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CARNAVAL DE ONTEM, DE HOJE E DE SEMPRE

Na edição nº 104, de janeiro de 2004, página 6, Ano XII, do jornal Uruá-Tapera – Gazeta do Oeste (Belém-PA), foi publicado um artigo que escrevi sob o título “ISOCA E LAMARTINE BABO: OUTROS CARNAVAIS“.

No mesmo ano, o jornal “O Liberal”, caderno Cartaz, página 3, edição de 24 de março de 2004, publicou o artigo, de minha lavra, intitulado de “ISOCA: O TEU CABELO NÃO NEGA“.

Em tempos de Carnaval, é oportuno relembrar alguns tópicos abordados nesses artigos e outras reminiscências sobre música e o período momesco.

Comemorava-se em 2004 o centenário de nascimento de Lamartine de Azevedo Babo (16.01.1904 – 16.06.1963), esse notável compositor carioca, autor de memoráveis marchinhas carnavalescas, cantadas até hoje (O Teu Cabelo Não Nega e Linda Morena), que tornaram o seu nome mundialmente conhecido como o Rei do Carnaval. Em suas letras, predominam o humor refinado e a irreverência. Como poucos, Lamartine alcançou os dois extremos da alma brasileira: a gozação e o sentimento. Fez também a maioria dos hinos dos grandes times de futebol (Flamengo, Fluminense, Vasco, Botafogo), inclusive do América, seu clube de coração.

Ressaltei, na ocasião, interessantes coincidências entre Lalá (Lamartine Babo) e Isoca (Wilson Fonseca).

Embora o santareno Isoca tenha nascido 8 anos depois, os dois compositores viveram a chamada “época de ouro” da música brasileira (década de 1930 do século XX), quando ocorrem diversos fatos importantes na história nacional. A indústria do disco ganha impulso, que incentiva nossos compositores. O rádio vive prestígio idêntico à televisão dos dias atuais. O cinema, que era mudo, moderniza-se com a cena falada, e surgem as primeiras produções nacionais. O teatro de revista chega ao seu ponto de maior projeção, com a abordagem de repertórios brasileiríssimos, inclusive nos temas musicais, onde se destacam o maxixe, o samba e a marchinha. Era época em que os compositores se esmeravam em suas produções, não apenas em quantidade, mas, especialmente, em qualidade.

Viveram, nesse período, compositores do quilate de Ary Barroso, Braguinha e Noel Rosa. E também Lamartine Babo, no Rio de Janeiro, e Wilson Fonseca (Isoca), em Santarém.

Isoca notabilizou-se, sobretudo, como compositor de canções que descrevem as belezas naturais da “Pérola do Tapajós” (Canção de Minha Saudade e Terra Querida), do inesquecível bolero Um Poema de Amor, do vibrante Hino de Santarém, dos maravilhosos dobrados para banda de música, das extraordinárias músicas sacras ou das fenomenais peças para conjunto de câmara e orquestrais (na área mais erudita).

Pouca gente sabe que Isoca, autor de mais de 1.600 composições, nos mais variados gêneros, compôs muita música de Carnaval. Posso dizer, sem receio de errar, que Wilson Fonseca é mais versátil do que Lamartine Babo, autor de cerca de 400 composições. Isoca compôs valsas, canções, modinhas, tangos, toadas, marchas (inclusive fúnebres e para procissões), dobrados, hinos, foxes, frevos, choros, sambas, boleros, missas e outras peças sacras, peças para coral, para teatro de revista, para Pastorinhas, para banda de música, para conjuntos de câmara, noturnos, sonatina, lundu, sairé, acalanto, poema sinfônico, abertura sinfônica, peças orquestrais e ópera.

Nesse rol tão eclético ainda poderiam ser incluídos inúmeros arranjos para músicas de baile, da lavra de Isoca, para o famoso Euterpe-Jazz, que animava as festas na sociedade santarena, notadamente no Centro Recreativo, clube para o qual fez um hino, com letra de Felisbelo Sussuarana (1936).

