Publicado em: 15 de maio de 2026
Artista plástico, músico, violonista e compositor, João Fona (João Batista Alves Pereira) nasceu em Santarém, Estado do Pará, em 24 de junho de 1901, e faleceu em São Paulo (SP), em 25 de fevereiro de 1964.
Pertence a uma importante família de artistas santarenos, tais como seus irmãos Raimundo Fona (maestro, compositor, multi-instrumentista, professor de música, que emprestou seu nome para uma Rua em Santarém); Apolônio Fona (fotógrafo); José Fona (instrumentista); Pedro Fona (artesão); além de suas sobrinhas Renée Fona Sizudo (cantora, coralista, compositora e professora de música, residente em São Paulo) e Iris Fona (cantora e compositora, residente no Rio de Janeiro, uma das vencedoras de prêmio no 1º Festival de Música Popular do Baixo-Amazonas, realizado no ano de 1970, em Santarém, com a música “Iemanjá”, em parceria com seu sobrinho João Sílvio Gonçalves).
João Fona – que conheci pessoalmente e tive o privilégio de assisti-lo tocar violão – é um desses raros artistas que se dedicaram a várias artes.
Uma de suas composições musicais é a valsa “Nelsita”, de 1927, incluída no 3º Volume da Obra Musical de Wilson Fonseca (“Valsas, Modinhas, Toadas, Tangos e Canções”), impresso na Gráfica da Imprensa Oficial do Estado do Pará, sob os auspícios do Governo do Estado do Pará, publicado em 1984, com arranjo para Piano, escrito por Wilson Fonseca, em 1979.
Na Introdução desse álbum musical, o próprio Wilson Fonseca assim escreveu:
Como preito de homenagem aos nossos compositores de valsas – ela que “teve sempre uma certa nobreza” e “hoje vive de glórias passadas, embora não totalmente esquecida como música de dança, mas sobretudo é canção sentimental” (Renato Almeida) – valorizo este Álbum com a inclusão de arranjos de algumas produções de autores nossos, que hoje se tornaram ilustres desconhecidos com a perda total de suas obras. Destaquei Oscar de Paula Guimarães (“Ma Petitte Valse”), José Bernardo Borrajo (“Lia Rosa”), Raimundo Fona (“Scena Triste”), João Fona (“Nelsita”), Pedro Santos (“Pérola do Tapajós” – composta em parceria com Wilson Fonseca) e “Antônio Anselmo de Oliveira (“Ely”), talentos do passado agora redivivos com as melodias que retive na memória desde a infância e que, por amostragem, apraz-me, nesta oportunidade, adoçá-las em notas, com roupagem harmônica, para a sua preservação. E com carinho paternal, ponho de permeio criações de meus filhos Vicente Fonseca (“Neide”, “15 de Dezembro” e “9 de Janeiro”) e Conceição Fonseca (“Minha Valsinha”), este numa manifestação precoce (aos 8 anos de idade) de sua faculdade inventiva. No repertório de homenagem deixa de figurar uma peça representativa de José Agostinho da Fonseca – o pioneiro do movimento musical santareno, em termos de composição – porque o Remanescente de sua Obra Musical por mim levantado com amor filial, foi recentemente editado às expensas de seus filhos sobreviventes. [Em 1984, compus a valsa “Lorena”, em homenagem à nossa filha caçula].
A valsa “Nelsita”, de João Fona, constou do repertório do Recital “Violão Paraense”, com arranjo que escrevi para Violão Solo, interpretada pelo violonista paraense Maurício Gomes, apresentado no dia 08 de fevereiro de 2007, na Sala Ettore Bosio do Conservatório Carlos Gomes, em Belém (PA), quando foi executada também a “Cantiga Matinal à Bem-Amada”, de minha autoria.
Recital “Violão Paraense” é destaque na Sala Ettore Bosio
Está de volta a Belém, depois de uma temporada na Europa, o violonista paraense Maurício Gomes. O musicista, que atualmente estuda violão na Escola Superior de Música de Catalunha, com o renomado professor Alex Garrobe, vai se apresentar nesta quinta-feira (08), às 20h, o show ‘Violão Paraense’, na Sala Ettore Bosio, do Conservatório Carlos Gomes. Na apresentação serão executadas peças dos compositores paraenses Tó Teixeira, João Fonna, Thiel Moreira, José Wilson Malheiros, Vicente Fonseca, Nego Nelson e Catiá.
