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Sempre que passo diante de uma TV e ouço um artista da área de música, me espanto com meu completo desconhecimento. Há alguns anos afastado do rádio, me desobriguei de ouvir os últimos lançamentos. Sorte minha. Nossa música regrediu ao nível zero de qualidade, melodia e letra. Ambas muito pobres. Demais. Agora estava em um BBB e cantava um tal de Ferrugem, para os participantes embevecidos, olhos fechados, emocionados, dançando. Outro dia era o programa The Voice +, feito para cantores veteranos. Repertório dos melhores. Como era boa a música brasileira! Hoje, sinto-me desconectado da realidade musical. Não conheço autores, cantores, músicos e até desenvolvi uma ojeriza pela sanfona, dos sertanojos. As cantoras, voluptuosas, corpos trabalhados, danças sensuais para músicas na base do “atirei o pau no gato”. No Fantástico, domingo passado, a reportagem com uma nova estrela, não lembro o nome, com milhões de page views e outros de seguidores. Horrível.

Abrigo-me em seleção de discos que ponho em um pen drive para ouvir no carro. Acho que sou conservador, não me adaptei aos serviços como Spotify. Ainda compro alguns lançamentos de artistas que gosto, mas a maioria é antiga. Trabalhei a vida inteira em rádio, ouvindo o dia inteiro sucessos, repetidamente. Quando saía, entrava no carro, precisava descongestionar os ouvidos. Acabei me acostumando. Em casa, raras vezes ouço música. Há livros, filmes, jogos de futebol. Ouço no carro.

Hoje estava ouvindo “Chico e Caetano”, show gravado ao vivo em Salvador, poucos dias após Caetano voltar do exílio. O Mpb4 tem participação. O disco saiu todo recortado em termos de repertório. Algumas letras sofreram censura. Chico canta Caetano, Caetano canta Chico. Lembro de ser verão carioca, e ouvir na Rádio Mundial “diz que Deus diz que dá”, em arranjo pop de Caetano. Vocês sabem como música nos faz viajar. Não sei de quem são os direitos, mas a gravadora deveria relançar sem censura e até com o repertório todo, mesmo caso de “Fatal”, de Gal e “Rosa dos Ventos”, de Bethania. Depois entrou “Academia de Danças”, um dos primeiros discos de Egberto Gismonti, que esteve algumas vezes em Belém, com sua banda fenomenal. 

Aí vieram os Libertines, que conheci na Inglaterra e tocava muito em Rock Pan, programa que tinha na Jovem Pan.  Uma banda inglesa, comandada por Peter Doherty, que quase cavou sua própria sepultura em uma sequencia de escândalos motivados por drogas. Agora, alguns anos após ser rejeitado por todos, parece refeito do vício, mais gordo, e ensaia lançar novo trabalho.  Há também Van Der Graaf Generator, banda inglesa de rock progressivo com pouco apelo comercial, curiosamente com boa performance na Itália. Tem uma formação diferente, com saxofone no lugar de guitarras. Gosto principalmente de “The Quiet Zone, The Pleasure Dome”, todo remasterizado ano passado.

Um amigo da internet sugeriu bandas de rock progressivo argentinas. Não gostei. Também sugeriu bandas italianas. Adorei. Quase tudo anos 70, auge do movimento. Tem Rovescio dela Medaglia, Reale accademia de musica, Acqua Fragile, Maxophone, a que mais estou gostando, Quella Vecchia Locanda, Metamorfosi, Picore e Aucan. O King Crimson lançou dois discos com shows gravados nos anos 70. A Premiata Forneria Marconi lançou disco novo, “Ho Sognato Pecore Eletriche”. Neil Young e Crazy Horse lançaram “Burn”.  Ouvi também o “Expresso 2222”, gravado por Gilberto Gil após o exílio, maravilhoso disco onde toca rock, transforma em pop o som do nordeste e dá um show em violão na faixa título.

Sting lançou “The Bridge”, mas não me agradou, mas o negacionista Eric Clapton gravou, na pandemia, um álbum de blues acústico, com arranjos ótimos para alguns clássicos. Ana Cañas foi bem, cantando Belchior. A ótima Tori Amos lançou “Ocean to Ocean”, muito bom. A francesa Zaz lançou “Iza” e o Duran Duran não acertou em “Future Past”. Falei do Gil, Chico, Caetano, gosto de ouvir seus discos antigos. A Barca do Sol, Alceu, Milton e amigos, Toninho Horta por exemplo, adoro. Meus percursos são curtos, no máximo 20 minutos, mas já rola de ouvir o som que gosto. E vocês, preferem uma “pisadinha”?

Edyr Augusto Proença
Paraense, escritor, começou a escrever aos 16 anos. Escreveu livros de poesia, teatro, crônicas, contos e romances, estes últimos, lançados nacionalmente pela Editora Boitempo e na França, pela Editions Asphalte. Foto: Ronaldo Rosa

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