Além de dirigir a orquestra, Isoca atuava como pianista e saxofonista, ao lado de seu pai e seus irmãos (Maria Annita, no piano; e Wilde, o tio Dororó, no violino).

Ao mesmo tempo, ele integrava o Quarteto que funcionava nos Cinemas Vitória e Olímpia, na época da cena muda, até o ano de 1936. Foi nesse período que surgiu a sua 1ª composição, a valsa Beatrice (1931), para encaixar na cena do filme “O Beijo“, com a atriz Greta Garbo.

A valsa e as partituras de outras 20 músicas suas foram publicadas, a partir de 1934, no Jornal das Moças, do Rio de Janeiro, além de divulgadas pela Rádio Mairynk Veiga, da antiga Capital da República.

Curiosamente, Lamartine Babo, autor da bela valsa Eu sonhei que tu estavas tão linda (1941), tinha um programa, nessa Rádio, denominado “O Clube da Meia-Noite”.

Ambos gostavam de Ernesto Nazareth, o genial compositor dos gostosos “tangos brasileiros” (Odeon, Brejeiro, Apanhei-te Cavaquinho), que também tocava piano no cinema mudo, e do qual Isoca sofreu influência em seus choros-estudos Arpejando, Temeroso, Não me apresse, Improvisando, Travesso, Ternura, Manão no Sax, Remembrança e Cinqüentão.

Foi justamente na década de 1930, com projeção na década seguinte, que Isoca compôs diversas músicas de Carnaval.

Mais do que o samba-enredo, a marchinha era a trilha sonora dos bons tempos da folia, desde Chiquinha Gonzaga, que escreveu, para o cordão Rosa de Ouro em 1899, o célebre Ô Abre Alas, a primeira música a ser feita especialmente para o Carnaval. O compasso binário, com melodias simples e alegres, que logo pegavam e agradavam, e letras com boa dose de picardia, as marchinhas guardam um espírito tipicamente brasileiro. Uma verdadeira crônica dos “anos dourados”.

Quem não se lembra de jóias como Cidade Maravilhosa, Aurora, Pierrot Apaixonado, Touradas em Madri, Chiquita Bacana, Taí, Yes Nós Temos Banana, As Pastorinhas, A Jardineira, Sassaricando, Linda Morena, Alá-Lá-Ô, Mamãe Eu Quero, Me Dá um Dinheiro Aí, Cabeleira do Zezé, Balancê e O Teu Cabelo Não Nega, um autêntico hino do Carnaval brasileiro?

Pois bem. No catálogo da Obra Musical de Wilson Fonseca, o nosso Isoca, verifica-se que o compositor santareno produziu quase 30 músicas de Carnaval, pelo menos no período de 1933 a 1949, sem contar os sambas-enredo, escritos na década de 1970.

A título de exemplos, cito: Entra no samba (1933, letra de Felisbelo Sussuarana); Juro! É só você (1934, marcha, letra de WF); Tentações (1936, marcha, letra de Felisbelo Sussuarana); Coração em leilão (1937, marcha, letra de WF); Alegria (1938, marcha, letra de WF); Ninguém resiste (1939, samba, letra de WF); Só no Carnaval (1939, marcha, letra de WF); Só quero ver o jeito dela (1939, samba, letra de WF); Você vai sofrer como eu! (1939, samba, letra de WF); Linda boneca (1940, marcha, letra de WF); Você me deixou sozinho (1940, marcha, letra de WF); Coisas do amor (Dinorá) (1941, marcha, letra de WF); Pernambucana (1941, marcha, letra de WF); Quero amar (1942, marcha, letra de WF); Chegou a Hora (1943, marcha, letra de WF); Promessas de mulher (1943, samba, letra de WF); Quebra, nêga! (1943, maxixe, letra de WF); Quem foi? (1943, marcha, letra de WF); Dezesseis de Agosto (1945, marcha – Isoca casou-se com Rosilda, em 16.8.1941); Pedido a São João (1945, marcha, letra de WF); Eu quero um casamento (1946, marcha, letra de WF); Muito obrigado (1946, marcha, letra de autor ignorado); Não sou de Pernambuco (1946, frevo); Euterpe-Jazz (1947, marcha – homenagem ao conjunto musical de baile, em que tocava); Boa noite (1949, marcha, letra de WF); Japonesa do Brasil (1949, marcha, letra de WF); Que não falte o Carnaval (1949, samba, letra de WF); e “Seu” Chiquinho (1949, marcha, letra de Alfredo Fernandes). Observe-se que quase todas têm letras do próprio compositor.