Maurício Gomes é bolsista do Governo do Estado do Pará, através da Fundação Carlos Gomes, e iniciou seus estudos de violão aos 12 anos. Formado em Licenciatura Plena em Educação Artística com habilitação em Música, pela Universidade do Estado do Pará (UEPA) e em Violão pelo Conservatório Carlos Gomes, participou em 1998, do IX Concurso Nacional de Violão Souza Lima em São Paulo, sendo premiado como 1° colocado na categoria juvenil. Em 2002 foi o vencedor do Classical Guitar Concours, realizado em Belém; e no mesmo ano realizou seu primeiro recital solo, dentro da programação do X Seminário de Violão Souza Lima, em São Paulo.
Maurício, que já foi professor de violão no Conservatório Carlos Gomes em Belém, transferiu-se em 2004 para Barcelona (Espanha), onde se apresentou nas cidades de Barcelona e Cambris, e foi o segundo colocado no III Concurso Internacional José Tomás. No Brasil, Maurício Gomes apresentou-se em 2005 no Solar do Jambeiro em Niterói e participou do programa de rádio “Música e Músicos do Brasil”, apresentado por Lauro Gomes, e exibido pela Rádio MEC do Rio de Janeiro. Em dezembro do mesmo ano apresentou-se na cidade de Angra do Heroísmo, em Portugal, onde realizou a estréia mundial da suíte “Violão, por quem choras?”, do compositor carioca Nestor de Hollanda Cavalcantti.
Com a apresentação desta quinta, Maurício marca não só seu retorno à cidade, mas reafirma o respeito e compromisso com a produção musical do Estado – evidenciado na escolha de um repertório formado, exclusivamente, por composições de autores paraenses. O músico mostra que mesmo depois de um período na Europa, não esqueceu de suas raízes, tampouco da qualidade da música instrumental que é produzida na cidade das mangueiras.
Serviço – Recital ‘Violão Paraense’, com Maurício Gomes, acontece nesta quinta-feira (08), às 20h, na Sala Ettore Bosio do Conservatório Carlos Gomes.
(Belém-PA, 07 de fevereiro de 2007 – Site do Grupo Rômulo Maiorana – ORM)
Sobre o artista João Fona é oportuno transcrever as considerações do historiador Wilde Fonseca (Maestro Dororó):
“João Batista Pereira Fona (esse o nome completo de João Fona) nasceu em Santarém no dia 24 de junho de 1901. Foi exímio pintor e hábil violonista. Na prática dessas duas artes, não teve mestres. Fez-se por si mesmo. Um autodidata, portanto. De seu pincel saíram trabalhos de impressionante beleza, mas pouco resta dessas obras e algumas delas, fora de Santarém. Uma das telas mais conhecidas de João Fona é “A Justiça”, que adornava o Salão do Tribunal do Júri da Prefeitura Municipal, hoje pertencente ao acervo da Casa de Cultura Historiador João Santos, de Santarém. [Nota de atualização: atualmente, esse belo quadro encontra-se no “Centro Cultural João Fona”, antigo prédio da Prefeitura Municipal de Santarém]. Havia afrescos de João Fona no referido Salão do Júri, de grande beleza, e que alguns administradores municipais pouco esclarecidos, pretendendo restaurar a Prefeitura, permitiram que esses murais fossem recobertos por sucessivas camadas de tinta. Hoje (1989), sob a orientação do artista Laurimar Leal, essas camadas de tinta vêm sendo cuidadosamente removidas e já se podem vislumbrar, agora, os traços magistrais de João Fona, que merecem, entretanto, de retoques, para restituí-los à sua beleza original. Esses retoques podem contar com as mãos hábeis de Laurimar Leal, que é capaz de restaurar sem adulterar.
João Fona foi o introdutor das famosas cuias pintadas, uma das características das mais acentuadas da cultura popular em Santarém. Refiro-me aqui às cuias com paisagens amazônicas pintadas a óleo. Antes, já haviam as cuias pintadas, mas estas recebiam somente retoques com anilinas, recobrindo os entalhes feitos a canivete reproduzindo folhas, flores e arabescos.
João Fona produzia as suas cuias pintadas de forma artesanal, apenas como forma de sobrevivência. É, porém, na pintura de telas e murais que se reflete a genialidade do artista, que não teve mestres mas que se pode comparar aos clássicos da pintura brasileira.
