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Hikaru Kurosaki, um dos rostos mais emblemáticos da televisão japonesa dos anos 1980, que deu vida a um personagem que atravessou fronteiras para se transformar em referência da cultura pop em diferentes partes do mundo, teve sua morte confirmada nesta última quinta-feira (2). Aos 64 anos, o ator, dublê e cantor ficou eternizado pelo papel de Jaspion, protagonista da série “O Fantástico Jaspion”, que se tornou um fenômeno de audiência no Brasil e permanece, quatro décadas depois, como uma das obras japonesas mais lembradas pelo público brasileiro.

A notícia foi divulgada por Masaki Sekiguchi, integrante da Associação de Mergulho da Cidade de Motobu, em Okinawa, onde Kurosaki vivia desde que abandonou definitivamente a carreira artística. Em comunicado publicado nas redes sociais, o amigo informou o falecimento do ator e comunicou parceiros da escola de mergulho Mother Earth, fundada por Kurosaki após sua aposentadoria da televisão. A causa da morte não foi divulgada.

Embora tenha interpretado diversos personagens ao longo da carreira, nenhum deles alcançou a dimensão de Jaspion. O herói espacial criado pela Toei tornou-se um dos maiores representantes do gênero tokusatsu, segmento do entretenimento japonês caracterizado pelo uso intensivo de efeitos especiais, figurinos elaborados, criaturas fantásticas, robôs gigantes e histórias que misturam ficção científica, aventura e fantasia. No Brasil, porém, Jaspion ultrapassou os limites de uma simples série televisiva e virou um fenômeno geracional, capaz de influenciar brinquedos, músicas, revistas, quadrinhos, eventos culturais e até a forma como milhões de brasileiros passaram a enxergar a produção audiovisual japonesa.

Hikaru Kurosaki nasceu em 31 de janeiro de 1962, na cidade de Sakai, província de Osaka, com o nome Seiki Kurosaki. Antes de conquistar fama diante das câmeras, iniciou sua trajetória nos bastidores da indústria audiovisual japonesa, área que exigia intenso preparo físico e domínio de técnicas de artes marciais.

Ainda adolescente, ingressou na Japan Action Club (JAC), lendária companhia fundada pelo ator Sonny Chiba e responsável por formar alguns dos maiores especialistas em cenas de ação do entretenimento japonês. A escola tornou-se referência internacional pela preparação de atores e dublês para produções de televisão e cinema, sobretudo nas séries de ação da Toei.

Aos 16 anos, Kurosaki já participava das gravações como suit actor, categoria de profissionais que interpretam monstros, robôs ou heróis completamente cobertos por armaduras e fantasias. O trabalho exigia resistência física, precisão coreográfica e capacidade de executar cenas extremamente perigosas sob pesados figurinos.

Nos anos seguintes, participou de diversas produções importantes da Toei, entre elas a versão japonesa de Spider-Man(1978), adaptação autorizada da Marvel que alterava profundamente a história do personagem original; Battle Fever J(1979), considerado um marco na consolidação da franquia Super Sentai; Denshi Sentai Denziman (1980), além de outras produções voltadas ao público infantojuvenil.

Seu trabalho inicialmente passava despercebido pelo grande público, mas não pelos produtores.

Nos bastidores, Kurosaki chamava atenção pela desenvoltura física, disciplina e facilidade para executar sequências complexas de combate, características fundamentais em um período no qual efeitos digitais praticamente não existiam. Grande parte das explosões, saltos e acrobacias era realizada pelos próprios artistas.

A oportunidade de atuar diante das câmeras surgiu no início dos anos 1980, quando passou a participar da série histórica Hattori Hanzō: Kage no Gundan, na qual interpretou diferentes personagens.

Pouco tempo depois, fez participações em Choudenshi Bioman, uma das produções mais populares da franquia Super Sentai. Seu desempenho despertou a atenção da Toei Company justamente quando o estúdio buscava um novo protagonista para expandir a franquia Metal Hero.

Desde 1982, a Toei havia iniciado um novo ciclo de produções com Uchuu Keiji Gavan, seguido por Sharivan e Shaider. As três séries ficaram conhecidas posteriormente como a trilogia dos Policiais do Espaço e estabeleceram um enorme sucesso comercial no Japão.

