Há alguns anos escrevo sobre o dia das mulheres.
Já contei sobre os fatos históricos que levaram a esse dia. Já problematizei as flores e chocolates, já escrevi sobre violências, sobre desigualdades, mas hoje vou falar de trabalho.
É comum no mês de março que mulheres que trabalhem com temas sobre feminismos e relações de gênero sejam convidadas à ações, rodas de conversa, palestras e afins. O curioso é que muitos desses convites, realizados por empresas privadas, são sem pagamento. E aí está a grande contradição, chamam as mulheres para falar de sobrecarga, de má remuneração salarial, machismo nas empresas, reproduzindo em ato uma exploração sexista.
É comum que se espere de mulheres postura dócil, doação, “amor a causa”, utilizando dessas construções culturais para acionar nas mulheres seu trabalho não remunerado. Sabemos que os movimentos feministas têm a ética da solidariedade, a responsabilidade da construção coletiva e a necessidade de adentrar espaços, mas enquanto não acionarmos as empresas para assumirem suas responsabilidades com as mulheres, continuaremos sustentando a luta sozinhas, sobrecarregadas. Continuaremos maternando, cuidando e sacrificando a nós mesmas e desresponsabilizando um sistema que lucra com nossa exploração.
Só para que vocês tenham ideia: A Oxfam (2020) divulgou que mulheres e meninas dedicam 12,5 bilhões de horas ao trabalho do cuidado não remunerado e, segundo a Forbes (2023), mulheres teriam contribuído com US$ 10,9 trilhões para a economia global em 2020 se recebessem um salário mínimo pelas tarefas domésticas que realizam. Sabem o que isso significa? Que é naturalizado que devemos doar cuidados.
Muitos dos lugares que me propuseram palestras gratuitas, alegavam ainda não ter verba para políticas de gênero, propondo “parceria”, que seria um agradecimento público nas redes sociais. Muitos tinham filiais em vários locais e eu faria palestra para várias regiões. Nenhum me perguntou se tenho filhos, poucos perguntaram se tenho tempo disponível. Nenhum se questionou sobre o trabalho voluntário e o convite a doação. Nem aqueles organizados por mulheres pensou numa vaquinha coletiva para custear, com valor simbólico que fosse (e eu consigo entender isso, no campo das reflexões teóricas feministas também). Aliás, ouvi que outras mulheres aceitaram, eram simpáticas, o que parecia me colocar em lugar diferenciado, acionando as fantasias e paranoias femininas. Sou eu a mulher má? Sou eu a mulher “que se acha”?
Por vezes, cheguei a me questionar se estava sendo arrogante, pois no início da minha carreira eu ia a todo e qualquer lugar que me chamavam. Fiquei me lembrando do como foi um processo psíquico aprender a dizer não. Como estar em todos os lugares, me tira de outros lugares, como meu trabalho oficial que paga as minhas contas e a relação com meus filhos, mãe, esposo, amigas.
Mulheres não há nada de errado em valorizar seu trabalho, ser remunerada por ele (Já basta o tantão de trabalho não remunerado que não conseguimos nos desfazer por necessidades e estrutura social). O conhecimento acumulado é fruto de muito trabalho e investimento e precisa ser reconhecido. Tampouco há algo errado em ser assertiva com seus valores e convicções. Todos os lugares que eu neguei, expliquei gentilmente minha posição política, tentando causar alguma reflexão. Compartilho aqui com mesmo intuito: politizar a microfísica das relações de poder, esmiuçar o cotidiano, o que fica no campo do “privado”. E afirmo, sair da posição de boazinha é um processo; sustentar um lugar, com riscos de saber que facilmente você será julgada e interpretada pelas lentes patriarcais não é nada fácil, mas respeitar os limites do seu corpo, observar as armadilhas patriarcais e agir com ética não tem preço.
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