. Sobre a tábua onde as cargas são colocadas, há um embrulho, de formato comprido, aos poucos dando a impressão de ser um corpo humano, castigado pela chuva, inclemente. Fisgado por aquilo, presto atenção ao grupo e vejo outra pessoa se aproximando, apressada, preocupada. Meu pai. Pede ao grupo que pare. Vai até onde parece estar a cabeça deste corpo envolvido em plástico encharcado e puxa até surgir o rosto. Era eu. Eu? Era eu. Era eu. A água escorre por meu rosto pálido. Era eu. Eu? E acordo, pensativo.

Edyr Augusto Proença
Paraense, escritor, começou a escrever aos 16 anos. Escreveu livros de poesia, teatro, crônicas, contos e romances, estes últimos, lançados nacionalmente pela Editora Boitempo e na França, pela Editions Asphalte. Foto: Ronaldo Rosa

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