Por aí se vê que Wilson Fonseca, ao contrário do que ele próprio costumava dizer, era, sim, poeta inspirado, como revelam dezenas de poemas de sua autoria, embora Felisberto Sussuarana afirme que Isoca “não se dedicou à poesia senão para fazer cantar sua música” (cf. “O Mergulho de Felisbelo Sussuarana no Claro-Escuro do Homem e da Obra” – ensaio biográfico, Gráfica e Editora Tiagão, sob os auspícios da Prefeitura Municipal de Santarém, 1991, p. 139).

No ano de 1949 Wilson Fonseca concorreu, em Belém, com a marcha Japonesa do Brasil, num concurso público de músicas carnavalescas, de âmbito estadual. A composição de Isoca foi classificada entre as três primeiras músicas premiadas no certame realizado na capital paraense.

Como eu disse no encarte do excelente CD “Sinfonia Amazônica” (volume 2), gravado pela extraordinária Orquestra Jovem “Wilson Fonseca”, sob a regência de meu irmão Agostinho Neto, existem, na obra do Maestro, eclético e prolífico, diversas outras músicas destinadas ao Carnaval (marchas, sambas e até frevo), sobretudo para atender o repertório da orquestra que dirigia.

A graciosa marchinha “Japonesa do Brasil” tem introdução marcante, inicia por notas características da cultura japonesa, marcadas pelo kotô e o xilofone, e termina no gênero tipicamente nacional, ao estilo de Lamartine Babo, Braguinha ou Capiba. É inevitável a mistura de raças, que bem assinala o povo de nosso país, traduzida na miscigenação dos estilos protagonizados por Wilson Fonseca na composição. O enredo, próprio da época, idealizado pelo compositor, tem começo, meio e fim de uma história de imigração oriental para o Brasil, para felicidade de todos.

O próprio compositor descreve as circunstâncias em que a música foi criada, no seu Discurso de Posse na Academia Paraense de Letras, em 15 de setembro de 1995, quando assumiu a cadeira nº 7 (Patrono: Domingos Antônio Rayol, Barão de Guajará), sucedendo ao Maestro Waldemar Henrique:

“Conheci o Prof. Georgenor de Sousa Franco Sênior (Príncipe dos Poetas Paraenses) – que por sucessivas administrações presidiu esta Academia, pai do ilustre Acadêmico Georgenor Franco Filho, incumbido de saudar-me nesta solenidade -, no ano de 1949, quando era editor da Página Literária da saudosa ‘Folha do Norte’. Naquele ano promoveu um concurso público de músicas carnavalescas de âmbito estadual. Àquela época predominavam temas inspirados na cultura estrangeira, como ‘Touradas em Madri’ (Espanha), ‘Ala-lá-ô’ (Saara), ‘Tirolesa’ (Tirol), ‘Lig-lig-lé’ (China), ‘Caninha Verde’ (Portugal), ‘Yes, nós temos banana’ (América do Norte), ‘Canção para inglês ver’ (Inglaterra), ‘Ride palhaço’ (Itália) e tantos outros. Concorri com a marcha ‘Japonesa do Brasil’, que foi classificada entre as três primeiras premiadas. Comandou a claque (improvisada de última hora) em favor de minha marchinha, o meu saudoso amigo e parente Cléo Bernardo Braga. Georgenor Franco, então bancário como eu, ele no Banco da Amazônia S.A. (BASA), em Belém, e eu no Banco do Brasil S.A., em Santarém, deu como subtítulo à matéria jornalística que proclamou o resultado do concurso esta exclamação: ‘um bancário que entende de música!’”