Quando Jaspion começou a ser desenvolvido, a expectativa era renovar a fórmula sem abandonar os elementos que haviam conquistado o público. Foi nesse contexto que Kurosaki recebeu o papel que transformaria definitivamente sua carreira.

Lançada em 1985, O Fantástico Jaspion rompeu parcialmente com o modelo das produções anteriores da franquia Metal Hero. Embora mantivesse armaduras futuristas, batalhas contra monstros e efeitos especiais característicos do gênero, a série apostava em uma narrativa mais próxima da fantasia espacial.

Na história, Jaspion era um órfão criado pelo sábio Edin que recebia a missão de impedir que o maligno Satan Goss espalhasse destruição pelo universo. Ao lado da androide Anri e da nave Daileon, o herói enfrentava criaturas gigantescas, exércitos alienígenas e ameaças interplanetárias. A produção combinava aventura, humor, drama e sequências de ação elaboradas para os padrões da televisão da época.

Kurosaki tornou-se o rosto da franquia.

Além das cenas interpretadas sem armadura, realizava boa parte das sequências físicas do personagem, aproveitando sua experiência como dublê. Apenas as tomadas em que Jaspion aparecia completamente vestido com a armadura metálica eram executadas pelo experiente Noriaki Kaneda. Essa distinção raramente era percebida pelos espectadores, mas nos bastidores demonstrava a confiança depositada pela equipe de produção no desempenho físico do ator.

Aproveitando a popularidade alcançada por Jaspion, lançou trabalhos musicais, incluindo o álbum The Legendary Heroediversos singles ligados ao universo da série. Na indústria do entretenimento japonês dos anos 1980, era comum que protagonistas de grandes produções infantis ampliassem sua presença para o mercado fonográfico. Embora sua carreira musical nunca tenha alcançado a mesma projeção de seu trabalho na televisão, ela consolidou a imagem de Kurosaki como um artista multifacetado.

Após o encerramento de Jaspion, participou de filmes voltados ao público familiar, como Setouchi Shonen Yakyudan e Saigo no Rakuen, além de alguns projetos televisivos. Nenhum deles reproduziu o impacto cultural da série que o transformara em celebridade.

Quando Hikaru Kurosaki assumiu o protagonismo de Jaspion, o gênero tokusatsu já possuía uma trajetória de mais de três décadas no Japão. A palavra tokusatsu deriva da expressão japonesa tokushu satsuei, que significa literalmente “filmagem com efeitos especiais”. Originalmente utilizada para designar técnicas cinematográficas, passou a identificar um conjunto de produções live-action caracterizadas pelo uso intensivo de efeitos visuais, miniaturas, explosões práticas, maquiagem, fantasias e criaturas gigantes.

As raízes do gênero remontam ao teatro tradicional japonês, especialmente ao kabuki e ao bunraku, que já exploravam mecanismos de ilusão cênica muito antes do surgimento do cinema. No entanto, foi na década de 1950 que o tokusatsu adquiriu identidade própria.

Em 1954, Godzilla, dirigido por Ishirō Honda com efeitos especiais criados por Eiji Tsuburaya, revolucionou o cinema japonês. O monstro gigante tornou-se símbolo da reconstrução do Japão no pós-guerra e inaugurou o chamado Monster Boom, período em que filmes de criaturas colossais dominaram as telas japonesas. Ao longo dos anos seguintes surgiram personagens como GameraKing Ghidorah e inúmeros outros kaijus. Mas o gênero não permaneceu restrito aos monstros gigantes.

Durante as décadas de 1960 e 1970, a televisão japonesa passou a investir fortemente em heróis mascarados, robôs, alienígenas e guerreiros espaciais. Foi desse movimento que nasceram franquias como UltramanKamen RiderSuper Sentai e, posteriormente, Metal Hero. Cada uma delas ajudou a firmar um modelo narrativo que combinava ação, efeitos especiais e histórias voltadas principalmente ao público infantojuvenil.

Naquele momento, poucos imaginavam que justamente essa produção (apenas a quarta da franquia Metal Hero) encontraria, do outro lado do planeta, o país onde alcançaria sua maior consagração. Essa história, que transformaria Jaspion em um fenômeno cultural muito maior do que no próprio Japão, começaria poucos anos depois, com sua chegada à televisão brasileira.

