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Na semana retrasada recebi pelo WhatsApp mensagem do Augusto Teixeira divulgando uma tela do Jorge Eiró. O Teixeira, urge registrar, tem feito muito bom uso do seu milhão de amigos e da sua credibilidade, e tem sido um promotor de arte dos mais profícuos, aproximando os artistas plásticos locais de um público consumidor que deles poderia estar bem mais distante.

A obra do Eiró chama-se “Farol das Estrelas”, e causou em mim profunda impressão. Retrata ao centro o grande facho de luz de Salinópolis, no Pará, envolto num clima mágico e repleto de referências, mesclando “A grande onda de Kanagawa” – xilogravura famosa do japonês Katsushika Hokusai, concebida entre 1830 e 1831, imagem artística das mais difundidas do mundo – com “A noite estrelada” do holandês Vincent Van Gogh – grande expoente do pós-impressionismo (ou pré-expressionismo), pintada em 1889, também de gigantesca notoriedade.

A foto abaixo, embora amadora e captada com um telefone celular, dá uma razoável ideia da beleza do trabalho:

Pois bem, com a intermediação do Marchand-que-mais-entende-de-condomínios-em-Belém, responsável pelo contato com o artista e pela apresentação da proposta, acabei adquirindo a tela. Dias depois estive pessoalmente com o Eiró para buscá-la no atelier onde fui atendido com doses homéricas de fidalguia, simpatia e benquerença.

De lá pra cá, volta e meia olho para o quadro; desde então nos espreitamos mutuamente. Ele ainda espera a definição da parede que o vai abrigar, a partir da qual irradiará permanentes avisos aos navegantes que comigo dividem a nau da vida, partilhando mares revoltos, procelas e calmarias, sob céus azulados e noites sempre sublimes, algumas mais escuras, outras mais estreladas.

O caso bem poderia parar por aí, tal como a crônica. Seria o relato comezinho da compra de uma obra de arte, enfeitado por pavulagens de estilo e dados históricos obtidos via internet – ou alguém pensou que eu saberia o nome completo do Mestre Hokusai e a data aproximada da sua xilogravura mais afamada?

Ocorre que há um desdobramento interessante, senão vejamos…

Poucos dias depois de adquirir o quadro precisei ir a Salinas por motivos profissionais. Viagem rápida, ida na terça, volta na quarta, circulando entre o cartório, o fórum e a sede da prefeitura, tudo isso no entorno de quem…? Tudo isso, já respondendo, no entorno do bendito farol de Salinópolis, o tal “Farol das Estrelas” que o Eiró pintou para me enfeitiçar a mente e embaralhar a razão.

Cheguei na cidade depois do crepúsculo; ele já estava lá, resplandecente, vigilante e magnânimo, lançando luz sobre a escuridão da costa atlântica paraense no neblinoso inverno amazônico, orientando os barcos pesqueiros que se aventuram por ali, oriundos de Salinas, Pirabas e adjacências. Na manhã seguinte, enquanto eu submergia no vai-e-vem-entra-e-sai-carimba-e-volta da burocracia nacional, ele seguia impávido, canhão de luz apagado, estrutura em vermelho dissonante, gozando o merecido repouso que a luz do dia reserva aos operários da noite.

Tentei observá-lo de vários ângulos, percorri diferentes ruas, busquei panoramas alternativos a partir de pontos espalhados ao seu redor. Olhei inúmeras vezes, cheguei até a trocar os óculos. Não adiantou, insondável mistério, eu continuava a ver apenas o farol, o grande facho de luz de Salinópolis, muito diferente de todo aquele espetáculo de imagens, luzes, cores, sugestões, mensagens subliminares e vibrações que o Eiró havia visto, testemunhado e pintado para reduzir a termo, provado, comprovado e juramentado, tal qual restará pendurado na minha parede.