E prossegue Isoca, em cuja Obra Musical figuram inclusive sambas-enredo para carnavais da cidade:

“’Japonesa do Brasil’ foi muito executada nos carnavais santarenos e pela sua classificação obteve o prêmio de Cr$-500,00 (quinhentos cruzeiros), oferta do conhecido Guaraná ‘Simões’. Distribuí essa importância, eqüitativamente, entre os dez companheiros do meu conjunto musical ‘Euterpe Jazz’, já que sempre foi norma em minha vida artística, nada usufruir financeiramente daquilo que me nasce da alma”.

Contudo, tal como Ary Barroso, Isoca sempre defendeu o direito autoral.

Na gravação do CD, o andamento da música é mais lento do que o original (qual marcha-rancho), para permitir o emprego de coreografia capaz de sugerir um baile que possa contar com a presença da tradição nipônica.

Afinal de contas, “um bancário que também entende de música” não poderia descobrir senão uma japonesa diferente das demais.

Composta em 1949, no pós-guerra e vinte anos após a recessão econômica de 1929, a marchinha, apresentada no CD, apenas na versão instrumental, é intemporal e tem todos os ingredientes para agradar, de leste a oeste.

Alguém poderia imaginar que o disciplinado funcionário do Banco do Brasil, que trajava paletó e gravata, sapato preto, que ficava em casa com pijama de mangas e calças compridas, aquele pacato santareno, que se tornou Ministro da Eucaristia, organista e dirigente do Coro da Catedral, chegou a vestir uma camisa vermelha e entrou na folia do Carnaval, tocando o seu saxofone, como nos bailes de outrora?

Isoca ainda fez mais. Chegou a jogar futebol, com calça comprida e tudo mais, numa disputa que envolvia funcionários do Banco do Brasil. No time adversário, havia um funcionário, menos graduado, que sempre deixava a bola, de graça, para ele.

Meu pai era vascaíno e torcia pelo São Raimundo Esporte Clube, de Santarém, ao qual dedicou um hino (1968), a exemplo de Lamartine Babo, autor de famosos hinos futebolísticos. Isoca fez quase uma centena de hinos, para os mais diversos eventos e homenagens.

Meu avô José Agostinho da Fonseca (1886-1945) também escreveu hinos ligados ao futebol, como Foot-Ball, Hino do Tapajós Foot-Ball Clube, Santa Cruz Sport Clube (letra de Paulo Rodrigues dos Santos), Torcedoras (letra de Felisbelo Sussuarana) e União (Esporte Clube, de Fordlândia-PA).

Na tradição da família, eu também compus diversos hinos (mais de 130) e músicas alusivas ao futebol, tais como Azulino (letra de José Wilson Malheiros da Fonseca), Hino do América Futebol Clube de Santarém (letra de José Wilson Malheiros da Fonseca), Hino do Fluminense Esporte Clube de Santarém (letra de João Luís Sarmento), Preito ao São Francisco Futebol Clube de Santarém (letra e música), Futebol (letra e música) etc.

Como disse, Wilson Fonseca compôs até sambas-enredo: Terra da Liberdade (1975) e Terra do Amor (1976), ambos com letras de Emir Bemerguy, para a Escola Ases do Samba, de Santarém (PA).