João Fona faleceu em São Paulo a 25 de fevereiro de 1964. Ele tinha ido àquela cidade visitar familiares seus quando foi acometido de inesperado colapso cardíaco.
Ainda hoje (1996) Pedro Fona (meio irmão de João) e seus filhos, continuam a pintar e a distribuir por esse mundo afora as famosas cuias pintadas de Santarém”.
(Wilde Dias Fonseca, em “Santarém: Momentos Históricos”, 4ª edição, Santarém: Gráfica e Editora Tiagão, 1996, p. 189-190).
Confira mais informações sobre João Fona no livro Meu Baú Mocorongo (p. 159-163, volume 1; e p. 593-596, volume 2), de Wilson Fonseca, impresso por RR Donnelley Moore (SP) e editado pelo Governo do Estado do Pará (Secretaria Especial de Promoção Social, Secretaria Executiva de Cultura e Secretaria Executiva de Educação), parte do Projeto Nossos Autores, coordenado pelo Sistema Estadual de Bibliotecas Escolares (SIEBE), lançado em Santarém (PA), em 17.11.2006.
Nesse livro constam a melodia da música “Cuias de Santarém” e o respectivo texto poético, a obra musical de autoria de Raimundo Fona, irmão de João Fona; e a letra da lavra de Felisbelo Sussuarana, um belo samba composto em 1925 (parte integrante da revista teatral “Eu Vou Telegrafar”), para o qual Wilson Fonseca escreveu, em 1961, um arranjo para Coro a 4 vozes mistas e Piano, publicado no 1º Volume da Obra Musical de Wilson Fonseca (Coral), em 1977, e gravado no CD “Coral FIT 2”, em 2008, pelo Coral das Faculdades Integradas do Tapajós, sob a regência da Maestrina Ádrea Taiana Lopes da Fonseca e acompanhamento, ao piano digital, de José Agostinho da Fonseca Neto e Ruimerson Vilasbôas, além de Luciano Gama Queiroz, na percussão (CD produzido por Josué Canto – Quarteto Show & Cia. – Santarém-PA). A peça também constou da gravação do CD “Festa de Boi no Céu”, em 1995, pelo “Grupo Urubu do Ver-o-Peso” (Maria Lídia Mendonça e Alcyr Guimarães), no “Pot-Pourri de Santarém”, com as músicas Lenda da Mandioca (Wilmar Fonseca), Pratos Regionais (José Agostinho da Fonseca, Wilson Fonseca e Felisbelo Sussuarana), Cuias de Santarém (Raimundo Fona e Felisbelo Sussuarana) e Feira Santarena (Wilson Fonseca e Emir Bemerguy).
João Fona é Patrono da Cadeira nº 17 da Academia de Letras e Artes de Santarém (ALAS).
As fontes de pesquisas, quanto à Amazônia, geralmente são parcas.
Não obstante, existem artistas plásticos de real valor em nossa região, como é o caso de JOÃO FONA (pintor, compositor, violonista etc.).
Ele foi o primeiro professor, em Santarém, do festejado e saudoso violonista, de conceito internacional, Sebastião Tapajós.
O principal Museu da cidade de Santarém leva o seu nome (Centro Cultural “João Fona”).
O Centro Cultural João Fona – terceiro prédio mais antigo do Município – é uma das edificações mais bonitas e imponentes de Santarém. E, sem dúvida, parada obrigatória para conhecer a história da cidade e da região. Em suas salas estão guardadas relíquias do passado que narram grandes acontecimentos. É uma viagem no tempo!
A construção do edifício, em estilo colonial, iniciou em 1853 e foi concluída em 1868, sendo inaugurado em 1869. O responsável pelas obras foi o engenheiro Marcos Pereira que aproveitou a paisagem amazônica, erguendo um casarão na beira da praia, às margens do lindo rio Tapajós que banha a cidade, de onde se pode admirar o maravilhoso encontro das águas com rio Amazonas.