Se, no Japão, O Fantástico Jaspion foi uma produção de sucesso dentro de uma franquia já consolidada, no Brasil a série alcançou uma dimensão muito maior. O herói interpretado por Hikaru Kurosaki deixou de ser apenas mais um protagonista do gênero Metal Hero para tornar-se praticamente sinônimo de tokusatsu entre milhões de brasileiros. Décadas após sua estreia, continua sendo lembrado como o personagem que abriu as portas para uma geração inteira descobrir o entretenimento japonês.

Kurosaki, no Brasil, permaneceu cultuado por sucessivas gerações de fãs, mesmo tendo abandonado a televisão há mais de trinta anos.

Embora nunca tenha atingido o status quase mítico conquistado em território brasileiro, Jaspion foi um desempenho comercial importante para a Toei Company. Exibida entre 1985 e 1986, a série registrou média oficial de aproximadamente 11,8% de audiência, índice que a colocou entre as produções mais assistidas da franquia Metal Hero durante toda a década de 1980. Os números ficaram acima de séries que também se tornariam extremamente populares fora do Japão, como Jiraiya,JibanMetalderKamen Rider BlackKamen Rider Black RXChangeman e Spielvan.

Ainda assim, o contexto japonês era diferente. Quando Jaspion estreou, o gênero tokusatsu vivia seu auge comercial havia anos. O público já acompanhava regularmente novas temporadas de Super SentaiKamen Rider e Metal Hero, o que fazia com que uma produção bem-sucedida fosse percebida como parte de um mercado consolidado, e não como um fenômeno isolado. O seriado ajudou a manter a força da franquia Metal Hero, mas dividia espaço com dezenas de outras produções semelhantes exibidas simultaneamente.

Com o passar das décadas, esses índices passaram inclusive a ser vistos como excepcionais. Séries recentes do gênero frequentemente registram audiências inferiores a um terço daquelas alcançadas por Jaspion em meados dos anos 1980, reflexo da fragmentação do consumo audiovisual e da concorrência com plataformas digitais.

Apesar da fama internacional, Hikaru Kurosaki jamais prolongou sua carreira artística na mesma intensidade. Após algumas participações em filmes e séries familiares, além de um retorno pontual à televisão no início da década de 1990, decidiu abandonar definitivamente o entretenimento.

Segundo declarou em entrevistas concedidas anos depois, sua saída também foi influenciada por desentendimentos profissionais envolvendo Sonny Chiba, fundador da Japan Action Club e uma das maiores referências do cinema de ação japonês. A ruptura marcou o fim de sua trajetória artística. Enquanto muitos colegas permaneceram atuando na televisão ou migraram para o cinema, Kurosaki optou por reconstruir completamente sua vida.

Mudou-se para Okinawa, uma das regiões mais conhecidas do Japão por suas praias e águas cristalinas, onde trabalhou inicialmente em atividades comerciais até descobrir uma nova profissão. Apaixonado pelo mar, tornou-se instrutor de mergulho. Posteriormente fundou, ao lado da esposa, a escola Mother Earth, empresa dedicada ao turismo subaquático e à formação de mergulhadores.

Durante décadas, viveu praticamente afastado da mídia. Embora continuasse recebendo convites para eventos voltados aos fãs de tokusatsu, sua rotina passou a ser completamente diferente daquela dos anos de televisão.

A vida pessoal de Hikaru Kurosaki também foi profundamente marcada pela relação com a atriz e dublê Yuko Asuka. Os dois se conheceram durante as gravações de Bioman, em 1984, produção na qual ela interpretava a vilã Farrah. O relacionamento iniciado nos bastidores transformou-se em casamento pouco tempo depois. O casal permaneceu unido até dezembro de 2011, quando Yuko morreu. Eles não tiveram filhos.

Nos anos seguintes, Kurosaki permaneceu vivendo sozinho em Okinawa, mantendo contato principalmente com amigos da comunidade de mergulho e participando ocasionalmente de eventos ligados aos fãs de Jaspion. Foi justamente um integrante dessa comunidade, Masaki Sekiguchi, quem comunicou oficialmente sua morte.