Seguindo essa tradição, eu compus algumas músicas de Carnaval, inclusive sambas-enredo: Nurandaluguaburabara (1976, letra de José Wilson Malheiros da Fonseca; e nova letra que elaborei em 2007); Tempos de Criança (1977, letra de Emir Bemerguy, para o Carnaval de 1978, dedicado à Escola Ases do Samba, que foi a campeã do Carnaval daquele ano, em Santarém, sendo dirigida pelo artista santareno Laurimar Leal, puxador do samba na avenida); Hino do Folião (1978, marchinha, com letra de Felisberto Sussuarana); Lendas e Mitos (letra de Renato Sussuarana, para a Escola Ases do Samba, que novamente foi a campeã do Carnaval de 1979, em Santarém); Samba-Tema da “Grande Família”, de Monte Alegre-PA (1979, letra de José Wilson Malheiros da Fonseca); Roraima no Carnaval/80 (1980, letra de José Wilson Fonseca, Vicente Fonseca e Paulo Duarte Sobrinho); “Serra da Escama” – marcha-rancho (2010, letra de Célio Simões de Souza, dedicada a um bloco carnavalesco de Óbidos-PA); “Bloco dos Bacanas” – marchinha de Carnaval (2017, letra de Renato Sussuarana); e “No Bater do Coração… O Rufar do Tambor Alegra com Emoção” – samba-enredo para a Escola “Ases do Samba, Carnaval de 2022, de Santarém com letra de Renato Sussuarana).

A título de ilustração, refiro-me à mais recente música de Carnaval que compus, de parceria com o amigo e confrade Renato Sussuarana:

NO BATER DO CORAÇÃO

(O RUFAR DO TAMBOR ALEGRA COM EMOÇÃO)

(Samba-enredo – Escola “Ases do Samba” – Carnaval de 2022)

Letra: Renato Sussuarana

(Santarém-PA, 12 de fevereiro de 2021)

Música: Vicente José Malheiros da Fonseca

(Belém-PA, 13 de março de 2021)

Olha eu aí!

Olha eu de volta,

A alegria invade o coração,

Minha bateria se solta,

Eu venho cantando

Pra alegrar com emoção.

Trago a força da vida

Na avenida colorida.

Trago de volta a beleza

Com a grandeza do bater…

(Com a grandeza do bater…)

…Forte

Do meu coração.

Trago a bandeira da paz

E com ela vou dançando,

Tristezas nunca mais!

(Tristezas nunca mais!).

(Intermezzo instrumental)

Eu venho!

Venho alegre,

Venho faceira,

Tão colorida,

Alegrando a minha vida.

Eu estou tão feliz,

Olha o meu renascer

(Olha o meu renascer),

Sou tapajoara,

Sou ASES DO SAMBA

Com alegria quero viver.

(Intermezzo instrumental)

Bate forte!…

Bate forte!…

Bate forte coração

No rufar do tambor,

No rufar do tambor.

Venho alegrar teu coração

No rufar do tambor,

Venho alegrar teu coração

No rufar do tambor.

Tum, tum, tum, tum!

Tum, tum, tum, tum!

Tum, tum, tum, tum!

Tum, tum, tum!

Bate forte!…

Bate forte coração.

Trago a felicidade,

Trago a poesia,

Sou a fantasia

Que enfeita esta cidade,

Sou a fantasia

Que enfeita esta cidade.

Eu sou a arte,

Sou artesanato.

Sou Paulo Lisboa,

Sou Laurimar Leal,

Eu sou Renato.

Sou a arte pura,

Sou a escola querida,

Sou alegria,

Sou carnaval,

Sou Ases do Samba

Para alegrar a tua vida!…

Olha eu aí!…

(Repete toda música)

_____________

Trombone, Piano e Percussão.

Ouça a música (execução simulada por computador):

Reportando-me a uma de minhas obras musicais, antes aludidas, Nurandaluguaburabara, para quem não sabe, era o nome do tuxaua ou morubixaba (chefe) da tribo dos índios Tupaiús, em 1661, na época da fundação, pelo Padre João Felipe Bettendorf, da aldeia missionária que deu origem a Santarém, segundo consta no livro “Tupaiulândia”, do mestre Paulo Rodrigues dos Santos.

Para encurtar a história, assim como Lamartine Babo, Isoca, que igualmente possuía senso de humor refinado e tinha particular apreço pelos trocadilhos, também entendia de código Morse (adotado na telegrafia).

Certa vez, seu aluno de violino (Adalberto Gentil, que era telégrafo) somente conseguiu executar o trecho de uma lição quando o Maestro lembrou-lhe da semelhança com os toques de telegrafia.

