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Geraldinho Carneiro é um dos meus heróis. Já havia feito ótimas parcerias com Egberto Gismonti, outro herói, quando foi incluído na turma da Poesia Marginal, pela qual fui apaixonado na década de 70. Por causa dos versos dessa turma, escrevi meus primeiros livros. Neste “Folias de Aprendiz”, o acadêmico da ABL publica memórias e sua vida foi realmente palpitante. Seu pai foi chefe de gabinete de Juscelino Kubitschek, o que colocava em sua casa figuras proeminentes de nossa história. Como gostava de um bom whisky, entre outras façanhas, conseguiu um acordo com Jânio Quadros, que andava irascível, depois de algumas garrafas de Logan. Há muitas outras peripécias. Com o irmão Nando, excelente violonista, da banda de Gismonti e outros ótimos e jovens músicos, formou a Barca do Sol, de quem tenho todos os discos, incluindo Olivia Byngton cantando a inesquecível “Lady Jane”. Não sabia disso, mas estudou música e produziu discos de Egberto e A Barca. Por afinidades, digamos “escocesas”, fez amizade com Vinícius de Morais, a quem visitava logo cedo, enquanto o poeta estava na banheira, lendo jornais e tomando a primeira do dia. Outro que tal foi Tom Jobim, cuja casa também frequentou, bem como os points do Maestro Soberano. Há causos maravilhosos como uma tarde em que começaram a beber e de madrugada, já cansados e saindo, Tom disse a Geraldo que estava cansado de whisky. Animado, este pensou que realmente era hora de voltar para casa. Não. Tom chamou o garçom e pediu dois copos de gin. Quando vieram, recusou. Eram pequenos. Trouxeram dois “vasos” cheios da bebida. Os gorilas vieram buscar o amigo. Tom e vários outros foram chamados. Havia um Festival Internacional da Canção, bancado pela Globo, que convidou famosos brasileiros a participar. Em segredo, a ideia de, no dia da primeira eliminatória, todos se retirarem em protesto contra a ditadura. Não deu em nada. São capítulos em mosaico, onde conta momentos de sua vida. Outro grande amigo foi João Ubaldo, com quem escreveu uma ópera. E para finalizar, o irmão Nando o levou, puxado, a um show de Astor Piazzolla. Paixão total. Viraram amigos. Compuseram músicas que nunca foram ouvidas. Queriam escrever um musical sobre Evita. No último momento, stop. A família do gênio do bandoneon foi ameaçada por radicais. Para compor, Geraldo foi morar na Itália, com Astor. De lá passou pela França e Inglaterra, retornando ao acabar o dinheiro. O livro para por aí, ensejando um segundo volume que deve alcançar sua eleição à Academia Brasileira de Letras. O primeiro cabeludo acadêmico.

Recomendo a leitura.

Edyr Augusto Proença
Paraense, escritor, começou a escrever aos 16 anos. Escreveu livros de poesia, teatro, crônicas, contos e romances, estes últimos, lançados nacionalmente pela Editora Boitempo e na França, pela Editions Asphalte. Foto: Ronaldo Rosa

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