Jaspion no Brasil

A história de Jaspion no Brasil começou em 22 de fevereiro de 1988. Naquele dia, a Rede Manchete estreava O Fantástico Jaspion dentro do programa Clube da Criança, apresentado por Angélica. A televisão brasileira atravessava um momento de forte disputa entre emissoras, e produções japonesas ainda eram pouco conhecidas do grande público. A aposta revelou-se um dos maiores acertos da história da emissora.

Em poucas semanas, o personagem tornou-se um fenômeno nacional. O sucesso extrapolava a audiência. Brinquedos desapareciam das prateleiras. Máscaras, espadas, fantasias, chicletes, álbuns de figurinhas, revistas, discos, roupas infantis e inúmeros produtos licenciados passaram a ocupar espaço no cotidiano das crianças brasileiras. Em várias cidades, comerciantes relatavam dificuldade para atender à demanda. A Glasslite, responsável por boa parte dos brinquedos lançados no país, chegou a adaptar moldes existentes de outras linhas para acelerar a produção de itens inspirados no herói, tamanho era o interesse do mercado.

Enquanto isso, editoras brasileiras lançavam revistas em quadrinhos, fotonovelas e publicações que expandiam o universo da série. Mais tarde, Jaspion ganharia novas HQs produzidas no Brasil, culminando décadas depois em projetos oficiais autorizados pela Toei Company.

Nenhum outro personagem japonês alcançou tamanho grau de identificação no imaginário popular brasileiro. Para milhões de pessoas, “Jaspion” deixou de ser apenas o nome de um personagem para tornar-se praticamente sinônimo de herói japonês. Mesmo quem nunca acompanhou outras produções do gênero frequentemente conhece o personagem.

Seu impacto foi tão profundo que compositores Michael Sullivan e Paulo Massadas produziram, em 1989, a canção Jaspion-Changeman, gravada pelo grupo Trem da Alegria, que tinha muito sucesso no universo musical infantil.

O sucesso de Jaspion abriu caminho para uma verdadeira invasão japonesa na televisão brasileira. Por causa dele, vieram ChangemanFlashmanJiraiyaJibanBlack Kamen RiderMaskmanSpielvanCybercopLion Man e muitas outras séries. Embora várias delas também conquistassem públicos expressivos, nenhuma conseguiu repetir exatamente o impacto provocado por Jaspion. O personagem permaneceu como porta de entrada para toda uma geração de espectadores.

A partir daquele momento, o Brasil tornou-se um dos maiores mercados internacionais para produções tokusatsu. Décadas depois, distribuidoras continuariam relançando as séries em DVD, streaming, canais oficiais no YouTube e plataformas digitais.

Mesmo após abandonar completamente a atuação, Hikaru Kurosaki jamais deixou de ser reconhecido como Jaspion. Convenções de cultura pop frequentemente exibiam sua imagem, cosplayers continuaram reproduzindo sua armadura, quadrinhos oficiais deram continuidade à história do personagem.

Projetos cinematográficos chegaram a ser anunciados no Brasil. Em 2020, a escola de samba Experimenta da Ilha da Conceição homenageou o universo tokusatsu durante o Carnaval carioca incluindo representações de Jaspion, Changeman e National Kid, além do ícone da cultura pop ocidental Star Wars.

A série voltou à televisão aberta pela Band e permaneceu disponível em serviços de streaming, alcançando novos públicos. Enquanto isso, colecionadores passaram a disputar figuras de ação, brinquedos originais da Bandai e itens produzidos ainda na década de 1980, muitos deles vendidos atualmente por valores elevados no mercado internacional.

Jaspion ultrapassou a condição de produto televisivo e transformou-se em patrimônio afetivo de diferentes gerações. Um legado maior que uma série. Para Hikaru Kurosaki, bastou um único papel para garantir lugar permanente na memória coletiva de milhões de pessoas.

Sua morte encerra a trajetória de um ator que preferiu trocar os estúdios pelas águas de Okinawa. Quatro décadas depois da estreia de O Fantástico Jaspion, Hikaru Kurosaki permanece como um dos rostos mais reconhecidos da história do tokusatsu e um dos personagens japoneses de maior impacto já vistos na televisão brasileira.

“Vamos, Daileon!”

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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