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“Apaixonados do mundo todo, uni-vos”

                                  José Celso Martinez

0 renomado neurocientista Miguel Nicolelis, aquele que na Copa, no Brasil, fez um tetraplégico chutar uma bola de futebol, chegou da Finlândia, 1º lugar no ranking mundial da educação, e disse ter ficado impressionado com a decisão de retirarem computadores e celulares das salas de aula do ensino fundamental, inclusive as calculadoras.

Explicou que segundo os cientistas da educação finlandeses, as pesquisas demonstraram que as crianças estão perdendo a capacidade de discernimento crítico das questões mais complexas, levando para a vida adulta limitações cognitivas de percepção, elaboração e criatividade que rebaixam a capacidade de compreensão integral de problemas e de construir soluções inovadoras humanizadas.

Tais pesquisas demonstraram ainda que este processo de “facilitação” do pensamento precoce, antes da formação neurológica completa, leva a uma compressão da diversidade intelectual, tendendo à homogeneização de padrões de pensamento, a medida em que sendo o sistema informacional apenas binário, 0 ou 1, ainda que sob incontáveis combinações possíveis, estabelece um único caminho, o das combinações, sendo que a natureza neurológica permite outros processos de síntese, por ser orgânica.

Nicolelis conclui que estamos formando a pleno vapor “zumbis digitais biológicos”, se referindo aos seres humanos. E completa, dizendo ainda que, “esta compressão intelectual é consolidada com um determinado sistema de recompensas aos ‘comportamentos adequados’”. 

Se referindo, entendo, à formação dirigida de paradigmas existenciais baseadas no mero atendimento das necessidades fisiológicas e de segurança, tal como sintetizado pelo psicólogo americano Abraham Maslow, na famosa Pirâmide de Maslow em que indica o resultado de sua pesquisa comportamental. Mais da metade da humanidade, se reduzida a indivíduos, motiva-se em buscar saciar necessidades fisiológicas(comer, prazer etc) e de segurança, sendo capaz de sacrifícios existenciais inimagináveis, repetidas vezes, mesmo que não às alcance, de fato.

Acontece que este processo ultratécnico de redução da engenhosidade intelectual, sobreposto a uma história de formação sociopolítica de matriz econômica colonial, superlativa o que grandes intelectuais brasileiros já registraram como a percepção da acomodação a um mundo dividido entre “Casa Grande e Senzala”, como ensinou Gilberto Freire. Como o instinto de sobrevivência de nossa “Elite Mameluca”, como explicou Darcy Ribeiro. Como o “Complexo de Vira Lata”, como subjugação do colonizado segundo Roberto da Matta.

Relendo os resultados de pesquisa que realizamos com feirantes e frequentadores das feiras de Belém, em 2001, quando coordenava o inovador e disruptivo Banco do Povo de Belém, no primeiro mandato do hoje prefeito Edmilson Rodrigues, me dou conta de dados culturais que ajuda a entender comportamentos nesta véspera da COP30.

Quando perguntado aos feirantes quem era seu principal concorrente, todos indicavam o feirante do lado, o que comercializava o mesmo produto. Nenhum indicou o supermercado ou o shopping.

Quando perguntado aos feirantes como poderiam superar suas dificuldades. Todos se referiram ao prefeito e ao governador, nenhum levantou iniciativas que eles pudessem executar com o que dispunham a partir de seu próprio trabalho.

Quando perguntado aos feirantes, se estariam prontos para uma nova organização das feiras e novas formas de comercializar, cerca de 40% dizia, “não precisa, estou aqui assim há 30 anos”.

Hoje, diante de uma oportunidade muito especial, neste efervescente processo de articulação e preparação para a COP30, mesmo entre tomadores de decisão, percebemos comportamentos muito próximo dos que encontrei em 2001 entre os feirantes, a exclusão dos “daqui”, a crença que o melhor vem sempre de fora, e a contraditória convicção que já sabe o que precisa.

Onde há aprendizado, não há derrota. O problema é quando o derrotado absorve tal condição como sua própria existência, subjugando-se.

Na pesquisa que realizamos em 2001, uma odisseia no espaço, foi significativa e instigante a resposta dos frequentadores. Indicando a força da identidade cultural com as feiras, o sentimento de pertença ao poder negociar direto com o dono. E, muito forte, o afeto. Lembro de um Sr que ao ser perguntado por quê vinha ainda na feira quando o supermercado oferecia mais conforto, disse, “Meu filho, só aqui me chamam de meu amor”.

PS: E assim homenageio o gênio do teatro da verdade, José Celso Martinez. Sem aprendizado e paixão, não há solução.

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