“A grande onda de Kanagawa” em verdade não queria mostrar a agitação do mar. Ela fazia parte de uma série de imagens do Monte Fuji, que na xilogravura original aparece discreto e soberano ao fundo, compondo o cenário daquela batalha de barcos contra o iminente naufrágio. A “Noite Estrelada”, por seu turno, representa a visão de Van Gogh a partir da janela de sua cela no Hospício de Saint-Rémy-de-Provence, onde se internou voluntariamente.

Quem olhasse a mesma vista não veria a vila que aparece na parte inferior da pintura. Ela não estava lá, não existia, era uma representação da memória do pintor. Do mesmo modo talvez não visse o cipreste, árvore associada à morte em muitas culturas europeias. Por certo não veria espirais nas estrelas. Só Van Gogh poderia ver isso tudo.

Eu olhei e só vi o óbvio, pobre mortal que sou, advogado, homem comum e sem talento para as artes. Jorge Eiró viu o Monte Fuji, a grande onda e o perigo do naufrágio. Viu a noite estrelada pelo canhão de luz, viu ao longe as embarcações que se guiam por ele, muitas vezes navegando em espirais. Ao invés de ver o cipreste e a morte, Jorge viu o farol e vida. Isso é bom, assegura a todos nós, que gostamos do Jorge, que ele seguirá preservando as próprias orelhas.

O que Jorge viu só os artistas veem. Aliás, os artistas e as crianças. Ambos têm os olhos privilegiados, permissão de Deus para que suas escleras, córneas, íris, retinas e cristalinos sejam muito mais que órgãos sensíveis à luz; para que sejam, isto sim, órgãos que a compreendem. É como contou o Rubem Alves numa pequenina crônica chamada “O olhar adulto”: “Lá vão pelo caminho a mãe e a criança, que vai sendo arrastada pelo braço (…) Vão pelo mesmo caminho, mas não vão pelo mesmo caminho. Blake dizia que a árvore que o tolo vê não é a mesma árvore que o sábio vê. Pois eu digo que o caminho por que anda a mãe não é o mesmo caminho por que anda a criança. Os olhos da criança vão como borboletas, pulando de coisa em coisa, para cima, para baixo, para os lados, é uma casca de cigarra num tronco de árvore, quer parar para pegar, a mãe lhe dá um puxão, a criança continua, logo adiante vê o curiosíssimo espetáculo de dois cachorros num estranho brinquedo, um cavalgando o outro, quer que a mãe também veja, com certeza ela vai achar divertido, mas ela, ao invés de rir, fica brava e dá um puxão mais forte, aí a criança vê uma mosca azul flutuando inexplicavelmente no ar, que coisa mais estranha, que cor mais bonita, tenta pegar a mosca, mas ela foge, seus olhos batem então numa amêndoa no chão e a criança vira jogador de futebol, vai chutando a amêndoa (…), assim vai a criança, à procura dos que moram em todos os caminhos, que divertido é andar, pena que a mãe não saiba andar por não ter os olhos que saibam brincar, ela tem muita pressa, é preciso chegar (…).A mãe caminha com passos resolutos, adultos, de quem sabe o que quer, olhando para frente e para o chão. Olhando para o chão ela procura as pedras no meio do caminho, não por amor a Drummond, mas para não dar topadas, e procura também as poças d’água, não porque tenha se comovido com o lindo desenho de Escher de nome Poça de água, uma poça de água suja na qual se refletem o céu azul e os ramos verdes dos pinheiros, ela procura as poças para não sujar o sapato. A pedra de Drummond e a poça de água suja de Escher os adultos não veem, só as crianças e os artistas…”

Albano Martins
Albano Henriques Martins Júnior é paraense, nascido em Belém em 1971. Advogado cursando especialização em Literatura na PUC/RS (EAD). Guarda de Nossa Senhora, foi membro da Diretoria da Festa de Nazaré entre 2014 e 2023, Coordenador do Círio no biênio 2020/2021, os anos da pandemia. Mantém no Instagram uma página recente sobre livros (ler_e_lembrar).

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