Papai era fã de Lamartine. Lembro-me de que em casa havia um disco com aquele originalíssimo fox-satírico intitulado Canção para inglês ver (1931), uma antecipação da Tropicália, com uma deliciosa misturada de inglês, francês e português: “I love you, forget iskaine/Maine Itapiru/Forget five Underwood/I Shell/No bonde Silva Manuel…”.

Uma das músicas que Isoca gostava de tocar, no piano, era No Rancho Fundo (música de Ary Barroso e letra de Lamartine Babo). Aliás, Lamartine, entusiasmado com a melodia que Ary Barroso havia composto para o poema Na grota funda, de J. Carlos, resolveu fazer outra letra, mudando o título da composição para No Rancho Fundo. Ary gostou tanto do trabalho de Lalá que a partir daí compuseram juntos uma série de sucessos.

Havia muita semelhança entre Lamartine e Isoca. Mas também uma diferença que merece destaque.

Lamartine não tinha formação musical acadêmica, embora dotado de uma ”exacerbada musicalidade”, como dizem seus contemporâneos.

Essa característica foi destacada pelo Maestro Radamés Gnatalli em entrevista para o Jornal do Brasil(30 de julho de 1977): ”A maioria dos compositores não sabia música e passava suas composições para os arranjadores transporem para a pauta. A nós competia vestir a música toda. Um dos poucos compositores que sabiam exatamente o que queriam de suas músicas era Lamartine Babo. Ele descrevia todo o arranjo, cantando a introdução, meio e fim, solfejava e sugeria partes instrumentais. A gente só fazia escrever”.

Isoca, praticamente autodidata, escrevia suas próprias músicas, arranjos e transcrições. O compositor santareno deixou um acervo magnífico, que ainda precisa ser mais bem conhecido.

O musicólogo Luís Roberto Von Stecher Trench, Presidente da Academia de Música do Brasil, publicou no Facebook, em fevereiro de 2020, o oportuno artigo “Villa-Lobos Carnavalesco – O Patrono da Academia de Música do Brasil e suas relações com o Carnaval“, do qual destaco o seguinte trecho:

“Quanto ao Carnaval, Villa-Lobos além de compor a Suíte para piano “Carnaval das Crianças Brasileiras” (que mais tarde transformar-se-ia no Momoprecoce para banda e piano – estreia pelo Maestro Assis Republicano à frente da Banda dos Fuzileiros Navais do Rio de Janeiro – e depois orquestra e piano) na década de 40 resolveu – e com seus próprios recursos – criar e formar um bloco carnavalesco – O Sodade do Cordão. Esta iniciativa única passou à História do nosso Carnaval. E por duas vezes Escolas de Samba do Rio de Janeiro homenagearam Villa-Lobos: na década de 60 e no final dos anos 90 pela Mocidade Independente de Padre Miguel: “Villa-Lobos é Prova de Brasilidade” foi o enredo. Penso que ele mereceria uma terceira homenagem de parte das Escolas de Samba por tudo o que representou para o Brasil, não acham?”

https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=806825769817700&id=100014708525065

Em 1981, a Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense, campeã do Carnaval carioca, homenageou Lamartine com o belíssimo enredo ”O Teu Cabelo Não Nega (Só Dá Lalá)”.

No Carnaval de 1997, Wilson Fonseca (Maestro Isoca) foi homenageado, num carro alegórico[1], pelo Grêmio Recreativo Acadêmicos do Samba da Pedreira, de Belém, sob o enredo “Foi assim, não te foste de mim”, tributo ao poeta santareno Ruy Barata, uma das mais queridas figuras da escola. Pela primeira vez a comissão-de-frente foi entregue a uma escola de dança clássica, sob o comando de Vera Lúcia Torres. No desfile, as moças deram um show e, a partir daí, ficaram como elementos integrantes da escola. Isoca não pôde comparecer, por motivo de saúde, mas, emocionado, assistiu à homenagem pela televisão.