O lugar já abrigou o Fórum de Justiça, Câmara Municipal, Cadeia Pública, Intendência Municipal e Prefeitura. Cada uma dessas atividades de alguma maneira deixou um legado: ainda é possível encontrar na sala ocupada para as reuniões da Academia de Letras e Artes de Santarém, as grades que aprisionavam os condenados da antiga Vila. E, também, a suntuosa Sala do Tribunal do Júri, decorada com afrescos do icônico artista plástico João Fona, que empresta seu nome ao Centro Cultural, há 35 anos, quando foi sancionada a Lei Municipal nº 13.791, de 27 de agosto de 1991, que criou o espaço, na administração do Prefeito Ronan Liberal.
No acervo existem peças raras da cerâmica tapajônica. Itens descobertos em escavações que retratam o cotidiano das populações que viveram na região antes da chegada da colonização portuguesa. São peças de artesanato indígena, imagens esculpidas em pedra e argila, armas de caça, entre outras, cuja arqueologia remonta há aproximadamente 2.000 anos.
No hall, o visitante é recepcionado pela galeria de Intendentes e Prefeitos, quadros pintados a óleo que retratam os mandatários municipais, fotos reproduzidas no livro Meu Baú Mocorongo (Wilson Fonseca). Uma sala, com mobília da época do império é preservada como Gabinete Protocolar. Entre as curiosidades do Museu, a Bandeira de Santarém, de Portugal (cidade homônima), e um quadro de Dom Pedro II.
O Centro Cultural João Fona tem exposições permanentes e temporárias, com destaque à originalidade da cultura tapajônica. Ainda há uma Biblioteca, uma Sala com quadros do artista plástico santareno Laurimar Leal e outros ambientes culturais e históricos.
O patrono do Centro Cultural João Fona, renomado pintor e autodidata nessa arte, além de outros talentos, criou a sua tela mais conhecida, a “A Justiça”, que decora a histórica Sala do Tribunal do Júri.
Entre seus trabalhos, destacavam-se as famosas cuias pintadas, popularmente conhecidas na região e consideradas patrimônio cultural na “Pérola do Tapajós”.
Hoje, 15 de maio de 2026, ocorre a cerimônia de reabertura do Centro Cultural João Fona, em Santarém (PA).
“Às margens onde o azul do Tapajós abraça o barro do Amazonas, o imponente Centro Cultural João Fona – o ‘Velho Casarão’ – prepara-se para descortinar novamente suas janelas ao público. Sob a regência técnica e artística de Renato Sussuarana, renomado restaurador e atual presidente da Academia de Letras e Artes de Santarém (ALAS), o edifício concluiu uma metamorfose necessária. A revitalização, que se debruçou sobre o secular piso de madeira do século XIX, além de telhados e alvenarias, devolveu à estrutura o vigor da arquitetura colonial brasileira, reafirmando-a como o santuário da memória tapajônica.
Janelas para a ‘primeira aquarela’ – Para além de guardar a cerâmica milenar da cultura Tapajó, o Cento Cultural João Fona, conhecido também como ‘Museu de Santarém’ oferece o quadro mais belo da Amazônia: o encontro das águas emoldurado por suas janelas altas. ‘Aquela vista é a pintura primordial, a primeira aquarela da nossa região, pincelada pela mão divina’, descreve o poeta-restaurador com o lirismo que lhe é nato”.
(Trechos do artigo escrito por Ednaldo Rodrigues sobre “Renato Sussuarana – O Poeta que restaura a história e devolve o brilho ao berço da cultura tapajônica”, ambos queridos amigos, parceiros e confrades na Academia de Letras e Artes de Santarém)
Confira no Facebook:
https://www.facebook.com/ednaldo.rodrigues.71/posts/pfbid0uJrrWzPpZxzGigH55ZojKb3E5BvZeBSgf29B83g886FQ1tyt8rWUkYZNGZdaoN1vl
Ouça a música “Nelsita” (valsa), de autoria de João Fona, com arranjo que escrevi para Violão solo (execução simulada por computador):
https://youtu.be/Mt8Bbp8kM-s




Legendas das fotos:
Principal- A Justiça (quadro – João Fona)
Centro Cultural João Fona
João Fona (violão), Machadinho (cantor) e Sebastião Sirotheau (contrabaixo)
JOÃO FONA (Vicente Malheiros da Fonseca)
Sala do Tribunal do Júri – Santarém, o juiz Climério Mendonça e o promotor Silvério Sirotheau Corrêa. Década de 1930. Foto de Apolônio Fona (irmão de João Fona).










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