Wilson Fonseca bem merece a homenagem, como a promulgação da Lei Municipal nº 19.132, de 28 de novembro de 2012, cujo Projeto é de autoria da então Vereadora Marcela Tolentino de Matos, que dispõe sobre a denominação da “Rua Wilson Dias da Fonseca (Maestro Isoca)”, na Pérola do Tapajós, à antiga Rua Floriano Peixoto, onde nasceu e residiu o compositor santareno, que no corrente ano de 2022 completa 110 anos de nascimento.

Além de outras homenagens, destaco ainda: a Lei Federal nº 11.338, de 03 de agosto de 2006, que denomina o Aeroporto de Santarém como “Aeroporto Maestro Wilson Fonseca”; o Decreto Municipal nº 27.126, de 09 de outubro de 2006 (Administração: César Maia), que denomina um logradouro no Rio de Janeiro  com o nome de Wilson Fonseca (compositor); a Rua Maestro Wilson Fonseca, no bairro Japiim, em Manaus (AM); a Lei Estadual nº 7.337, de 17 de novembro de 2009, que declara como integrante do patrimônio cultural do Estado do Pará a obra musical e literária do Maestro Wilson Fonseca (Isoca); a Lei Municipal nº 18.388, de 28 de abril de 2010, que dispõe sobre a criação do Museu Wilson Dias da Fonseca – Maestro Isoca, “cujo propósito ímpar é manter vivo o importante acervo cultural, bibliográfico, discográfico, fotográfico, videoteca e demais materiais e equipamentos que façam referência ao imortal Maestro santareno”.

No artigo que escrevi em 2004 (“Isoca e Lamartine Babo: Outros Carnavais“), ressaltei que “no ano em que se festeja o centenário de um dos maiores compositores populares do Brasil, é momento de lembrar de que aqui temos um Maestro soberano, que também reinou em outros carnavais”.

De fato, o extraordinário acervo musical de Isoca é um tesouro que precisa ser mais explorado. Antes da banda passar e até que venham outros carnavais, fiquemos com a nossa estrela d’alva, que do céu desponta, qual lira iluminada, com seu farol eterno, cuja luz se reflete em nossas mentes e corações, em sintonia com o mais lindo rio do mundo, num belo pôr-de-sol, que anuncia mais uma noite de folia. Nenhuma beleza da terra querida escapou à inspiração de Isoca. Suas marchinhas têm o toque de mestre. O teu talento não nega, Maestro!

JAPONESA DO BRASIL

(Marcha carnavalesca)

Letra e Música: Wilson Fonseca (1949)

Uma japonesa

Descobri mesmo assim:

Muito diferente,

Diferente das demais;

Não usa quimono

Nem sandálias de cetim,

Veste-se à moderna

E conosco vive em paz.

Chegou lá do Japão

(Já vinte anos são passados)

Em numerosa imigração,

Um casal de namorados.

Passaram a vida inteira

Felizes sob o céu de anil

E deram à terra hospitaleira

Uma japonesa do Brasil!

Alguns trechos deste artigo foram transcritos, com atualizações, do livro “A Vida e a Obra de Wilson Fonseca (Maestro Isoca)”, de minha autoria, em homenagem ao centenário de nascimento de meu saudoso pai, impresso na Gráfica do Banco do Brasil, Rio de Janeiro, 2012, bem como do texto que escrevi no encarte do CD “Sinfonia Amazônica” (volume 2), gravado pela Orquestra Jovem “Maestro Wilson Fonseca”, sob a regência de meu irmão Maestro José Agostinho da Fonseca Neto (Tinho), Santarém-PA (2002-2003).

Ouça a música “Japonesa do Brasil” (Wilson Fonseca – Maestro Isoca):


[1] Desfilou, como destaque, no carro alegórico a sua neta Gleisse Alessanda Canto Fonseca (nascida em 29.12.1975).

Rosilda Malheiros da Fonseca (então noiva de Wilson Fonseca – Maestro Isoca) no Carnaval, em Santarém-PA (década de 30 do século XX).

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